Língua alemã, uma espécie em perigo? | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 02.03.2018
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Idioma alemão

Língua alemã, uma espécie em perigo?

Partido populista de direita quer que a Constituição fixe o alemão como idioma nacional. Debate parlamentar revela um quadro linguístico complexo e até divertido, quando deputados começam a falar em seu dialeto.

Dicionários de dialetos da Alemanha, do saxão e suábio ao bávaro e o berlinense

Dicionários de dialetos da Alemanha, do saxão e suábio ao bávaro e o berlinense

A moção discutida nesta sexta-feira (02/03) no Parlamento alemão pintava um futuro tenebroso. Falou-se da supressão do alemão por outros idiomas, de como a língua nacional "mudou sensivelmente de cor" nos últimos anos. Apontou-se que no dia a dia utilizam-se cada vez mais formulações em inglês, e que sobretudo nas rádios de direito público, as quais, afinal, se financiam com dinheiro do contribuinte, quase só toca música em inglês.

A iniciativa do debate partiu do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Sua sugestão para combater esse mal seria fixar na Lei Fundamental o alemão como idioma nacional (a língua alemã não é mencionada na Constituição, o que existe é uma lei que a determina como idioma oficial). Cada vez mais policiais, insistiu o deputado Stephan Brandner, falam mais turco e árabe do que bom alemão.

"A língua alemã está em perigo. Está em perigo por causa de uma inundação de anglicismos; por uma mania do inglês nas universidades, onde se oferecem cursos inteiros em inglês", prosseguiu o deputado populista. E não é nada difícil reconhecer, segundo ele, o causador esse quadro apocalíptico: os muitos estrangeiros que hoje vivem na Alemanha.

Os demais grupos do Parlamento veem a questão de modo bem mais relaxado, e o debate que se desenrolou é quase divertido. Para provar quão multifacetado, quão vivo o alemão continua sendo, e como está sempre em transformação, vários deputados se dirigiram ao plenário em seus respectivos dialetos.

Democrata-cristão Jens Spahn: Fazer pedido em certos bares de Berlim, só em inglês

Democrata-cristão Jens Spahn: "Fazer pedido em certos bares de Berlim, só em inglês"

Johann Saathoff, por exemplo, vem da região da Frísia Oriental, e para muitos de seus colegas o plattdeutsch  que ele fala é, na verdade, uma língua estrangeira. Em alto alemão, o político do Partido Social-Democrata (SPD) lembra: "Não só a língua alemã é um bem cultural, todas as línguas o são", seja o plattdeutsch, o inglês ou o espanhol.

Andrea Lindholz, da União Social Cristã (CSU), por sua vez, fica feliz com os muitos idiomas que se escutam hoje nas ruas da Alemanha: "Tenho orgulho dos muitos jovens que falam bem inglês ou espanhol." E Simone Barrientos, do A Esquerda, tranquiliza os colegas: "O alemão ainda está entre as dez línguas mais faladas do mundo."

"Ser compreensível, unir e não dividir"

No entanto, também entre os social-democratas e conservadores cristãos há políticos que se sentem incomodados com o excesso de inglês no país. Um deles é Jens Spahn, da União Democrata Cristã (CDU), provável novo ministro da Saúde. Ele ele se queixou que em certos bares da moda em Berlim só é possível fazer o pedido em inglês.

Recentemente o ex-presidente do Parlamento Wolfgang Thierse, do SPD, criticou que o contato entre a ciência e os cidadãos esteja se perdendo, devido à anglicização. Muitos trabalhos de pesquisa só são produzidos em inglês, pois a elite científica da Alemanha tem uma "relação de desprezo" com sua língua materna, afirmou.

Também a CDU é favor de que o alemão esteja ancorado na Constituição como língua nacional. Apesar disso, a representação democrata-cristã no Bundestag rejeitou a moção da AfD. A deputada Gitta Connemann explica por quê:

Entrada da AfD para o Parlamento federal provocou protestos de cidadãos

Entrada da AfD para o Parlamento federal provocou protestos de cidadãos

"Nossa bancada não está preocupada com alemanices ou em aparecer, mas sim com o idioma. Sabemos que ele precisa ser cultivado, deve ser compreensível, deve unir, em vez de dividir."

E para Mahmut Özdemir não é nenhum anúncio do fim do mundo as línguas e seu grau de importância se modificarem, mesmo que muitas palavras do inglês tenham entrado para o repertório linguístico do alemão. "O alemão que falamos hoje não é nem aquele de 20 anos atrás. Isso, sem falar dos mais de 50 dialetos", apontou o social-democrata.

Ao se dirigirem ao plenário, diversos oradores mencionaram ainda um outro aspecto: o alemão já é, indiscutivelmente, o idioma das repartições públicas e tribunais do país, mesmo sem haver uma menção nesse sentido na Lei Fundamental.

Alternativa para a Alemanha – em russo

A conclusão do Bundestag foi que o futuro da língua alemã deve ser garantido através da educação, da boa escolaridade, mas igualmente pelo prazer com todas as línguas, também o inglês ou o espanhol.

A AfD é declaradamente anti-imigração e se pretende salvadora dos alemães na Alemanha. No entanto, até mesmo ela é muito mais internacional do que admite, observou a conservadora Gitta Connemann.

E ergueu no ar uma brochura de campanha eleitoral dos populistas de direita: escrita em russo e distribuída na Alemanha para os muitos simpatizantes do partido entre os russlanddeutschen  – habitantes da Rússia de origem alemã, que reimigraram para a Alemanha após a queda da União Soviética.

----------------

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | WhatsApp | App

Leia mais