Fotógrafo de Obama lança livro comparando duas presidências | Notícias internacionais e análises | DW | 16.10.2018
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Estados Unidos

Fotógrafo de Obama lança livro comparando duas presidências

Pete Souza, que acompanhou os oito anos de mandato do presidente democrata, justapõe fotos passadas e fatos atuais do governo Trump. Uma combinação que muitas vezes gera nostalgia.

Barack Obama em telefonema com Vladimir Putin no Salão Oval, março de 2014

Obama em telefonema com Vladimir Putin no Salão Oval, fotografado por Pete Souza em março de 2014

Embora se diga que uma imagem vale mais do que mil palavras, na era do Instagram muitas vezes quem conta a verdadeira história é o contraste entre a imagem mostrada e as poucas palavras que a acompanham.

Pete Souza, fotógrafo da Casa Branca durante os oito anos de mandato do presidente Barack Obama, sabe disso bem demais. O homem que acompanhou por todo o mundo e teve acesso ímpar ao 44º presidente – ele afirma que, em todo esse período, só perdeu um dia de trabalho, por motivo de doença – se transformou num mestre na combinação de imagens e texto.

Em 20 de janeiro de 2017, Souza fechou sua conta oficial no Instagram, em que documentava a convivência com Obama, e abriu outra em seu próprio nome, para postar fotos da época ao lado do ex-presidente democrata. Complementando essa seleção, frases curtas aludem a eventos políticos sob o novo presidente dos Estados Unidos.

Fotógrafo Pete Souza

Pete Souza foi fotógrafo da Casa Branca nas administrações Reagan e Obama

Sem citar o nome de Donald Trump (embora ele às vezes se refira a ele como "46 menos um"), ele usou as legendas para comentar o atual estado da política americana. Suas observações mordazes e sutis são o que se chama, na gíria atual, "to throw shade" – lançar sombra, no sentido de criticar publicamente.

Assim, Souza conquistou mais de 2 milhões de seguidores na rede social. E agora leva essa arte a um novo meio, ao publicar dois livros de fotos selecionadas entre as mais de 2 milhões tiradas de Obama durante seu mandato presidencial.

A publicação mais recente, Shade: A tale of two presidents  (literalmente: Sombra: um conto de dois presidentes) lançada nos EUA nesta terça-feira (16/10), se baseia na justaposição de imagens com textos breves, manchetes de jornal e até mesmo tuítes de Trump, funcionando como legendas e sublinhando a diferença entre os dois chefes de Estado.

Medo pelo futuro da democracia

Durante a polêmica audiência de confirmação do juiz Brett Kavanaugh para a Suprema Corte, o qual fora acusado de má conduta sexual, Souza postou uma imagem de Obama encontrando-se com sua candidata nomeada à mesma posição, Elena Kagan. A legenda dizia: "E não foi preciso forçar a nomeação dela pelo Senado adentro."

O fotógrafo premiado é também ativo no Twitter, onde de sua biografia consta "Citizen of the United States (COTUS)" – "cidadão dos Estados Unidos", numa alusão a títulos oficiais como POTUS, para o presidente, ou FLOTUS, para a primeira-dama. Ele comenta frequentemente questões políticas atuais, inclusive as eleições de meio-mandato, marcadas para 6 de novembro.

Depois que Kavanaugh foi confirmado para a Suprema Corte, apesar de todas as alegações que pesavam contra ele, o fotógrafo tuitou um lembrete de #VoteThemOut (votem para eles saírem), referindo-se aos membros republicanos do Congresso que aprovaram o juiz e concorrem agora à reeleição.

Barack Obama cumprimenta funcionário da Casa Branca

Homem do povo: 44º presidente dos EUA cumprimenta funcionário da Casa Branca, em foto de Pete Souza de 2009

Pete Souza serviu também como fotógrafo oficial durante o governo do republicano Ronald Reagan, além de documentar como freelance a crise de refugiados do Kosovo nos anos 1990, a invasão americana do Afeganistão e a tomada de Cabul no fim de 2001. Recentemente ele inaugurou uma mostra de seus trabalhos em Nova York, intitulada #ThrowShadeThenVote (critique publicamente, depois vote).

Apesar da impressão de que apoie uma determinada linha de pensamento político, Souza é cauteloso com suas opiniões. Segundo a revista The New Yorker, quando uma mulher comentou "Adoro o que o senhor está fazendo com Trump no Instagram", ele respondeu: "Não sei do que a senhora está falando." Em vez de se alinhar com um determinado partido, o fotógrafo afirma estar preocupado "com o futuro da democracia".

"Não sei dizer quão orgulhoso estou de ter visto que, na verdade, há muita gente tentando agir corretamente. Fui fotógrafo na administração Reagan, e diria a mesma coisa sobre eles [os republicanos]", declarou em entrevista à revista The New York Times Magazine.

Nostalgia útil?

Souza já publicou diversas coletâneas de fotografias, inclusive da era Reagan. No entanto, antes mesmo de ser lançado, Shade é o livro que parece estar destinado a entrar para a lista dos best-sellers. Talvez graças a seus leais seguidores nas redes sociais; ou ao inteligente formato do livro, em que as palavras dizem tanto quanto a imagem, criando uma nova maneira de narrar.

Por outro lado, a justaposição de Obama e Trump talvez provoque nos leitores um forte assomo de nostalgia, um sentimento tão enganoso quanto necessário. Como lembra o psiquiatra Neel Burton, autor de Heaven and Hell: The psychology of emotions (Céu e inferno: A psicologia das emoções), a nostalgia tende a distorcer e idealizar o passado.

"Os romanos tinham um dito para o fenômeno que os psicólogos chamariam de 'retrospecção cor-de-rosa': Memoria praeteritorum bonorum, 'o passado sempre é lembrado como algo bom'."

Em foto de Pete Souza de 2009, Obama joga basquete com secretários de gabinete e membros do Congresso

Em foto de Pete Souza de 2009, Obama joga basquete com secretários de gabinete e membros do Congresso

Embora, na capa do livro, Obama não esteja de óculos cor-de-rosa, mas sim de óculos de sol nas cores da bandeira americana, vermelho, branco e azul, os leitores talvez se sintam atraídos pelo livro devido a uma saudade da presidência passada enquanto sonho estético.

Entretanto, a nostalgia também tem seu lado útil. Num estudo sobre personalidade e psicologia social publicado em 2013, pesquisadores determinaram que ela é capaz de criar um senso de otimismo em relação ao futuro, em parte por fazer as pessoas se sentirem mais socialmente conectadas com os outros.

Se Pete Souza, como ele afirma, teme pelo futuro da democracia, talvez as conexões criadas por suas plataformas nas redes sociais e seu livro também ajudem a gerar otimismo neste momento político nos EUA.

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