″Mona Lisa″ não é a Mona Lisa, afirma historiador | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 15.10.2009
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Cultura

"Mona Lisa" não é a Mona Lisa, afirma historiador

Especialista em Renascimento desmente que quadro de Da Vinci retrata esposa de comerciante toscano. Culpado do engano histórico seria o renascentista Giorgio Vasari. Porém nome "La Gioconda" pode permanecer.

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Exposição sobre a obra-prima em Medellín, Colômbia

O historiador italiano Roberto Zapperi apresentou uma hipótese que pode revolucionar o mundo da arte. Em entrevista publicada pelo jornal Süddeutsche Zeitung ( SZ) nesta quinta-feira (15/10), ele assegura que o famoso quadro de Leonardo da Vinci (1452-1519) exibido no Museu do Louvre não representa Lisa del Giocondo, esposa de um comerciante florentino, como se supunha até então.

Testemunho da época

Ao longo de quase meio milênio, têm sido incontáveis as especulações em torno da identidade da Mona Lisa: desde dezenas de nomes de mulheres da época, um vampiro, um travesti amante de Leonardo, até a de que se trate de um autorretrato.

O que distingue a tese de Zapperi de tantas versões fantasiosas é ele basear-se numa fonte "quase sempre ignorada": a informação do próprio Da Vinci ao cardeal Luigi d'Aragona de que o retrato fora realizado sob encomenda de Giuliano de Médici, irmão do papa Leão 10º. A declaração foi anotada pelo secretário do cardeal, quando ambos visitavam o artista.

A partir desse testemunho, o historiador associou o retrato à única das numerosas amantes de Médici a deixar uma marca em sua vida: Pacifica Brandani. Uma entrada excepcionalmente detalhada no cadastro do orfanato da cidade de Urbino revela que, em 1511, a mulher casada entregou à instituição Ippolito, fruto de seu romance com o nobre. Pouco após, ela faleceu. Ao ficar sabendo da identidade do menino, Giuliano de Médici o reconheceu como filho, levando-o para sua corte em Roma.

Todos esses fatos estão confirmados numa carta de um amigo de Médici. Antes de Zapperi, os autores Carlo Pedretti e Alexander Perrig se ocuparam do registro do secretário do cardeal D'Aragona, em 1958 e 1980, respectivamente. Porém seus estudos neste sentido receberam pouca atenção do mundo na arte.

Ilusão para um órfão

A jornalista do SZ Kia Vahland resume assim os fatos: "Então trata-se da história de uma adúltera e seu recém-nascido abandonado. E de um Médici que pouco se importava com suas namoradas, mas que então descobre o amor paterno por um bebê ilegítimo". Roberto Zapperi, especialista no Renascimento, assente: "Assim costumava ser entre os Médici".

Porém Ippolito quer a mãe, e pergunta constantemente por ela. Quando Giuliano parte para casar-se com Filiberta de Saboia, ele chega a afirmar ao tio Leão 10º que o pai fora buscar sua mãe. O historiador italiano supõe que foi para tranquilizar o filho, fornecendo-lhe uma imagem materna, que Médici encomendou o retrato a Da Vinci. O artista teve plena liberdade para representar a mãe idealizada como quisesse, crê Zapperi.

Quando o autor da encomenda morreu, em 1516, Leonardo guardou o retrato, levando-o consigo ao partir para a França no ano seguinte, por convite do rei Francisco 1º.

História mal contada

Leonardo da Vinci Porträt in Süditalien entdeckt

Retrato de Leonardo da Vinci descoberto em 2009 no sul da Itália

Roberto Zapperi exclui a possibilidade de que se trate de um "retrato petrarquiano" – à mulher amada –, de Giuliano de Médici a Lisa del Giocondo. Pois não consta que os dois tenham se encontrado. Ele atribui a secular sfortuna critica ao autor toscano Giorgio Vasari (1511-1574), cujas biografias de artistas famosos até hoje são, para muitos, "a bíblia da história da arte".

"Ele é bom onde descreve algo que viu por si próprio. Quando, em contrapartida, escreve por ouvir dizer, como no caso de Leonardo e da assim chamada Mona Lisa, aí não é mais confiável. Nessa história de como a Mona Lisa posa como modelo e tem que ser entretida, eu nunca acreditei. É uma invenção, bem no estilo das fórmulas literárias usadas para descrever os quadros no Renascimento."

Por outro lado, há registros de que em 1503 Da Vinci realmente começou a fazer o retrato da esposa do comerciante de seda Francesco del Giocondo "quando estava precisando de dinheiro e – excepcionalmente – disposto a aceitar uma encomenda insignificante". "Vasari ouviu sobre isso, 40 anos mais tarde. E deve ter também ouvido sobre o outro quadro na França. Essas duas obras distintas ele misturou em sua narrativa. Este foi seu erro."

La Gioconda permanece

Quanto ao verdadeiro retrato de Lisa, o historiador imagina que permaneceu inacabado. "Leonardo deve ter perdido a vontade, pois jamais o entregou ao comerciante de seda."

No início de 2010, a editora C.H. Beck publicará os estudos detalhados de Roberto Zapperi. Para os fãs do quadro que atrai multidões ao Louvre, uma boa notícia: embora, em nome do rigor histórico, tenham que se despedir da Mona Lisa, o apelido La Gioconda continua vigorando, por nada ter a ver com o sobrenome "Del Giocondo".

"[Em italiano], a terminação feminina só é afixada ao nome de solteira, e o de Lisa era Gherardini. Um aluno de Leonardo já chamava o quadro de La Gioconda, que significa "a consoladora" e "a agradável" [jocunda, jovial]. Afinal, sua função original era consolar um garotinho pela perda da mãe."

AV/sz/dpa/ap
Revisão: Roselaine Wandscheer

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