Nova política venezuelana para o ouro tem razões geopolíticas, avalia analista | Notícias sobre a América Latina e as relações bilaterais | DW | 18.08.2011
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América Latina

Nova política venezuelana para o ouro tem razões geopolíticas, avalia analista

Motivação de Chávez ao anunciar política nacionalista é complexa, aponta especialista do instituto GIGA de Hamburgo. Além de um sinal às nações industriais, ele tem interesse nas próximas eleições presidenciais.

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Venezuela: reservas em ouro

A Venezuela planeja transferir parte de suas reservas internacionais nos Estados Unidos e na Europa para nações "aliadas" como o Brasil, a China e a Rússia. Desta forma, procura proteger seus ativos dos altos e baixos da economia global e diversificar suas finanças. A outra parte retornará aos cofres estatais.

"Vamos começar a trazer nosso ouro para o Banco Central", declarou o presidente Hugo Chávez num comunicado telefônico transmitido pela televisão venezuelana na quarta-feira (17/08). Porém a decisão, que também inclui a nacionalização do ouro de seu país, parece obedecer a outras motivações estratégicas.

Estratégia geopolítica

Klaus Bodemer, senior fellow do Instituto de Estudos Latino-Americanos GIGA, de Hamburgo observa que "Chávez está notando que sua política internacional petroleira e sua busca de aliados caiu de perfil nos últimos tempos". Além disso, ele "está diante de uma campanha eleitoral para 2012, necessita de muito dinheiro".

Chávez explicou que tirar o ouro "do Norte" é uma medida "saudável", levando-se em conta a crise econômica que assola os EUA e a Europa, enquanto as nações "aliadas" estão sólidas. Segundo o governante, o total do ouro venezuelano no exterior chega a 11 bilhões de dólares.

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Hugo Chávez, presidente venezuelano

Assim, a Venezuela possuiria 99,21 toneladas do metal – equivalentes a 4,595 bilhões de dólares – em bancos da Inglaterra. "Nos Estados Unidos temos 800 milhões de dólares em ouro [...], em Toronto [Canadá], 381 milhões de dólares desde 1992, e desde 2004 três toneladas de ouro – 184 milhões de dólares – num banco da França."

Interesses ocultos

De acordo com Bodemer, a decisão do chefe de Estado "obedece a interesses geopolíticos junto a seus aliados. E, dentro dessa lógica, ela é compreensível. Com a atual crise do euro e a crise econômico-financeira dos EUA, Chávez argumenta que essas economias são pouco estáveis. Creio que seja uma coisa conjuntural, e com isso Chávez não soluciona nenhum problema estrutural da economia. No mais, essa estratégia é um modo de desviar o interesse a outros focos", avalia o especialista do GIGA.

Porém, antes de poder contar com o ouro, cabe transportá-lo até o país na América do Sul, e trata-se de toneladas. Os fundos destinados às exigências da economia nacional são cada vez mais reduzidos e – embora o preço do petróleo se mantenha relativamente alto – sua utilização crescentemente questionada.

Esse questionamento não parte apenas da oposição e das empresas multinacionais, mas também dos próprios aliados", observa Bodemer. Acrescente-se que a Venezuela se recupera de uma recessão de quase dois anos, porém sua inflação segue sendo a mais alta do continente.

Chávez necessita, ainda, de elevadas somas para custear sua campanha presidencial de 2012. "Esta é outra das razões para querer converter essas reservas em moeda nacional e ter a opção de utilizá-las em sua campanha", opina Klaus Bodemer.

Nacionalização do ouro

O outro anúncio-chave de Chávez foi o de que a Venezuela nacionalizará a indústria aurífera para, entre outros fins, elevar suas reservas internacionais. Isso ocorre num momento em que as cotações do metal tangenciam recordes históricos.

"Já tenho as leis para reservar ao Estado a atividade de extração e exploração do ouro, e todas as atividades relacionadas. Quer dizer, vamos nacionalizar o ouro e vamos convertê-lo, entre outras coisas, em reservas internacionais, pois ele segue crescendo de valor", disse Chávez.

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Klaus Bodemer, de Hamburgo

O presidente informou que seu país conta com um total de 29,9 bilhões de dólares em reservas, dos quais 18.349 bilhões de dólares em ouro. Ele assegurou que a marca de 20 bilhões de dólares logo será alcançada, já que se manterá a extração do metal em Guayana, no sul do país, e este será depositado em cofres nacionais.

A Venezuela possui grandes jazidas de ouro não exploradas no sudeste – uma região também rica em outros minerais, como ferro, bauxita e diamantes. Entre as maiores jazidas auríferas por explorar estão Brisas e Las Cristinas, com cerca de 30 milhões de onças de reservas estimadas.

Sinal anti-imperialista

Em meio aos temores de uma recessão global e à crise de endividamento nos Estados Unidos e na Europa, o ouro – na qualidade de principal metal usado como reserva de valor – alcançou nas últimas semanas um recorde de mais de 1.800 dólares a onça.

"A nacionalização do ouro significa também transferi-lo, para ter uma certa quota de reservas internacionais. E isso também é problemático: agora temos um preço alto do ouro, mas ele seguramente não vai se manter, pode cair muitíssimo", adverte o analista do Instituto de Estudos Latino-Americanos de Hamburgo.

Porém paralelamente a todas as razões apresentadas para a decisão de Chávez, ele supõe também tratar-se de um sinal às potências industrializadas. "Chávez está observando com certa complacência o que se passa no Norte, com a crise financeira do euro e a crise extremamente profunda nos EUA. Por isso, quer transferir esses fundos a outras economias."

Contudo, Bodemer observa que é muito arriscado investir em reservas internacionais e colocá-las em outros países, como a China e o Brasil. "Sobretudo a economia chinesa é muito dependente das economias do Norte. Não é nenhuma garantia. Por isso, parece-me antes de tudo um sinal político, nesta rodada de anti-imperialismo."

Autoria:Cristina Mendoza Weber (av)
Revisão: Soraia Vilela

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