Leste vs. Oeste: uma divisão que ainda não foi superada | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 03.10.2020

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Alemanha

Leste vs. Oeste: uma divisão que ainda não foi superada

A unidade alemã pretendia colocar um ponto final na Guerra Fria, marcando o início de uma nova era nas relações internacionais. Tudo começou com grandes esperanças – e culminou numa "paz fria".

Manifestantes com máscaras de Vladimir Putin, Donald Trump e Angela Merkel se enfrentam com modelos de foguetes na Pariser Platz, em Berlim.

Manifestantes com máscaras de Vladimir Putin, Donald Trump e Angela Merkel se enfrentam na Pariser Platz, em Berlim.

O melhor lugar para sentir o pulsar das relações internacionais na Alemanha é na Conferência de Segurança de Munique. Lá, foram observadas duas coisas nos últimos anos: Políticos de alto escalão do Oriente, Extremo Oriente e Ocidente continuaram a assumir os pódios. Porém, eles pareciam ouvir cada vez menos uns aos outros, quanto mais responder uns aos outros. Algo é certo: as relações entre Europa e Estados Unidos estão muito tensas; as do Ocidente em relação à Rússia, então, despedaçadas, marcadas por uma desconfiança abismal. E as relações entre os EUA e a China já estão sendo descritas como a nova Guerra Fria.

Nesse sentido, é irônico que o cientista político americano Francis Fukuyama tenha comparecido à conferência em fevereiro. Em 1989, diante das convulsões na Europa Central e Oriental, Fukuyama anunciou a vitória derradeira da democracia liberal – e com ela o "fim da história", conforme foi titulado o famoso livro de sua autoria. Três décadas depois, em Munique, Fukuyama admite que nem todas as suas previsões se concretizaram.

O cientista político americano Francis Fukuyama

Fukuyama, célebre por ter declarado o "fim da história"

Uma simples espiada nos gastos com armamentos mostra que o mundo ainda está longe do "fim da história": de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), as despesas no setor aumentaram mais rapidamente em 2019 do que nos últimos dez anos. Os EUA continuam na liderança, seguidos por seu novo rival geoestratégico, a China. A Rússia ocupa o quarto lugar por uma ampla margem.

Grande otimismo nos anos 1990

Diante desses números, dificilmente se pode imaginar o "grande sentimento de otimismo" de que fala o historiador Konrad Jarausch ao relembrar o fim – temporário – do confronto entre os blocos comunista e ocidental há 30 anos. "O futuro podia ser moldado. E pareciam se abrir grandes oportunidades positivas não só na Alemanha unificada, como também nos países vizinhos", disse à DW o ex-diretor do Centro para a Pesquisa de História Contemporânea de Potsdam. "E parte disso também aconteceu: na democratização do Leste Europeu, no desenvolvimento econômico."

O historiador Konrad Jarausch.

Jarausch: "O futuro podia ser moldado"

Havia muita promessa e esperança no ar. Planos ousados foram elaborados em conferências. O então presidente soviético, Mikhail Gorbachev, concebeu a visão de uma "casa comum europeia" em que todos os residentes desfrutariam da mesma segurança. Em novembro de 1990, 34 chefes de Estado assinaram a Carta de Paris numa cúpula especial da Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa (CSCE). A divisão da Europa foi declarada solenemente encerrada.

Expansão do Ocidente, em vez de fim da divisão 

Horst Teltschik estava em Paris na época, como conselheiro próximo do chanceler federal alemão Helmut Kohl. Em entrevista à DW, Teltschik lembra o momento após a assinatura: "Gorbachev se levantou e disse: 'Nossa tarefa é passar da ditadura à democracia e de uma economia planificada para uma economia de mercado.' Tais princípios estão consagrados na carta."

Abertura da Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa (CSCE) em Paris, em 19 de novembro de 1990.

Assinada durante a CSCE, a "Carta de Paris para uma Nova Europa" pretendia colocar um fim no confronto entre os blocos

Pouco restou desse entusiasmo. Há cinco anos, o ex-ministro das Relações Exteriores alemão, Hans-Dietrich Genscher, afirmou sobriamente num artigo encomendado pela DW por ocasião do 25º aniversário da Reunificação: "Parece que algumas pessoas não querem superar a divisão de forma alguma, mas apenas empurrar a linha divisória do centro da Europa em direção ao leste."

