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Rafaella Bona Gonçalves
Projeto de Rafaella de Bona Gonçalves está entre os finalistas do European Inventor AwardFoto: privat
SociedadeBrasil

"Não me vejo trabalhando sem propósitos, sem uma causa"

Malu Delgado
26 de maio de 2022

Brasileira é finalista em prêmio europeu de inventores com projeto de absorvente biodegradável voltado para população de rua. Em entrevista, Rafaella Bona Gonçalves conta sobre seu projeto de combate à pobreza menstrual.

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"Como assim me acharam aqui? Levei um susto.” Foi assim que a designer de produtos Rafaella Bona Gonçalves, 25 anos, graduada pela Universidade Federal do Paraná, reagiu ao ser informada de que estava entre os três finalistas do European Inventor Award.

O prêmio, que reconhece jovens inovadores em todo o mundo, é promovido pelo European Patent Office (EPO), com sede em Munique. O projeto de Rafaella reconhecido pelo Escritório Europeu de Patentes é um absorvente íntimo biodegradável, batizado de Maria, criado com o objetivo de combater a pobreza menstrual e atender populações em situação de vulnerabilidade.

Em entrevista à DW Brasil, horas depois de anunciados os finalistas, Rafaella, que vive em Curitiba (PR), contou a trajetória de pesquisas que iniciou na universidade até a prototipagem do produto apresentado ao EPO, desenvolvido com matéria-prima sustentável: fibra de bananeira, liner de amido de milho, celulose e espuma de soja.

Aos 25 anos, ela atualmente trabalha como pesquisadora numa start up em Curitiba e não pensa, no momento, em se mudar para o exterior. Em 2019, após vencer um prêmio de design na Alemanha, ela ganhou projeção internacional numa palestra para o TEDx, em que falou sobre pobreza menstrual.

"Não me vejo trabalhando sem propósitos, sem uma causa por trás. Trabalho com design de serviços e sou pesquisadora da experiência do usuário. Vejo para o meu futuro trabalhar em projetos sociais, que causem impacto social, trazendo inovação."

A sustentabilidade está sempre em pauta: "Minha geração é bastante consciente sobre os produtos que utiliza”, sentencia. Enquanto os absorventes normais demoram 500 anos para se decompor na natureza, o produto desenvolvido por Rafaella leva um ano e seis meses.

Brasilien Hygiene-Artikel Fa Rafaella Bona Gonçalves
O absorvente desenvolvido por Rafaella de Bona GonçalvesFoto: privat

No próximo mês, Rafaella desembarca em Munique, para a premiação, marcada para 21 de junho. O primeiro colocado vai levar um prêmio de dez mil euros; o segundo e o terceiro lugares receberão cinco mil euros cada.

Concorrem com ela jovens da Bélgica, Reino Unido e Estados Unidos, que aplicaram inteligência artificial em seus projetos. A jovem curitibana já sabe o que fazer com o prêmio: vai investir os recursos em maquinário da start up de Salvador que lhe ajudou a desenvolver a prototipagem do absorvente. Quer uma produção em larga escala.

O reconhecimento pelo EPO pode abrir à jovem brasileira acesso a um mercado de 700 milhões de pessoas. O Escritório Europeu de Patentes busca cooperações para patentes de alta qualidade na Europa, podendo atingir 44 países.

Veja os principais trechos da entrevista:

DW Brasil: Você está há mais de dois anos envolvida neste projeto. Conte um pouco sobre sua trajetória, como tudo começou, como surgiu a ideia de desenvolver um absorvente biodegradável para mulheres e população em situação de vulnerabilidade?

Rafaella Bona Gonçalves: Sou técnica em mecânica industrial e também sou formada em Design de Produto pela Universidade Federal do Paraná. Tudo começou em 2018, na verdade, quando eu estava fazendo um curso sobre soluções de impacto para o futuro, no Centro Europeu. Esse curso tinha como base estudarmos os objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Como trabalho de conclusão de curso teríamos que escolher um dos 17 objetivos e propor uma solução. Eu escolhi o primeiro deles, que era a erradicação da pobreza. Me chamou muito a atenção quando, estudando, vi que o objetivo era "acabar com a pobreza em todos os lugares e todas as formas”.

Fiquei pensando: quais são as outras formas de pobreza? Quais seriam esses lugares? Em Curitiba, onde eu moro, comecei a conversar com as pessoas em situação de rua e me deparei com a questão da pobreza menstrual. Foi um choque. Eu nunca tinha parado para pensar em como essas mulheres passavam por seus ciclos menstruais. Quando me deparei com esse problema, já sabia qual era o assunto a ser tratado, para qual problema eu gostaria de propor uma solução.

