Hidroxicloroquina é ineficaz em caso leve ou moderado de covid-19, aponta estudo | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 23.07.2020

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Coronavírus

Hidroxicloroquina é ineficaz em caso leve ou moderado de covid-19, aponta estudo

Maior estudo brasileiro já realizado sobre o efeito do medicamento promovido pelo governo Bolsonaro também apontou que uso pode aumentar risco de arritmia cardíaca e lesão do fígado. 

Frankreich Marseille | Medizinisches Personal mit Tabletten (Getty Images/AFP/G. Julien)

Medicamento já foi chamado de “cura” pelo presidente Bolsonaro, que costuma exibir caixas do fármaco para apoiadores

Um amplo estudo liderado pelos principais hospitais privados do Brasil apontou que  a hidroxicloroquina não tem eficácia no tratamento de pacientes internados com quadros leves ou moderados de covid-19. As conclusões foram publicadas nesta quinta-feira (23/07) no The New England Journal of Medicine.

Segundo o estudo, a administração da hidroxicloroquina, combinada ou não com o antibiótico azitromicina, não melhorou as condições de pacientes com coronavírus.

Os autores ainda verificaram que os pacientes que utilizaram os medicamentos tinham uma tendência maior a apresentar alterações nos exames de eletrocardiograma, apontando arritmia, e de sangue, indicando o risco de lesão hepática.

O estudo analisou 667 pacientes com quadros leves ou moderados em 55 hospitais brasileiros. O estudo foi coordenado por oito instituições: Hospital Albert Einstein, Sírio-Libanês, HCor, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa, além do Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet).

Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, esse é o maior estudo com a hidroxicloroquina feito até agora no Brasil.

Os participantes do estudo tinham cerca de 50 anos e foram selecionados no máximo dois dias antes do início da pesquisa. Destes, 58% eram do sexo masculino. Entre os avaliados, 40% eram hipertensos; 21%, diabéticos, e 17%, obesos.

Os 667 foram divididos em três grupos, por meio de sorteio. Destes, 271 receberam uma combinação de hidroxicloroquina e azitromicina. Outros 221 receberam apenas hidroxicloroquina. Os últimos 227 pacientes foram selecionados como grupo controle, não recebendo nenhum dos medicamentos, apenas atendimento clínico. 

Segundo o estudo, os pacientes receberam as medicações por sete dias e foram acompanhados por duas semanas. Ao final, 665 pacientes tiveram seus casos analisados pelo estudo (dois foram excluídos).

De acordo com o estudo, no grupo tratado com hidroxicloroquina combinada com azitromicina, 69% dos pacientes haviam recebido alta e estavam em casa sem sequelas ao final das duas semanas. 

Já no grupo que não usou nenhuma das medicações, o índice foi de 68%. Entre aqueles que tomaram apenas hidroxicloroquina, 64% receberam alta nesse período de duas semanas.  O número de óbitos também foi parecido nos três grupos: cerca de 3%.

"Não observamos diferenças na evolução dos pacientes dos três grupos. Neste perfil de paciente, portanto, a utilização da hidroxicloroquina não promove uma melhora no estado clínico", explicou ao jornal O Estado de S.Paulo a cardiologista Viviane C.Veiga, coordenadora de UTI da Beneficência Portuguesa de São Paulo e uma das pesquisadoras do estudo.

A "cura” promovida por Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro vem defendendo insistentemente a hidroxicloroquina para combater a pandemia do coronavírus, mesmo sem comprovação científica da eficácia do medicamento em pacientes com covid-19. Em maio, o Ministério da Saúde, por pressão de Bolsonaro, chegou a  publicar um novo protocolo para ampliar o seu uso também em casos leves da doença.

Bolsonaro abraçou a hidroxicloroquina após o presidente dos EUA, Donald Trump, ter propagandeado inicialmente a droga como um tratamento potencial eficaz contra a covid-19. Trump fez a primeira menção à hidroxicloroquina em 21 de março, após o suposto potencial da droga ter sido propagado em círculos de extrema direita na internet que promovem teorias conspiratórias e desconfiança contra o establishment científico. À época, o remédio também ganhou espaço na rede de TV populista Fox News.

Tudo começou com um anúncio do controverso pesquisador francês Didier Raoult, que no dia 17 de março divulgou um estudo preliminar em 24 pacientes apontando que a hidroxicloroquina havia sido eficaz no tratamento da covid-19. No entanto, o estudo de Raoult foi criticado em círculos científicos por causa da sua amostra limitada.   

Em 23 de março, dois dias depois de Trump mencionar o remédio, foi a  vez de Bolsonaro seguir o exemplo do americano e passar a sistematicamente promover o fármaco, mesmo sem estudos amplos que comprovassem sua eficácia. 

A partir do final de abril, no entanto, Trump deixou de mencionar a droga, após estudos apontarem seus riscos e falta de eficácia, deixando Bolsonaro temporariamente sozinho na defesa. Mas, em maio, Trump voltou a promover o remédio. 

No entanto, mais recentemente, Trump tem voltado seu interesse para vacinas, especialmente após os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e o Instituto Nacional de Saúde do país terem retirado o medicamento, originalmente desenvolvido para combater malária, do coquetel de drogas recomendadas contra a covid-19.

O entusiasmo de Bolsonaro com a droga acabou causando ou alimentando a queda de dois ministros da Saúde no Brasil em menos de um mês.

No Brasil, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que se opôs a uma adoção generalizada da cloroquina no SUS, apontou que o entusiasmo de Bolsonaro pelo remédio se encaixa na estratégia do governo brasileiro de tentar forçar uma reabertura da economia, mesmo com a ausência de embasamento científico.

"Ele quer um medicamento para que as pessoas sintam confiança, para retomar a economia. E a pessoa fica na sua tranquilidade achando que o medicamento resolve o problema",  disse Mandetta.

Bolsonaro chegou a se referir ao medicamente como "cura" e passou a usá-lo como arma política. Ele usou um pronunciamento em cadeia nacional para promover a droga e ordenou que os laboratórios das Forças Armadas passassem a produzi-la em larga escala.

No último domingo, ele levantou uma caixa do fármaco como se fosse uma espécie de relíquia para um grupo de apoiadores que se aglomerou em frente ao Palácio da Alvorada. O presidente, que disse estar com covid-19, também tem propagandeado que vem se tratando com o remédio.

Nas redes sociais, membros do seu círculo radical e apoiadores têm atacado figuras que pedem cautela na adoção generalizada, afirmando que eles "torcem pelo vírus". Alguns apoiadores chegaram a usar a hashtag #RemédiodoBolsonaro. No meio dessa discussão, temas como falta de respiradores, leitos de UTI e medidas de isolamento social parecem ter ficado em segundo plano nas prioridades do presidente brasileiro.

JPS/ots

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