Quem quiser saber a quem Genscher estava se referindo, pode dar uma olhada no livro de Mary Elise Sarrotte publicado em 2009. A historiadora americana examinou arquivos internos do governo de George H. W. Bush naquela época. Conclusão: em vez de uma nova estrutura de segurança cooperativa incluindo a União Soviética, Washington pressionou deliberadamente por uma solução com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)  – e, com isso, por uma ordem de segurança exclusiva sem Moscou, baseada na presença militar permanente dos EUA na Europa. Esse domínio americano em território europeu seria assegurado durante toda a Guerra Fria. Um dos momentos mais esclarecedores dessa época foi a visita do primeiro-ministro da antiga Tchecoslováquia, Vaclav Havel, a Washington, em fevereiro de 1990. Em seu livro, Sarotte lembra o choque que o ex-ativista dos direitos civis provocou ao exigir a retirada de todas as tropas estrangeiras da Europa.

O ex-ministro das Relações Exteriores da República Federal da Alemanha, Hans-Dietrich Genscher, fala no dia 11 de setembro de 2015 em Berlim no evento comemorativo do 25º aniversário da assinatura do Tratado Dois mais Quatro, que em 1990 preparou o caminho para a reunificação da Alemanha.

Genscher: "Alguns não querem superar a divisão"

Otan rumo ao leste

É provável que nenhuma decisão política tenha perturbado tanto as relações com a Rússia quanto a expansão da Otan para o leste iniciada no final dos anos 1990. Durante a batalha política em torno dos termos da unidade, Kohl e Gorbachev concordaram expressamente que, em caso de reunificação, a Alemanha poderia permanecer membro da Otan como país soberano, mas sem estacionar tropas da organização no território da RDA. Outra possível expansão para o leste jamais foi discutida por Gorbachev e Kohl, conforme lembra Teltschik, conselheiro do chanceler na época. Afinal, naquele verão europeu de 1990, "ninguém imaginava que, nove meses depois, o Pacto de Varsóvia se dissolveria e um ano e meio depois, até mesmo a União Soviética".

O cientista político alemão Horst Teltschik.

Teltschik: "Ninguém imaginava que a URSS estava prestes a se dissolver"

Historiadores relembram as promessas feitas pelo presidente Bush e seu secretário de Estado, James Baker, de, num espírito de parceria, construir uma arquitetura de segurança pan-europeia inclusiva. Também ficou claro para muitos políticos americanos que a expansão para o leste da aliança militar ocidental na Rússia deveria ser vista como uma traição ao espírito cooperativo de 1990. Numa carta aberta publicada em junho de 1997, mais de 40 ex-senadores, membros do governo, embaixadores, especialistas em desarmamento e militares alertaram o ex-presidente americano Bill Clinton: a expansão da Otan para o leste, disseram, fortaleceria a oposição não democrática e enfraqueceria o poder da reforma.

O discurso de Putin em Munique

O presidente Vladimir Putin deu uma visão sobre o sentimento generalizado dos russos durante a Conferência de Segurança de Munique em 2007. Em seu discurso, ele abordou a expansão da Otan para o leste, os avanços militares individuais dos EUA sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, como aconteceu no Iraque, e o desenvolvimento de um sistema de defesa antimísseis na Europa Oriental e muito mais. Na visão de Horst Teltschik, o discurso de Putin foi "a soma de todos os problemas que ele teve com o Ocidente e com a Otan".

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a Conferência de Segurança de Munique em 10 de fevereiro de 2007.

Na Conferência de Segurança de Munique, Putin abordou desanvenças com o Ocidente e com a Otan

Em 2007, o ex-conselheiro do chanceler federal foi o chefe da Conferência de Segurança. "A Otan, os europeus e os EUA deveriam ter chamado Putin para conversar: vamos todos sentar e discutir a lista com as suas preocupações", avalia Teltschik. Mas nada aconteceu. Frank-Walter Steinmeier, então ministro das Relações Exteriores e agora presidente federal, não mencionou o discurso de Putin em sua fala no dia seguinte, lembra Teltschik. "Acho que foi a primeira decepção profunda de Putin: que todos estavam lá e ninguém reagiu."

