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O Brasil na imprensa alemã (16/11)

16 de novembro de 2022

"Esperança para Amazônia": jornais da Alemanha destacam reviravolta nas políticas ambientais com Lula, além de abordar protestos bolsonaristas em frente a quartéis e preconceito sofrido por nordestinos no Brasil.

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O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva veste camisa jeans e olha compenetrato para uma plateia, para a qual fala com um microfone. Ele segura o microfone com a mão direita e ergue o dedo indicador com a mão esquerda.
Desafios de Lula no meio ambiente foram alguns dos principais destaques sobre o Brasil na mídia alemã na última semanaFoto: Carla Carniel/REUTERS

Tagesschau – Esperança para a Amazônia graças a Lula? (16/11)

O Brasil está de volta ao cenário internacional. Já na noite das eleições, o futuro presidente Lula da Silva enviou um sinal de importância global: após quatro anos perdidos sob o governo Bolsonaro, a proteção ambiental será novamente uma prioridade em seu governo, prometeu.

Uma tarefa hercúlea. Porque as possibilidades do Estado de tomar medidas contra crimes ambientais foram sistematicamente destruídas durante a presidência de Jair Bolsonaro. As leis foram enfraquecidas, órgãos tiveram seus orçamentos cortados, os cargos principais foram preenchidos por pastores evangélicos ou militares não familiarizados com o tema – e a designação de áreas protegidas foi completamente suspensa.

Lula promete nada menos do que uma reviravolta de 180 graus [nas políticas ambientais]. Por reforçar isso, ele é aguardado na conferência climática [da ONU] no Egito [COP27] – não como parte da delegação oficial, é claro, mas sim acompanhando governadores dos estados da região amazônica e Marina Silva. Ela foi sua ministra do Meio Ambiente de 2003 a 2008 e responsável pelo fato de o Partido dos Trabalhadores ter conseguido reduzir o desmatamento, que era massivo na época, em mais de 80%.

É esperado que as reivindicações dos países industrializados para cofinanciar a proteção das florestas tropicais ganhem peso com um Brasil governado por Lula. Isso é uma questão central nas negociações sobre o clima na ONU. A Noruega e a Alemanha já anunciaram que pretendem retomar os repasses do Fundo Amazônia que estão congelados desde 2019.

Ainda assim, a reviravolta prometida por Lula não será fácil. No Congresso, seu governo enfrentará uma maioria conservadora, junto da qual a indústria agrícola tem muita força. Até o momento, preocupações ambientais não estiveram no topo da agenda.

Süddeutsche Zeitung – A esperança verde Lula da Silva (15/11)

Se quisermos entender o tamanho da reviravolta que o Brasil busca atualmente na política ambiental, a Conferência do Clima da ONU é um bom ponto de partida. Em 2021, quando o evento foi realizado novamente após um ano de pausa devido à pandemia de coronavírus, o presidente de direita brasileiro Jair Bolsonaro enviou apenas uma delegação. Ele mesmo tinha outras coisas a fazer: em uma pequena vila italiana onde o seu bisavô nasceu, queriam lhe conceder o certificado de cidadania [italiana] honorária; Bolsonaro achou apropriado recebê-lo pessoalmente.

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Com o recém-eleito presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, as coisas são diferentes. O político de 77 anos tomará posse em 1º de janeiro, mas, antes disso, viajará para o Egito, onde ocorrerá a conferência climática neste ano. O simbolismo não poderia ser maior – mas o mesmo vale para as expectativas. Por um lado, porque o Brasil é considerado uma das chaves para combater a mudança climática.

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O problema é que o presidente em exercício do Brasil, Jair Bolsonaro, vê a floresta tropical menos como uma maravilha natural a ser preservada, e mais como um tesouro apenas para ser explorado. Já na campanha eleitoral de 2018, o político de direita havia prometido abrir a região amazônica para a exploração econômica. [...] Sob Bolsonaro, o desmatamento disparou, incêndios enormes se alastraram, a fumaça escureceu o céu a centenas de quilômetros de distância.

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Com Lula deve ser diferente: "O mundo precisa da Amazônia para sobreviver", disse o político na noite das eleições. "Vamos lutar para estancar o desmatamento." De fato, Lula da Silva já provou no passado que há meios e modos de frear a destruição da Amazônia ou, pelo menos, de retardá-la de forma considerável.

