Irã bloqueia acesso à internet em meio a protestos | Notícias internacionais e análises | DW | 18.11.2019
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Oriente Médio

Irã bloqueia acesso à internet em meio a protestos

Restrições dificultam troca de informações entre manifestantes e a obtenção de dados sobre mortos, feridos e presos na onda de manifestações no país. Alemanha e EUA condenam repressão por parte do governo iraniano.

Aumento do preço da gasolina foi o estopim dos protestos no Irã

Aumento do preço da gasolina foi o estopim dos protestos no Irã

Desencadeada pelo aumento do preço da gasolina, a onda de protestos no Irã levou as autoridades a bloquearem o acesso à internet no país de 80 milhões de habitantes, dificultando a avaliação da dimensão das manifestações e impedindo a troca de informações entre os manifestantes.

O grupo NetBlocks, que monitora o acesso global à internet, afirma que a conectividade no Irã caiu para apenas 7% do nível normal, considerando o bloqueio iraniano como o mais grave "em termos de complexidade técnica e amplitude".

A empresa de internet Oracle considerou este como o "maior bloqueio à internet já observado no Irã". Alguns portais, como os sites das agências estatais de notícias, ainda podem ser acessados.

O estopim dos protestos foi a decisão do presidente Hassan Rohani de aumentar o preço da gasolina, que é estabelecido pelo governo, em mais de 50%.

Mas a insatisfação popular se baseia em problemas econômicos que afetam há décadas a sociedade iraniana, e acabou sendo exacerbada pelo fracasso do acordo nuclear entre o país e as maiores potências do Ocidente, após os Estados Unidos decidirem abandonar o tratado e reimpor pesadas sanções econômicas ao Irã.  

Vídeos publicados na internet mostravam pessoas abandonando seus carros em rodovias e participando de protestos nos centros das cidades. Manifestantes incendiaram postos de gasolina, atacaram bancos e saquearam lojas. Os atos deste ano descambaram para a violência com rapidez maior do que os protestos de 2017 contra a crise econômica e os de 2009 contra contestadas eleições.

Agora, o bloqueio à internet torna difícil saber o que está ocorrendo no país. Desde o último sábado, o acesso vinha piorando até se tornar praticamente inexistente, impossibilitando a postagem de vídeos e o compartilhamento de informações entre os manifestantes.

Não se sabe exatamente quantas pessoas foram presas, mortas ou feridas nos protestos pelo país. Dados oficiais divulgados neste domingo (17/11) contabilizam três mortes em razão da violência, ainda que haja suspeitas de que esse número seja maior, uma vez que alguns dos vídeos postados por manifestantes mostravam pessoas gravemente feridas.

A agência de notícias semioficial Fars, associada à Guarda Revolucionária do Irã, informou que manifestantes atacaram em torno de cem bancos e lojas no país. Segundo a agência, que cita autoridades de segurança não identificadas, cerca de mil pessoas foram presas.

Manifestantes incendeiam viaturas policiais em protestos no Irã

Manifestantes incendeiam viaturas policiais em protestos no Irã

Para os iranianos, a gasolina barata é considerada quase um direito essencial, já que o país possui a quarta maior reserva de petróleo bruto do mundo. Com a falta de emprego, muitas pessoas trabalham em serviços informais de táxi.

Há sinais de que o governo esteja preparando uma forte repressão aos protestos, com a televisão estatal mostrando cenas de ataques violentos ocorridos nas manifestações. O líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, se referiu aos manifestantes como "ladrões" em pronunciamento neste domingo. 

Países ocidentais condenaram a repressão brutal por parte do governo e os bloqueios às comunicações.

O governo da Alemanha instou Teerã a respeitar os protestos. "É legítimo e merecedor de nosso respeito quando as pessoas expressam corajosamente suas frustrações econômicas e políticas, como ocorre neste momento no Irã", afirmou Ulrike Demmer, porta-voz da chanceler federal Angela Merkel.

"O governo iraniano deve reagir aos protestos atuais com predisposição ao diálogo", afirmou Demmer em coletiva de imprensa, acrescentando que a Alemanha observa os eventos "com preocupação". "Pedimos ao governo em Teerã que respeite as liberdades de assembleia e expressão."

Fogo pegando fogo em meio aos protestos no Irã

Bloqueio do acesso à internet no Irã dificulta obter informações sobre os protestos

Os Estados Unidos, por sua vez, disseram que "apoiam o povo iraniano em seus protestos pacíficos contra o regime que deveria lhes servir de liderança". "Condenamos o uso de força letal e as graves restrições às comunicações utilizadas contra os manifestantes", afirma um comunicado da Casa Branca.

Em tom provocativo, o texto diz ainda que "Teerã persegue com fanatismo seus programas nuclear e de mísseis e apoia o terrorismo", acusando o governo iraniano de "abandonar seu povo e embarcar em uma cruzada pelo poder e riquezas pessoais".

Por sua parte, as autoridades iranianas culpam os Estados Unidos de incentivar as manifestações, com o objetivo de desestabilizar a segurança no país.

O presidente do Parlamento iraniano, Ali Lariyani, disse que "o objetivo dos EUA em relação ao Irã não é outro senão o de perturbar a segurança e incendiar os interesses da nação". Segundo ele, Washington "não obterá nenhum resultado ao instigar os distúrbios e sabotagens" no país.

Autoridades iranianas responsabilizam grupos "antirrevolucionários" de fora do país, como os descendentes e apoiadores do antigo xá Reza Pahlavi – deposto pela Revolução Islâmica em 1979 – e o grupo opositor Muyahidin Jalq. O governo afirma que não vai voltar atrás no aumento do preço da gasolina.

RC/ap/efe/dpa

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