Inteligência dos EUA culpa príncipe saudita por assassinato de jornalista | Política | DW | 26.02.2021

Conheça a nova DW

Dê uma olhada exclusiva na versão beta da nova DW. Sua opinião nos ajudará a torná-la ainda melhor.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Oriente Médio

Inteligência dos EUA culpa príncipe saudita por assassinato de jornalista

Jamal Khashoggi, que escrevia no Washington Times, foi morto em 2018 sob ordens de Mohammad bin Salman, diz relatório. Biden telefonou para rei saudita nesta quinta.

Imagem de Jamal Khashoggi

Khashoggi era crítico da concentração de poder pelo príncipe herdeiro

Um relatório de inteligência do governo dos Estados Unidos concluiu que o príncipe saudita Mohammad bin Salman autorizou o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018, quando ele trabalhava para o jornal americano Washington Post.

O relatório foi divulgado nesta sexta-feira (26/02), um dia após o presidente americano, Joe Biden, ter feito a sua primeira conversa telefônica com o rei da Arábia Saudita, Salman, pai de Mohammad, em um movimento calculado para reduzir o impacto negativo do relatório na relação entre os dois países.

A imprensa já havia divulgado que agências de inteligência dos Estados Unidos tinham concluído que o príncipe ordenara o assassinato, mas a informação não havia sido divulgada oficialmente.

"O príncipe encarava Khashoggi como uma ameaça ao reinado e apoiou de forma ampla o uso de ações violentas se isso fosse necessário para silenciá-lo", diz o documento. Segundo o relatório, uma operação desse tipo não poderia acontecer sem o aval de Bin Salman.

Membros da segurança pessoal do príncipe teriam participado da morte, desmembramento e ocultação do cadáver do jornalista, que tinha residência nos Estados Unidos, com a autorização de bin Salman, segundo o relatório.

O Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita disse que "rejeitava completamente" o conteúdo do documento.

Khashoggi era um crítico da concentração autoritária de poder por Bin Salman e escrevia artigos de opinião para o Washington Post. Ele foi morto no consulado saudita em Istambul.

Apesar de o poder do país estar nominalmente nas mãos do rei Salman, de 85 anos, a Arábia Saudita vem sendo governada de fato desde 2017 pelo príncipe herdeiro, que tem 35 anos.

Em dezembro de 2019, um tribunal da Arábia Saudita condenou à morte cinco pessoas pela morte do jornalista. As penas depois foram convertidas em 20 anos de prisão.

Mohammed bin Salman

Mohammed bin Salman vem consolidando seu poder no reinado

Relação bilateral

A divulgação do relatório de inteligência foi autorizada por Biden, que reverteu uma decisão de seu antecessor, Donald Trump, pela confidencialidade do documento.

Mas a iniciativa foi calibrada para manter a boa relação entre os dois países. Os sauditas são o aliado mais importante dos americanos no mundo árabe, tendo em vista suas vastas reservas de petróleo e sua rivalidade com o Irã.

Segundo a Casa Branca, no telefonema com o rei Salman, Biden falou sobre a "parceria de longo prazo" entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita e elogiou a recente libertação de presos políticos no país, inclusive da defensora de direitos das mulheres Loujain al-Hathloul.

Os dois também discutiram as "atividades desestabilizadores e o apoio a grupos terroristas" do Irã no Oriente Médio.

O tom da conversa, no relato da Casa Branca, contrasta com a promessa de Biden, durante sua campanha, de fazer da Arábia Saudita "um pária" por causa do assassinato de Khashoggi. Mas o telefonema também serve para Washington se distanciar um pouco do príncipe, que tinha contato direto com Trump.

Sanções

Após a divulgação do relatório, os Estados Unidos impuseram sanções contra membros da segurança pessoal do príncipe e um ex-oficial da inteligência do país devido ao papel que eles teriam desempenhado no assassinato de Khashoggi. Bin Salman, contudo, ficou fora da lista das autoridades americanas.

O Departamento do Tesouro americano afirmou que bloquearia ativos e criminalizaria transações feitos por membros da Força de Intervenção Rápida, subordinada ao príncipe, e pelo ex-oficial de inteligência Ahmed al-Assiri.

"Os envolvidos no assassinato abominável de Jamal Khashoggi devem ser responsabilizados", disse a secretária do Tesouro, Janet Yellen.

Por que o relatório é importante?

Apesar da conversa entre Biden e o rei Salman, o reconhecimento do envolvimento do príncipe no assassinato coloca mais pressão sobre o regime saudita em temas de direitos humanos e pode trazer atrito para as relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita.

A parceria entre os dois países aprofundou-se durante o governo de Trump, que evitou criticar abertamente as práticas sauditas na área de direitos humanos e em relação à morte de Khashoggi.

Os críticos do príncipe, incluindo uma associação de defesa de direitos humanos fundada pelo jornalista assassinado, querem que o presidente americano vá além das condenações verbais e adote sanções ou outras medidas duras para isolar o príncipe.

Mohammed bin Salman, por vezes identificado pelas iniciais do seu nome, MbS, consolidou seu poder rapidamente desde que seu pai se tornou rei em 2015.

Críticos culpam o príncipe pelas prisões e supostas torturas realizadas pelo regime contra defensores de direitos humanos, empresários e membros da família real.

Ele também é apontado como mentor de uma guerra devastadora no país vizinho Iêmem e de um bloqueio econômico fracassado contra o também vizinho Catar.

bl (DW, AP, Reuters)