Teltschik, hoje com 80 anos, publicou um livro em 2019: Russisches Roulette: Vom Kalten Krieg zum Kalten Frieden ("Roleta Russa: da Guerra Fria à Paz Fria", em tradução livre). Nele, o autor tenta explicar por que as esperanças pós-reunificação por uma solução de paz duradoura não se concretizaram. E sem minimizar a agressão da Rússia nos últimos anos, Teltschik é categórico: pelo menos em parte, ela também é uma reação ao comportamento do Ocidente.

O dragão acorda

Talvez Ocidente e EUA tenham ficado ensoberbecidos com o entusiasmo decorrente da impressão de que haviam vencido a competição de sistemas. "Por um certo período, por volta do ano 2000, os EUA eram a única superpotência remanescente", explica o historiador Jarausch. "Os russos estavam se debatendo com suas próprias dificuldades e o comunismo parecia ter sido superado." Mas ninguém tinha em vista a modernização do modelo asiático de comunismo, diz Jarausch em alusão à China.

O presidente chinês Xi Jinping em 22 de junho de 2020.

Com Xi Jinping na presidência, China tem se tornado mais agressiva externamente

Por muito tempo, o país foi visto principalmente como um grande mercado e como a bancada do Ocidente. Muitas pessoas ganharam um bom dinheiro com a recuperação econômica da China nos últimos 30 anos, especialmente empresas alemãs. O cálculo era o seguinte: se as classes médias se desenvolverem na China, elas irão passar a exigir o estado de direito e a democracia – e em algum momento obtê-los.

Mas não foi isso que aconteceu. Desde que Xi Jinping se tornou chefe de Estado e partido, a China tem se voltado com força à repressão interna e se tornado muito mais agressiva externamente. Entre as palavras-chave, por exemplo, estão Xinjiang ou Hong Kong, Mar da China Meridional ou Taiwan. "Se um país com 1,4 bilhão de pessoas com uma média de idade superior a 38 anos tem um desenvolvimento econômico de dois dígitos, então esse país poderá em algum momento aumentar seu desempenho econômico em termos de influência política e, em última análise, também em termos militares", analisa o cientista político berlinense Eberhard Sandschneider.

Desfile militar para comemorar o 70º aniversário da fundação da República Popular da China em 5 de janeiro de 2020.

O poder econômico se torna poder militar

Xi Jinping formulou metas ambiciosas para seu país. No 100º aniversário da fundação da República Popular da China em 2049, a China deverá ser uma potência socialista madura e moderna, com a capacidade de estabelecer e moldar regras, no topo do mundo econômica e tecnologicamente. A reivindicação de liderança, explica o estudioso da China Sebastian Heilmann, é clara: a China quer retornar ao centro da ordem mundial. "E isso, logicamente, entra em conflito com a potência hegemônica americana até agora", esclarece Heilmann.

Nova divisão do mundo

Heilmann considera possível uma divisão do mundo em dois hemisférios. Mas ele não fala somente de estruturas de poder, e sim de tecnologias: "Temos que contar com o fato de que no futuro teremos uma tecnologia com padrões completamente diferentes e práticas completamente distintas de implementação. Eu me refiro a esferas tecnológicas dominadas por padrões, empresas e regulamentações completamente diferentes."

Central da empresa chinesa de tecnologia Huawei em Düsseldorf, na Alemanha.

Empresa chinesa de tecnologia Huawei é emblemática no novo conflito Leste-Oeste

A dissociação do mundo ocidental e chinês já começou e está ligada à palavra-chave "Decoupling", o desacoplamento das economias dos dois países anunciado pelo presidente americano, Donald Trump. Eberhard Sandschneider está convencido de que a tentativa de separar as duas maiores economias do mundo resultará em grandes distorções. Nesse processo, ele vê o fim da globalização como a conhecemos.

Como o conflito entre a potência em ascensão e a atual potência dominante irá acabar é algo que permanece em aberto. Uma nova Guerra Fria, que não ultrapasse o limiar do confronto militar, parece ser um dos cenários mais positivos.

A propósito: quando Francis Fukuyama discursou na Conferência de Segurança de Munique em fevereiro, ele mencionou a China como a única alternativa possível para a democracia liberal. Mas o cientista político americano fez uma ressalva: "as pessoas não gostam de viver em Estados autoritários". Se, daqui a 20 anos, a China for realmente mais rica do que os EUA – e ainda estável – então, diz Fukuyama, "vou admitir que estava errado".

Adaptação: Isadora Pamplona


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