Frankfurter Allgemeine – Esperança para a cena cultural com a vitória de Lula (16/11)

Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais no Brasil, a cena cultural espera novos impulsos e um aumento no orçamento. "O clima já está melhorando", diz o artista Ernesto Neto, no Rio de Janeiro, para a agência Deutsche Presse.

O presidente de direita Jair Bolsonaro, que assumiu o cargo no início de 2019, vê a cultura acima de tudo como um mal necessário – e a utiliza para difundir seus conceitos. O Ministério da Cultura, por exemplo, foi rebaixado para uma secretaria. O então responsável pela pasta, Roberto Alvim, foi demitido em 2020 por causa de um discurso ao estilo do ministro da Propaganda nazista Joseph Goebbels. O financiamento para a cultura foi cortado ou bloqueado.

"Esses quatro anos têm sido um ataque brutal à cultura de um governo que defende a ação policial letal e o controle de armas", diz Neto. "Isso só leva a ódio, morte, tristeza, sofrimento – e isso é o oposto da arte."

Em seu discurso da vitória, Lula prometeu restabelecer o Ministério da Cultura e retomar o financiamento cultural.

Frankfurter Allgemeine – Sem fraude e ainda com espaço para dúvidas (10/11)

Com a crença de que a eleição poderia ter sido manipulada, os apoiadores mais radicais do presidente derrotado Jair Bolsonaro têm resistido no Brasil há quase duas semanas. Os bloqueios iniciais nas rodovias se dissolveram. Mas grupos de manifestantes que não reconhecem os resultados eleitorais continuam a fazer vigílias em frente a prédios militares em várias cidades. Em manifestações no último fim de semana, eles pediram intervenção militar para impedir que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva assuma o cargo em janeiro.

Uma análise do processo eleitoral apresentada pelo Exército  na quarta-feira [da semana passada] fornece ainda mais munição [para os radicais]. Ainda assim, nenhuma evidência de irregularidades ou de manipulação da eleição foi encontrada, o que já foi reforçado por instituições e especialistas em relação às urnas eletrônicas e ao processo eleitoral. No entanto, o Ministério da Defesa não descarta completamente a possibilidade de manipulação.

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Quando os ricos atacam os pobres (09/11)

Abaixo de uma foto de Adolf Hitler, há a seguinte frase: "Se ele pôde fazer isso com os judeus, eu posso fazer com os petistas". A referência é aos eleitores do Partido dos Trabalhadores (PT), de Luiz Inácio Lula da Silva, vencedor das eleições brasileiras. O post, publicado logo depois do pleito de 30 de outubro em um grupo de WhatsApp de estudantes da escola alemã privada Visconde de Porto Seguro, no município de Valinhos, no interior de São Paulo, causou inquietação.

Esse foi apenas um dos muitos discursos de ódio racistas no grupo, que teve também apelos de escravidão para o povo da região Nordeste. Um estudante negro denunciou o grupo, e um colega o atacou: "Morra, seu negro filho da puta".

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Os excessos na escola em Valinhos não são caso isolado. Também em outras escolas privadas ocorreram incidentes semelhantes nas últimas semanas. Diversos vídeos circularam nas redes sociais. Em um deles, alunos de uma escola privada no sul do Brasil fazem piadas com os pobres e os nordestinos.

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Os preconceitos raciais contra a população do Nordeste estão profundamente enraizados, especialmente no sul do Brasil, onde a maioria da população é de ascendência europeia. Durante gerações, a ideia de ser melhor que a população nordestina, predominantemente descendente de escravos africanos, foi reforçada. Os nordestinos são muitas vezes vistos como menos inteligentes e como se servissem apenas para trabalho manual.

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O ódio contra o Nordeste e os nordestinos ficou ainda mais evidente nas eleições. Já era o caso em anos anteriores, porque o PT, que é de esquerda, costuma obter um expressivo número de votos na região. Oriundo do Nordeste, Lula pôde contar com o forte apoio dos nordestinos neste ano, o que fez a diferença. A preferência do Nordeste [por Lula] não tem apenas razões culturais, mas também econômicas. Comparativamente, a região é mais pobre.

Durante seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, Lula conseguiu reduzir a desigualdade no país, o que beneficiou particularmente o Nordeste, que experimentou um grande impulso de desenvolvimento. E foi assim que Lula diminuiu drasticamente a fome na região. Agora a população é acusada de ter sido "comprada".

gb (ots)