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O machismo na Europa segundo mulheres brasileiras

22 de março de 2018

De assédio no ônibus a olhares tortos por voltar ao trabalho poucos meses depois de se tornar mãe: brasileiras que vivem em países como Itália, Alemanha e Espanha relatam situações vividas no continente.

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Protesto contra a violência contra a mulher em Bruxelas
Protesto contra a violência contra a mulher em BruxelasFoto: Imago/M. v. d. Meerschaut

Assédio e violência sexual são as principais preocupações de mulheres em todo o mundo. É o que aponta uma pesquisa sobre a percepção de 20 mil entrevistados em 27 países em relação aos problemas enfrentados pelas mulheres, divulgada neste mês. 

Realizado pelo instituto de pesquisa Ipsos, o estudo apontou como uma percepção geral das mulheres de diferentes culturas o fato de que denúncias de casos de abuso sexual são ignoradas pela sociedade.

O instituto elencou os principais problemas apontados em cada país. Enquanto violência física e sexual aparece em primeiro lugar no Brasil, a desigualdade salarial é o principal problema para mulheres de países europeus desenvolvidos, como Alemanha, Bélgica e Suécia.

Leia também:

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Para desmistificar a ideia de que o machismo existe somente nos países menos desenvolvidos, a DW Brasil entrevistou brasileiras que vivem em diferentes países da Europa.

Os relatos abaixo, que incluem de abuso sexual a preconceito contra mulheres que tentam conciliar profissão e maternidade, são de brasileiras de 21 a 52 anos que vivem há pelo menos um ano no continente europeu. Algumas das fontes preferiram não ter o sobrenome divulgado. 

Nas ruas e no transporte público

Em junho do ano passado, a brasileira Andressa K. viajava em um trem urbano de Berlim para encontrar o marido em uma estação próxima. Era no fim de semana, à meia noite, e o vagão estava lotado.

"Percebi que um homem olhava para mim insistentemente. Mesmo com o vagão lotado, ele começou a se aproximar de onde eu estava e foi chegando cada vez mais perto", conta Andressa, que mora em Berlim com a família há anos. "Ele se aproximava cada vez mais, e minha reação foi pegar o celular para tentar filmar o rosto dele."

Quando chegou à estação de destino, o homem desceu junto com ela e começou a segui-la. "Eu corria em zigue-zague pela estação, mas ele continuava atrás de mim. Procurei um segurança, não achei nenhum. Ninguém que passava pelo local me ofereceu ajuda. Resolvi parar de correr e perguntar o que ele queria comigo", conta.

O homem a segurou, passou a mão por seu corpo e foi embora rindo. Na hora, Andressa ficou sem reação. Ela procurou uma delegacia somente no dia seguinte e foi ouvida por duas policiais mulheres.

"Elas me deram muito suporte enquanto eu relatava o que havia acontecido. Depois, recebi uma carta em nome da estação de trem pedindo desculpas por não ter recebido ajuda naquela noite. E assim ficou a história."

Também no ano passado, desta vez na Itália, a universitária Nara Yoko passou por uma situação parecida. Ao voltar de ônibus para casa, localizada em um bairro residencial de Roma, a brasileira percebeu que recebia olhares maliciosos de um passageiro.

"Como moro afastada do centro da cidade, pensei que o homem não permaneceria tanto tempo no ônibus, que desceria antes de mim", conta. Para surpresa de Nara, ele desceu no mesmo ponto que ela.

"Ele me seguiu até a porta de casa. Quando fui abrir o portão de casa, ele me agarrou e tentou me beijar. Eu me debatia e chorava, mas ele continuava a se esfregar em mim. Não sei como consegui escapar dele e entrar em casa correndo", relata.

Diferentemente de Andressa, a universitária não procurou a polícia para relatar o caso. Apesar do medo de andar sozinha à noite em Roma desde o ocorrido, Nara afirma que não deixou de sair de casa por receio de que algo do tipo voltasse a acontecer. Ela aponta que uma forma de assédio recorrente na Itália são os comentários grosseiros dos homens nas ruas.

"Percebo que o país tem uma cultura forte do que chamam de 'cantada'. Eu, assim como as italianas, passo por isso sempre que estou na rua", conta. "Acredito que não ouviria tantos desses comentários grosseiros se estivesse acompanhada por um homem, porque os homens aqui dizem respeitar a 'propriedade alheia', maneira como veem as mulheres que namoram ou são casadas."

Os abuso sexuais relatados acima por Andressa e Nara podem parecer casos isolados, mas dados da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (UE) mostram que abusos contra mulheres na Europa são mais frequente do que imaginamos.

