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Alice Lanari
Alice Lanari: "Como cineasta e como mulher, posso dizer que é um filme que fala sobre todas nós"Foto: Paula Carrubba
Direitos humanosAmérica Latina

"Machismo faz da mulher 'alguém matável' na América Latina"

18 de outubro de 2021

Em entrevista, a cineasta Alice Lanari fala sobre seu documentário "Nunca mais serei a mesma", que conta a história de quatro vítimas de violência de gênero na região. "É um filme para todos, inclusive para os homens."

https://www.dw.com/pt-br/machismo-faz-da-mulher-algu%C3%A9m-mat%C3%A1vel-na-am%C3%A9rica-latina/a-59536199?maca=bra-rss-br-all-1030-rdf

Escutar. Respeitar. Acolher. Para a cineasta Alice Lanari, estas foram as chaves necessárias para fazer de Nunca mais serei a mesma um filme capaz de narrar com humanidade e empatia episódios crus de violência contra a mulher na América Latina.

"Minha maneira e minha forma de lidar com esse processo doloroso foi me entregar também, me dar a conhecer nessa relação [com as mulheres retratadas]. Sem brecar nenhuma dor. Houve momentos em que a gente chorou, mas não podíamos travar essa dor. Deixamos fluir", conta em entrevista à DW Brasil.

A diretora e roteirista explica que contou com uma ampla pesquisa prévia para chegar às quatro personagens que protagonizam o filme, uma brasileira, uma argentina, uma hondurenha e uma mexicana. "São todas mulheres que atravessaram ou atravessam alguma violência de gênero. Esse é o amálgama para as quatro personagens", comenta.

"Como cineasta e como mulher, posso dizer que é um filme que fala sobre todas nós. Nunca mais serei a mesma é a fala de uma das personagens, mas fala sobre mim também, já que nunca mais serei a mesma depois de fazer esse filme", diz.

Para a cineasta, o filme é para todas as pessoas, inclusive para os homens. "Os homens de nossa bolha que não se veem como pessoas violentas mas muitas vezes produzem ações e reações que são violentas, que são machistas. O filme quer também chegar a esses homens."

Depois de estrear neste mês na mostra Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, a produção será exibida nesta terça-feira (19/10) no DocsMX, o Festival Internacional de Cine Documental da Cidade do México. Da capital mexicana, Lanari atendeu à reportagem da DW Brasil.

DW Brasil: O filme traz histórias de violência contra a mulher em quatro países diferentes. De que forma a problemática é a mesma, independentemente do lugar?

Alice Lanari: As diferenças entre elas estão marcadas dentro do filme, mas a verdade é que no momento em que começamos a cruzar as histórias e olhar para a questão da violência de gênero como algo que é regional, falando da América Latina… Sem dúvida alguma dá para perceber que se olharmos para o problema de forma isolada estamos perdendo a oportunidade de nos unir, de nos ajudar, de buscar estratégias e soluções que são comuns [a todas essas realidades] e, com isso, nos fortalecermos. A problemática da violência de gênero é uma problemática da América Latina. Na verdade, é do mundo inteiro. Mas, na América Latina ela assume determinadas características que têm a ver com o machismo, com a cultura do estupro, da violência contra a mulher e da mulher como "alguém matável", alguém que é menos, uma vida com menos valor.

O que essas mulheres retratadas no filme têm em comum?

São todas mulheres que atravessaram ou atravessam alguma violência de gênero. Esse é o amálgama para as quatro personagens. Há outros elementos também. Sem dúvida pensamos que são mulheres muito diferentes, com cores, corpos, raças e origens diferentes. Mas sem dúvida nenhuma elas contaram e contam com outras mulheres e com uma rede feminina para sair dessa situação em que estão ou que estiveram. Como cineasta e como mulher, posso dizer que é um filme que fala sobre todas nós. Nunca mais serei a mesma é a fala de uma das personagens, mas fala sobre mim também, já que nunca mais serei a mesma depois de fazer esse filme. [A frase] aponta para um passado, uma marca, uma cicatriz, mas sinto que também fala de um presente e olha para um futuro. Isso implica um certo tipo de visão de mundo e de potência de mundo, onde a gente já não fica mais calada.

E como foi para você, como mulher, encarar essas histórias?

É difícil até dizer. Foi e é muito transformador. Eu me modifiquei por completo. Em alguns momentos do filme, quando a gente estava na etapa de pesquisa e de filmagem, foi fundamental estar com outras mulheres na equipe [intencionalmente, toda a equipe de filmagem é feminina] e, no fim do dia, conversar, pensar e desaguar um pouco o que havíamos vivido. Era muita dor. Muita dor. […] Contei com todas as ajudas para não ficar tão esponja e poder digerir, devolver isso no próprio filme e na relação que se estabelecia entre mim e as personagens, nós e as personagens. Minha maneira e minha forma de lidar com esse processo doloroso foi me entregar também, me dar a conhecer nessa relação [com as mulheres retratadas]. Sem brecar nenhuma dor. Houve momentos em que a gente chorou, mas não podíamos travar essa dor. Deixamos fluir.

O documentário foi feito com uma equipe exclusivamente feminina. Acredita que isso foi fundamental para o resultado obtido, para conquistar a intimidade das retratadas?

Sem dúvida. A gente precisava desse set de filmagem como um ambiente de extrema e absoluta confiança. Todas nós estávamos nos entregando, nos dando a conhecer. E havia esse interesse mútuo entre nós e as protagonistas. Formar e fazer um ambiente de intimidade e empatia foi fundamental para nós. O fato de termos uma equipe 100% feminina foi fundamental porque precisávamos criar um espaço de confiança e tranquilidade para que as protagonistas ficassem à vontade. E juntamos uma equipe poderosa.

Mas renego um pouco essa ideia de uma ótica plenamente feminina para o cinema, porque nós, mulheres, podemos falar sobre tudo, absolutamente tudo. Nosso olhar é sempre um olhar especial como qualquer autor ou autora. A ideia de cinema feminino tem muito mais a ver com o modo de fazer do que exatamente com o olhar que a gente tem, e isso aparece no resultado final.

O modo de fazer é mais humano, mais acolhedor, abraça questões que geralmente estão de fora das questões cinematográficas, como o fato de que temos filhos, menstruamos, somos cíclicas — e essas questões costumam passar batido. Renego essa ideia do olhar, do cinema feminino, porque parece um pouco "vamos colocá-las ali naquela mesinha de gênero".

A gente tem de ocupar todas as mesas, não só as que falem de questões da mulher. E esse filme é um filme para todas as pessoas, inclusive para os homens, os homens de nossa bolha que não se veem como pessoas violentas mas muitas vezes produzem ações e reações que são violentas, que são machistas. O filme quer também chegar a esses homens.