E para esse curso você já tinha que apresentar o protótipo de algum produto ou serviço ou apenas uma ideia?

Para este curso era apenas uma ideia. Mas eu fui desenvolvendo o projeto e ele começou a ganhar prêmios e visibilidade. Um dos primeiros prêmios que eu ganhei foi o IF Design Talent Award, em 2019, na Alemanha. Em 2018 quase ninguém falava sobre pobreza menstrual, então foi muito legal levantar essa bandeira. Hoje, em 2022, muitas pessoas comentam sobre isso e começou inclusive a ser tratado por políticas públicas no Brasil. Em 2021, eu apresentei meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] da faculdade, que era uma segunda versão do absorvente.

A primeira versão não era tão comercial e visava apenas absorventes internos. Mas aqui no Brasil a cultura predominante é o uso de absorvente externo. Fiz o absorvente interno porque as pessoas em situação de rua normalmente não possuem roupas íntimas para usar um absorvente externo. Mas é esse tipo de absorvente externo que as pessoas mais gostam e aderem [no Brasil].

Esta segunda versão é de um absorvente externo que pode ser transformado em dois internos, se a usuária quiser. Damos o poder de escolha à usuária. Para o meu TCC desenvolvi melhor o projeto e também pensei em como distribuir isso para as  pessoas em situação de vulnerabilidade, abrangendo um público maior que não apenas mulheres em situação de rua, mas também as estudantes de ensino médio que deixam de ir para a escola quando estão menstruadas, mulheres em cárcere e, para muito além das mulheres, para pessoas que menstruam.

E como você aborda o tema da distribuição dos absorventes?

No meu primeiro projeto meu intuito era que que os absorventes fossem distribuídos pelos governos, mas vi que haveria dificuldade de ir por esse meio, tanto que houve bastante discussão sobre essas políticas públicas. Então tentei ir por outro caminho, pelas empresas privadas, através do capital de responsabilidade social.

Tendo empresas privadas como apoiadoras do projeto eu conseguiria fazer com que houvesse uma campanha sobre pobreza menstrual, em que cada vez que um absorvente fosse comprado por uma pessoa, outro seria doado e entregue para uma ONG e trabalhos voluntários com pessoas em situação de vulnerabilidade [Campanha Compre um, Doe um].

E já existem empresas interessadas nesta comercialização?

Hoje eu trabalho em parceria. Fui atrás de uma empresa que tivesse os mesmos propósitos que os meus, de sustentabilidade, de empoderamento feminino. Encontrei a EcoCiclo, start up que fica em Salvador. Me encantei e junto com elas eu desenvolvi os primeiros protótipos. Com elas eu aprendi como fabricar um absorvente, estudamos juntas sobre que tipos de materiais poderíamos usar no absorvente. Foi bem legal essa troca.

Se eu ganhar o prêmio [o prêmio de inovação do European Patent Office (EPO)], quero ajudar esta start up a aperfeiçoar o produto delas – porque elas também têm um absorvente biodegradável. Hoje elas não conseguem fazer em larga escala porque elas não têm investimento necessário para o maquinário. Um dos meus objetivos com esse prêmio é que eu consiga ajudá-las a desenvolver os maquinários para a produção em larga escala.

O que foi apresentado no Prêmio Europeu de Patentes foi esse último protótipo? Explique um pouco sobre os materiais que você utilizou na prototipagem, como fibra de bananeira.

Isso. Mas apresentei os dois produtos, a versão 1 e a versão 2, e explico os motivos para a evolução. Mandei os protótipos para eles. [Os materiais usados] é fibra de bananeira, espuma de soja, celulose e tem também o liner de bambu. Esses são os materiais que estou estudando, para ver qual é o mais apropriado.

E como você chegou a esses materiais? Você já tinha feito algum estudo, ou algum outro produto ou pesquisa na universidade? O caso da fibra de bananeira imagino que, no Brasil, seja interessante o uso, por haver matéria-prima abundante.

Um dos meus objetivos era que esse produto [o absorvente] fosse sustentável também. Uma das restrições que havia neste projeto, por causa da situação destas pessoas em situação de vulnerabilidade, falta de acesso à água e a banheiros, era que esse produto também deveria ser descartável. Elas não conseguem fazer higiene do produto para reutilização. Então comecei a focar nas matérias primas para que fosse um produto biodegradável, que não prejudicasse o meio ambiente.

