Morte em Porto Alegre marca Dia da Consciência Negra | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 21.11.2020

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Brasil

Morte em Porto Alegre marca Dia da Consciência Negra

Homicídio de João Alberto, de 40 anos, num supermercado, conferiu nova dimensão à Marcha da Consciência Negra em diversas metrópoles brasileiras. Políticos, autoridades e instituições condenam violência contra negros.

Brasilien Protest wegen dem Tod von Joao Alberto Silveira Freitas

Passeata antirracismo reuniu milhares em São Paulo

Milhares de cidadãos reunidos em várias cidades brasileiras na 17º Marcha da Consciência Negra, nesta sexta-feira (20/11), repudiaram a morte do homem negro espancado até a morte por dois seguranças na véspera, num supermercado do grupo Carrefour em Porto Alegre. Antes, o vice-presidenteHamilton Mourão negara que o brutal assassinato fosse um caso de racismo, afirmando que este "não existe no Brasil".

A morte do soldador João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, gravada em vídeos amplamente compartilhados por redes sociais, gerou uma onda de indignação e comoveu o país. Além dos murros, pontapés e estrangulamento perpetrados contra ele, testemunhas relataram ouvir os gritos de socorro de João Alberto, dizendo que não conseguia respirar.

As análises iniciais do Instituto Geral de Perícias do estado do Rio Grande do Sul (IGP-RS) apontaram para a possibilidade de asfixia como causa da morte de João Alberto. O episódio foi comparado ao do americano George Floyd, morto pela polícia em plena rua, em circunstâncias semelhantes.

Vandalismo repudiado

Para expressar seu repúdio, grupos de manifestantes saíram às ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre, entre outras cidades. A frase "A carne mais barata do mercado é a negra", imortalizada na canção A carne, de Elza Soares, inundou as redes sociais e se tornou lema dos protestos desta sexta-feira.

O ato que atraiu mais atenção foi o da capital paulista, onde centenas se reuniram em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, enquanto outros seguiram em direção a uma unidade do Carrefour.

Enquanto percorriam ruas da capital paulista, os manifestantes exibiam cartazes com os dizeres "Justiça para João Alberto", "Carrefour tem mãos sujas de sangue", "Vida negras importam" "Juventude negra quer viver" e "Contra o genocídio do povo preto".

A manifestação antirracismo transcorria sem incidentes graves, até que um pequeno grupo vandalizou a fachada e parte do interior de uma unidade do Carrefour na Rua Pamplona, sendo repreendido por outros manifestantes.

No Rio de Janeiro, centenas entraram num supermercado da mesma rede no bairro da Barra da Tijuca, na Zona Oeste da capital fluminense, aos gritos de "Assassinos" e "Racistas não passarão". "É um ato de resistência, mas estamos cansados de ser resistência. Só queremos a oportunidade de poder viver", declarou o artista Ricardo Fernandes.

A morte de João Alberto foi comparada por muitos à de George Floyd, americano negro que morreu em maio, às mãos de um policial branco em Mineápolis, gerando protestos antirracistas nos Estados Unidos e outros países.

No início da noite desta sexta-feira, o presidente do Grupo Carrefour, Alexandre Bompard, se manifestou em sua conta no Twitter sobre o assassinato de João Alberto.

O francês pediu a revisão do treinamento de funcionários e de terceiros. "Meus valores e os valores do Carrefour não compactuam com racismo e violência", escreveu.

O Grupo Carrefour Brasil também anunciou, em nota, que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças.
 

Brasilien I Tödlicher Angriff in Supermarkt

Alguns manifestantes invadiram filial do Carrefour na capital paulista

Racismo existe ou não?

Enquanto o vice-presidente Hamilton Mourão negou que o homicídio tenha sido um episódio de discriminação racial, porque "no Brasil não há racismo", vários políticos, autoridades, instituições e celebridades condenaram o "racismo estrutural" do Brasil.

"Estamos diante de cenas d que deixam todos indignados com o excesso de violência, que levou à morte de um cidadão negro num supermercado", disse Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), destacou que o assassinato de João Alberto "escancara a necessidade de lutar contra o terrível racismo estrutural que corrói a nossa sociedade". Já o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, ressaltou que "toda violência é desmedida e deve ser eliminada da sociedade".

Apesar da onda de indignação e a intensa repercussão ao longo do dia, o presidente Jair Bolsonaro ainda não se manifestou sobre o caso.

Homicídios de negros cresceram

A 17º Marcha da Consciência Negra fora convocada há algumas semanas por organizações sociais e entidades sindicais, a fim de assinalar o Dia da Consciência Negra. Este foi instituído no Brasil em homenagem a Zumbi, líder histórico do quilombo Palmares, para resistir à escravidão imposta dos africanos pelos colonizadores.

Os negros, que representam 56% da população, e são também os brasileiros que morrem em maior quantidade, ganham menos e sofrem mais com o desemprego no país.

De acordo com dados do Atlas da Violência 2020, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 75% das vítimas de homicídios no Brasil em 2018 eram negras.

A taxa de homicídios de negros no país subiu de 34 assassinatos por 100 mil habitantes, em 2008, para 37,8, em 2018 – um aumento de 11,5% em uma década –, enquanto o número de assassinatos entre não negros caiu 12,9% no mesmo período.

AV/efe,lusa,ots

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