De acordo com um levantamento de 2014, feito com mais de 42 mil entrevistadas dos 28 países da UE, uma em cada três mulheres do continente já foi abusada sexualmente, violentada e/ou agredida. 

A comunicadora Amanda Fernandes, que mora há dois anos em Barcelona, na Espanha, nunca sofreu assédio sexual no transporte público ou nas ruas, mas se sente incomodada com a maneira como é tratada pelos europeus quando diz ser brasileira. 

"Cheguei ao ponto de evitar mencionar que sou brasileira para um homem que acabo de conhecer, principalmente se estou sozinha", conta. "Quando digo que sou do Brasil, a reação dos homens, seja em uma festa ou no trabalho, geralmente é de analisar o meu corpo, ou soltar um 'hmmmmmm'."

Maternidade

Na Alemanha, para impulsionar a taxa de natalidade, o governo oferece benefícios financeiros para quem tem filhos. Mãe e pai têm direito à licença para cuidar do recém-nascido. O casal pode decidir como dividir os meses de licença entre os dois, e, no total, a família tem direito a 14 meses de afastamento. Terminada a licença, as mães ainda podem pedir uma prorrogação para ficarem com o filho até ele completar três anos.

A brasileira Eva B. vive e trabalha em Berlim e recentemente teve uma filha. Por não querer ficar em casa e afastada do emprego por tanto tempo, ela conta que sofreu preconceito ao retornar ao trabalho com a filha ainda bebê.

"Decidi voltar a trabalhar quando minha filha tinha oito meses. Voltei trabalhando só parte do período, 30 horas semanais. Recebi olhares tortos no trabalho e fui criticada pelos colegas por não estar em casa com minha filha", lembra a brasileira.

Quando a filha fez um ano, Eva voltou a trabalhar em período integral. Mais uma vez foi alvo de críticas. "O que mais me chateou foi que muitos comentários vieram de colegas mulheres."

"Em geral, e não só comigo, percebo que há preconceito na Alemanha com as profissionais que decidem voltar a trabalhar antes dos filhos completarem três anos. Como se fosse obrigação da mulher virar mãe e dona de casa em tempo integral nesse período da maternidade", opina Eva.

Profissão

Em 2017, o instituto Ipsos fez uma pesquisa de opinião sobre a situação feminina no mundo com a pergunta: "Você considera os homens mais capazes do que as mulheres?". Dois dos dez países que apresentaram mais respostas afirmativas, dois ficam na Europa: a Rússia ficou em 2º lugar (54% dos entrevistados consideram os homens mais capazes), e a Alemanha, em 6º (20%).

O quanto custa a mais ser mulher

A jornalista Juliana J. se mudou para a Hungria há um ano para trabalhar e cursar um MBA. Em Budapeste, onde mora, ela logo percebeu um clima de competição entre as mulheres e a falta de estímulo para que elas busquem uma vida profissional e independente.

"Pelos comentários que ouço dos húngaros no dia a dia, vejo que é passada a ideia de que é melhor a mulher casar com um homem que supra suas necessidades financeiras do que dedicar a vida ao trabalho e à independência", diz. 

Juliana trabalha em uma empresa de comunicação. Entre as oito pessoas que ocupam um cargo na gerência dos setor, a jornalista é a única mulher. 

Outro comportamento que a incomoda é a maneira como os homens tratam as colegas. "Quando chegam ao trabalho ou a uma reunião, apertam as mãos. Mas fazem o gesto somente entre si: eles pulam as mulheres que estão no local e estendem a mão somente aos colegas."

Na primeira vez que Juliana apertou a mão de um colega de trabalho, foi ignorada. "É vergonhoso", diz.

A designer Helena Kampen mora e trabalha no Reino Unido e acredita que exista um lado silencioso do machismo nos países mais ricos da Europa. "Vejo que em Londres há um machismo irônico e sutil, que te faz duvidar se ele existe mesmo."

No ambiente de trabalho, a designer acha que o machismo é menos velado. "Tenho 28 anos e aparento ser mais nova. Isso faz com que alguns homens me tratem com arrogância no trabalho. Na empresa em que estou hoje, por exemplo, é normal os clientes mais idosos me tratarem como secretária."

Na Alemanha, a pesquisadora Gisele da Cruz conta que no meio acadêmico é raro ver mulheres conduzindo pesquisas e que algumas universidades vêm abrindo vagas somente para pesquisadoras, a fim de tentar igualar a presença delas.

"Mesmo numa dessas entrevistas, fui questionada pelo homem que seria o orientador do trabalho se eu tinha ou queria ter filhos, pois a posição era para tempo integral", conta.  

Para Gisele, apesar de vários avanços na sociedade alemã, "a falta de empatia entre as pessoas faz com que o machismo seja ignorado e continue existindo". 

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