Quando estava estudando sobre os materiais, descobri uma empresa na Índia que fabrica absorventes a partir da fibra de banana. E pensei: por que não fazer isso aqui no Brasil? Nós somos um dos maiores produtores de banana do mundo. Comecei a fazer então [o protótipo] com fibra de banana. Mas o absorvente precisa ter 3 camadas. Uma que está direto em contato com o corpo, que precisa ser bem macia e a mais absorvente, para que não fique molhado.

Para a camada do recheio tinha que ter algo também muito absorvente, e onde ficaria armazenado o sangue. Aqui pensamos na fibra de banana, celulose ou espuma de soja. Estamos em fase de estudos para ver o principal material a ser utilizado. E também teríamos a terceira camada, para garantir que o sangue não vaze, uma barreira. Fui vendo as prioridades de cada camada e pesquisando materiais com essas propriedades.

Você testou essas matérias primas na prototipagem? Deu certo? Os resultados foram satisfatórios?

Sim, deu certo. Foi satisfatório. Claro que ainda precisa de ajustes, estudos finais. Um dos objetivos, ganhando o prêmio, que é em dinheiro, é melhorar o produto para que ele possa entrar no mercado.

Quais seus planos profissionais futuros?

Me graduei em 2021. Hoje trabalho com design de serviços para uma start up de serviços aqui de Curitiba, a Robot Laura. Não me vejo trabalhando sem propósitos, sem uma causa por trás. Trabalho com design de serviços e sou pesquisadora da experiência do usuário. Vejo para o meu futuro estar sempre trabalhando em projetos sociais. Não me vejo em uma empresa de absorventes, por exemplo. Por isso gosto muito de trabalhar em parcerias. Me vejo envolvida em projetos sociais que causem impacto social, trazendo inovação.

O Brasil deve ser para você um território muito fértil para a aplicação destes propósitos.

Com certeza. Há muitas oportunidades de utilizar o design e essa abordagem para trazer inovação e impacto para a sociedade. Um dos meus maiores sonhos é trabalhar com políticas públicas, trazer inovação para governos.

E está em seu horizonte estudar fora, morar fora? Já foi sondada?

Na verdade, ainda não estou pensando em estudar fora. Mas claro que, se surgisse uma oportunidade, seria muito legal. Sou muito apega à minha família e, como disse, aqui no Brasil há muitas oportunidades para resolver [problemas]. Mas não descarto ir para o exterior. Em um dos concursos que venci, o Tomie Ohtake [Tomie Ohtake e Leroy Merlin Design Award em 2021], de São Paulo, ganhei uma bolsa para curso de curta duração em Paris. Vou estudar design na França, no segundo semestre, por 15 dias. 

Sobre custos do produto e viabilidade econômica: você tem ideia de preços, por quanto esse absorvente seria vendido?

Hoje não sei dizer o valor exato. Um dos estudos, de matérias primas, é exatamente para redução de custos. Hoje, no Brasil, não temos muito exemplares de absorventes biodegradáveis. É um mercado com muita demanda.

Meu objetivo é que tenha um custo igual ao de um absorvente comum ou, no máximo 15% do valor. Por isso a campanha compre um e doe um. A nossa geração é bastante consciente sobre os produtos que utiliza.

Há uma demanda por absorventes sustentáveis, mas os descartáveis são poucos. Muitas pessoas não aderem aos copos coletores e aos absorventes de pano, mas querem um produto que respeite a natureza. Esse é o meu público-alvo quando penso em trazer isso para o mercado e, a partir desta venda, eu consiga doar às pessoas em vulnerabilidade econômica.

Do ponto de vista da sustentabilidade, o uso de espuma de soja, celulose e fibra de bananeira sem encaixam nestes parâmetros, não implica mais desmatamento para produção?

Não. Na verdade a maioria destes materiais são feitos de resíduos de produção. Por exemplo: a fibra de bananeira vem do caule da bananeira que é cortada quando se colhe o fruto. Hoje essas matérias primas são abundantes. A fibra de bambu não fabricamos no Brasil, é importada. Mas estou estudando para substituir por liner de amido de milho. São pequenos ajustes para fazer em larga escala. Espuma de soja é um material também inovador no Brasil, feito por um químico e uma empresa aqui. É utilizada para absorção de óleo de oceanos.

Estamos fazendo estudos para que esse produto possa estar no miolo do absorvente e na terceira camada, para torná-lo impermeável. A celulose é mais sustentável que o algodão, que é um dos maiores vilões. A produção dele demanda muita água e agrotóxicos, e substância que em contato com o corpo gera irritação e alergias. Por isso o protótipo usa celulose para não ter mistura de materiais. Com isso diminuímos a vida de decomposição do produto de mais de 500 anos, no caso de um absorvente comum, para 1 ano e 6 meses.