″O Brasil está isolado do mundo desde a ditadura″ | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 12.05.2005
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Cultura

"O Brasil está isolado do mundo desde a ditadura"

Então você acha que isso é recíproco?

Sim. Isso também é um reflexo do extremo isolamento em que o Brasil se encontra há décadas em termos de intercâmbio de conhecimento. Mesmo que os brasileiros não achem, o Brasil está isolado do mundo desde a ditadura. O governo FHC, durante o qual o país se achava o centro do mundo, foi um momento de absoluto isolamento. Na época, um jornal como o Le Monde, por exemplo, dava um artigo de três laudas a cada dois meses sobre um assunto geralmente pitoresco do Brasil. Havia mais notícias sobre a Austrália, o Sri Lanka, Madagascar... Depois da eleição do Lula, eu esperava que isso fosse mudar, mas constatei que o desinteresse continua...

De onde você acha que vem este isolamento?

É uma coisa extremamente profunda, ligada à própria estrutura cultural e social do Brasil. O Brasil é um país cujas elites não se responsabilizaram por sua própria sociedade, chegando a ponto de confiar a questão nacional ao Exército. As elites brasileiras têm uma visão profundamente corporativista da sociedade e dos poderes: a liberdade de imprensa pertence aos jornalistas; o patriotismo pertence às Forças Armadas; o direito pertence à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB): enfim, é um mundo que pensa através das corporações. E as elites não se pensam como nacionais. O destino da nação está sob o olhar da opinião pública internacional. Aliás, acho que o Brasil é o único país do mundo em que existe esta noção de opinião pública internacional, pois todo mundo sabe que isso é uma ficção.

Por que o único?

Vou dar um exemplo ligado à questão indígena. Quando se tem um problema desta ordem, envolvendo demarcação de terras, ou seja, conflitos de interesses entre as classes sociais, a resolução do conflito está normalmente ligada às relações de força dentro da sociedade. Neste caso, os índios não teriam a menor chance. Mas quando uns 25 mil ianomâmis, por exemplo, encontram o apoio do Sting ou do príncipe Charles, aí as elites de Roraima se sentem em perigo. Porque são elites que existem através do olhar daqueles que representam – no seu imaginário – a sua própria origem.

"A elite se coloca apenas como classe desfrutadora"

Mas no Brasil sempre há uma exceção (ou mais) à regra. Só para ficar no exemplo indígena, houve o famoso caso do incêndio na Amazônia, no qual o governo FHC se recusou a receber ajuda internacional, alegando soberania nacional. E o incêndio acabou sendo apagado após uma pajelança... Este seria um exemplo de que o Brasil na verdade não se importa com a opinião pública internacional.

Muito pelo contrário, isso confirma o que estou dizendo. Este corporativismo das elites, que é uma espécie de neurose, pode se reverter de uma maneira instantânea. A opinião pública internacional pode ser recusada em nome da soberania nacional. Uma coisa ligada a esta neurose é o fato de esta elite não se colocar como classe dirigente, mas apenas como classe desfrutadora. Ela confia a responsabilidade histórica dela a diferentes corporações, sob o olhar da opinião pública internacional, que lhe dá a gratificação.

Se a propagação da cultura brasileira é inviabilizada por este isolamento que você descreve, então eleger o Brasil como país de destaque da saisons culturelles da França, por exemplo, dificilmente vai contribuir para resolver o problema, não é mesmo?

Não acredito que isso seja irreversível. As elites continuam com a mentalidade da República dos fazendeiros, mas não são todas as classes brasileiras. Há uma transformação da sociedade brasileira, desde o fim da ditadura, no sentido de que as pessoas estão passando a se sentir responsáveis pelo destino da nação.

Voltando à questão indígena, na virada dos anos 90, os índios conquistaram vitórias inesperadas, sabendo muito bem como pressionar as elites. Eles entendem muito bem os mecanismos da sociedade brasileira. Agora o Lula conseguiu demarcar a Raposa Serra do Sol. Isso não é simbólico, é verdadeiro. Isso cria uma dinâmica que está apenas no começo e modifica a noção que a sociedade tem dela mesma.

Gilles de Staal é artista plástico e jornalista. Escreve sobre o Brasil para a mídia francesa. Vive em Paris.

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