O carregador de lixo Michael Speckin, de Hamburgo | Entenda a Alemanha, sua diversidade, estrutura e história | DW | 26.04.2010
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Entenda a Alemanha

O carregador de lixo Michael Speckin, de Hamburgo

Acordar cedo significa ter um dia de estresse? O carregador de lixo Michael Speckin, de Hamburgo, garante que não. Para ele, qualidade de vida é ter tempo de manhã para um cigarro, um café e um bate-papo com os amigos.

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"Pra mim tanto faz dormir uma, cinco ou dez horas", afirma o lixeiro Michael Speckin, de 47 anos. Todos os dias ele acorda às 5h30 para se despedir do filho. "Ainda vou até a janela abanar para ele, apesar de ele já ter 21 anos", conta Michael, pais de dois filhos.

As primeiras horas do dia são muito valiosas para Michael, que gosta de passar esse tempo em paz, fumando um cigarro e bebendo café. Para ele, é importante começar o dia de forma tranquila.

Às 7h ele aparece no centro de reciclagem, mesmo que o trabalho só comece às 7h45. Mas os funcionários já se reúnem uma hora antes para beber café, fumar e contar as novidades e acontecimentos da noite passada.

Segundo Michael, essa é uma tradição entre os carregadores de lixo na Alemanha. Quem prefere não participar acaba não pertencendo, de fato, ao grupo.

Irmandade masculina

Michael trabalha desde 1987 na empresa de limpeza pública de Hamburgo. Até três anos atrás, ele trabalhava como gari nos caminhões de lixo da cidade. Mas aí vieram as dores nas costas, e depois de duas operações, ele foi transferido para o centro de reciclagem.

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Café e cigarro fazem parte do cotidiano de Michael

Lá Michael não precisa mais carregar peso. Sua nova tarefa é coordenar a separação do lixo que as pessoas entregam. Uma dezena de contêineres está disposta no pátio para o recebimento de lixo. Tudo é separado: desde folhas de árvores até aparelhos eletrônicos, de móveis a tampinhas de garrafa.

No centro de reciclagem trabalham apenas homens. "Isso aqui é um grupo muito unido. Estamos nove horas por dia juntos e sabemos muito uns sobre os outros. Fico feliz em estar somente na companhia de homens. Há muitas coisas que só podemos conversar entre nós", diz Michael.

Os colegas dividem o trabalho de forma intuitiva: cada um olha o que os outros estão fazendo e o que ainda há por fazer. "Ser sempre simpático com os clientes": esse é o lema pessoal de Michael. Talvez por isso alguns vão até o centro de reciclagem não apenas para entregar lixo.

O lado psicólogo

"Há muitos que vêm três ou quatro vezes por semana com um pouco de lixo. Pode-se perceber que eles vêm principalmente para bater papo. Geralmente são aposentados", conta Michael.

Algumas pessoas contam toda a história do seu lixo: de onde ele vem, como ele era usado, por que o estão jogando fora. Michael diz em tom de brincadeira que é necessário ser "meio psicólogo" para trabalhar no centro de reciclagem.

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Michael (e) com os colegas: um grupo unido e alegre

Às vezes ainda aparecem ex-colegas que se aposentaram ou mesmo aqueles que têm o dia livre. Quem pertence ao grupo é recebido com café. Os carregadores de lixo bebem muito café – no caso de Michael, são 20 xícaras por dia.

Além disso, ele fuma cerca de 40 cigarros diariamente. Michael não nega que se preocupa com a sua saúde. Ele gostaria de parar de fumar – principalmente depois que um tio morreu de câncer no pulmão.

Mecânico ou carpinteiro

Michael começou a trabalhar aos 15 anos, no porto de Hamburgo, logo após concluir a escola alemã Hauptschule, o equivalente ao ensino fundamental no Brasil. Ele preferiria ter sido mecânico ou carpinteiro, mas não conseguiu vaga nos cursos de formação profissional. Depois começou a ganhar bem e desistiu do seu projeto inicial.

Michael diz que está satisfeito com o trabalho: "É um emprego muito seguro. Dificilmente a prefeitura demite alguém, afinal ela não pode falir. E lixo sempre vai existir", argumenta. A falta de prestígio da profissão não o incomoda, assegura. Ele diz ter orgulho do que faz.

Leitor de Dan Brown

Depois do expediente, Michael vai direto para casa. Ele conta que não consegue se imaginar vivendo sem a família – e, de fato, nunca viveu sozinho. "Não gosto quando a minha mulher não dorme em casa. Não consigo dormir", diz.

Duas ou três vezes por semana ele vai à academia de ginástica. Nas demais horas de folga, gosta de trabalhar no porão da casa, onde tem uma oficina amadora. Lá Michael navega na internet e conserta computadores de amigos e parentes.

Entre as ocupações favoritas de Michael está ainda a leitura. Ele gosta de livros de ficção científica e de histórias do velho oeste. Seus autores favoritos são William Shatner e Dan Brown. As 700 páginas de Illuminati, best seller de Brown, foram lidas por Michael em apenas duas noites.

"Quando começo um livro e ele me prende, não consigo largá-lo antes de chegar ao fim", diz o lixeiro de 47 anos. Nessas horas, ele fica acordado até as 3h ou 4h, lendo. Afinal, ele mesmo diz que não faz muita diferença se dormiu uma, cinco ou dez horas.

Autora: Olga Sosnytska (as)
Revisão: Bettina Riffel

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