″Há uma guerra à arte e à cultura no Brasil″, diz Anna Mulayert | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 26.04.2021

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Entrevista

"Há uma guerra à arte e à cultura no Brasil", diz Anna Mulayert

Para cineasta, cinema brasileiro enfrenta pior momento em 20 anos, em meio à pandemia e ao esvaziamento de políticas culturais sob Bolsonaro. Em entrevista, ela aborda também seu novo filme, sobre o impeachment de Dilma.

Anna Muylaert

Anna Muylaert: "É evidente que Bolsonaro não gosta de cultura"

Em 2016, enquanto ocorria o processo de impeachment de Dilma Rousseff, as cineastas Anna Muylaert e Lô Politi decidiram registrar o momento com uma visão intimista, filmada no palácio residencial da então presidente do Brasil. O resultado é o filme Alvorada, com lançamento comercial previsto para maio.

"Alvorada fala sobre como esse tempo [do processo] passou dentro da residência da presidente, e mostra a reação dela, a reação da presidente", resume Muylaert, comentando o fato de que foram feitos também outros filmes, com outros olhares, sobre essa episódio histórico, como Democracia em Vertigem, de Petra Costa. "Acho importante vários olhares sobre o mesmo evento."

"Não é coincidência que as mulheres diretoras tenham tido a urgência de fazer os filmes sobre o impeachment de Dilma, porque é evidente a violência e o aspecto machista e misógino da campanha toda contra Dilma", comenta Muylaert, diretora de Que horas ela volta?, longa de 2015 premiado no Festival de Berlim e de Sundance.

No momento em que o setor audiovisual enfrenta uma crise histórica, seja pelo esvaziamento de políticas culturais, seja pela situação decorrente da pandemia de covid-19, Muylaert fará a palestra de abertura de um circuito virtual para debater o assunto. Cinema Brasileiro - Uma Reflexão Sobre o Contemporâneo começa nesta terça-feira (27/04) e vai até novembro. A inciativa é da Brazucah Produções, em parceria com o Centro Paula Souza.

Muylaert preocupa-se com como os protocolos sanitários encarecem as gravações atuais — e mesmo assim não garantem um ambiente 100% seguro — e com os cortes para o setor, sem poupar o governo federal de suas críticas. "Está havendo uma guerra à arte e à cultura", afirma em entrevista à DW Brasil.

DW Brasil: Alvorada não é o primeiro filme que narra o impeachment de Dilma Rousseff. Em termos de documentação da história recente do Brasil, qual a importância dessa multiplicidade de olhares?

Anna Muylaert: Acho importante vários olhares sobre o mesmo evento, que é o impeachment, porque cada um deles mostra um aspecto. O filme da Petra [Costa, Democracia em Vertigem, lançado em 2019] fala sobre todo o processo democrático ou não democrático do Brasil nos últimos 30 anos. O filme da Guta [Maria Augusta Ramos, O Processo, de 2018] fala sobre o processo burocrático do impeachment dentro do Congresso. Alvorada fala sobre como esse tempo passou dentro da residência da presidente, e mostra a reação dela, a reação da presidente. Acho que assistindo aos três, a pessoa tem uma visão global do evento.

Coincidência ou não, os outros dois filmes que você citou também foram dirigidos por cineastas mulheres. Considerando que Dilma foi a primeira mulher presidente do Brasil e também que, ao longo de todo o ciclo de manifestações contra o seu governo, houve muitos ataques machistas e misóginos, você considera ser relevante também a questão de gênero ao contar essa parte da história do país?

Não é coincidência que as mulheres diretoras tenham tido a urgência de fazer os filmes sobre o impeachment da Dilma, porque é evidente a violência e o aspecto machista e misógino da campanha toda contra Dilma. Vale lembrar que o [então] deputado que falou a maior violência [no dia da votação], que homenageou um torturador [o coronel Carlos Brilhante Ustra (1932-2015)], o torturador da própria Dilma na juventude, esse homem acabou virando o presidente do Brasil… Quer dizer: o aspecto de violência contra a mulher está muito embutido nesse impeachment, então é natural que diretoras mulheres tenham tido essa urgência de fazer esses filmes.

Nesta terça (27/04), você abre um circuito virtual de palestras sobre o cinema brasileiro contemporâneo. Como cineasta, como você avalia o atual momento do setor?

Estamos numa fase difícil para o fazer artístico, tanto por causa do desestímulo do governo federal, que fechou o Ministério da Cultura [transformado em uma secretária], paralisando a Ancine [Agência Nacional do Cinema, hoje vinculada ao Ministério da Cidadania], a Cinemateca… […] Está havendo uma guerra à arte e à cultura. É um momento terrível, similar ao que eu vivi no momento Collor [Fernando Collor, ex-presidente], quando ele fechou a Embrafilme. É o pior momento dos últimos 20 anos, não há dinheiro para o setor, estamos sendo desprestigiados.

O quanto a postura e os discursos do governo federal, com suas suposições de que exista um marxismo cultural, dificultam ainda mais esse cenário?

É evidente que ele [o presidente Jair Bolsonaro] não gosta de cultura. Ele relacionada tudo o que há de ruim na cabeça dele ao comunismo e está cortando o que ele pode cortar, o que está ao alcance dele para destruir, ele está destruindo. Isso é muito ruim para o setor. Mas, enfim, vem uma eleição nova aí [em 2022] e espero que seja eleito um candidato que tenha condições de reconstruir o que já estava construído em um período curto de tempo.

E a pandemia? Quanto tempo vai levar para o setor se recuperar?

Sim, além disso há a questão da pandemia, ninguém pode sair de casa, né? Mas eu sinto que há uma tensão muito grande na sociedade e talvez a arte seja a melhor forma de expurgar esse momento, já que o Congresso não está tomando nenhuma ação para parar essa desorganização, esse descontrole ao qual estamos sendo submetidos [… ]

A pandemia está sendo muito negativa para o setor cinematográfico, está muito caro filmar dentro dos protocolos e, mesmo assim, a segurança não é total. A Ancine está paralisada, e as pessoas não podem sair de casa. É um momento terrível para o cinema.

Quanto tempo vai demorar para se recuperar? Vai depender também das eleições, porque a política pública está indo contra o setor também. Conforme haja vacinação e diminuição do contágio, a gente volta a filmar. As pessoas estão todas com seus projetos, aqueles que ainda têm dinheiro estão prontos para filmar. Mas quem está querendo começar um projeto nesse momento… não sei quanto tempo vai demorar.

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