Filipinas, ″o ponto mais ocidental da América Latina″ | Notícias sobre a América Latina e as relações bilaterais | DW | 15.03.2010
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América Latina

Filipinas, "o ponto mais ocidental da América Latina"

Em 1898, a Espanha perdeu suas últimas colônias, dentre elas, as ilhas Filipinas. O que isso significou e que rastros desse período foram deixados no arquipélago?

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Para Filipinas, a independência da Espanha significou início de outra etapa colonial

Em 1898, chegava ao fim a onda de independências iniciada nas colônias espanholas no início do século. Na guerra contra os Estados Unidos, a Espanha perdeu suas últimas colônias: Filipinas, Porto Rico e Cuba. As ilhas Marianas e Carolinas, que ainda estavam sob seu poder, foram vendidas ao Império Alemão.

Para as Filipinas, a independência da Espanha significou a entrada em outra etapa colonial. Especialmente cobiçados por causa da sua posição geoestratégica, o arquipélago filipino e as ilhas da Micronésia passaram a ser disputados pelo Japão e pelos Estados Unidos, os quais já haviam anexado o Havaí em 1895.

"Para a Espanha, 1898 foi um ponto de inflexão, pois a história espanhola dos séculos 18 e 19 chegava ao fim. Até então, a Espanha era vista como um país imperial que vivia das recordações e do sonho do império", disse à Deutsche Welle o historiador alemão Carlos Collado Seidel, da Universidade de Marburg.

Mais de oito milhões de filipinos trabalham no exterior

Mais de oito milhões de filipinos trabalham no exterior

O caso das Filipinas

A posição do arquipélago filipino sempre marcou a sua diferença em relação às demais colônias do império espanhol. Enquanto a Península mantinha laços estreitos com o continente americano, a relação com as Filipinas era mais distante. Seidel explica: "Sem dúvida, essa é a razão pela qual a ocupação geral nas ilhas pelos espanhóis se deu de forma tardia. Apenas em meados do século 19 a escolarização chegou às ilhas, e floresce a literatura. Mas com o início da etapa colonial estadunidense, a jovem tradição espanhola se perdeu gradativamente", explica Seidel.

Efetivamente, "50 anos de colonização estadunidense conseguiram apagar a herança espanhola", afirma Niklas Reese, pesquisador da Universidade de Bonn.

Fator unificador

Apesar disso, o idioma espanhol foi, por muito tempo, um fator que uniu estas ilhas habitadas por diversas culturas e línguas, como explica Reese: "85% da população filipina é católica e quase todos têm nomes espanhóis. Nas 52 línguas faladas nas Filipinas, há vestígios do espanhol: por mais que a palavra 'casa' seja 'bahai' em malaio, 'cuchara' (colher) e 'mesa' continuam idênticas. Outro idioma local, o tagalo, tem casos semelhantes. Em Zamboanga, fala-se o espanhol com gramática malaia."

Vulkan Mayon auf den Philippinen Flash-Galerie

Vulcão Mayon, na província filipina de Albay

"As Filipinas foram controladas por muito tempo pelo Vice-Reino da Nova Espanha. Por outro lado, sempre foi o quintal da China e também objeto de cobiça dos Estados Unidos e Japão. Os filipinos sempre tiveram o azar de passarem da dependência de um poder colonial a outro", salienta o cientista político Rainer Werning, especialista em Sudeste Asiático.

Até os anos 1960, as Filipinas comemoravam o dia 4 de julho de 1946 como sendo a data de sua independência: mas dos Estados Unidos. Só então foi revisada sua história e passou a se considerar a independência da Espanha. "Foi aí que passaram a questionar sua herança espanhola e a se perguntar por que as ilhas têm o nome do rei espanhol Felipe 2º", conta Werning.

Como se sente um cidadão filipino?

Com tamanha mescla cultural e pouco mais de um século após sua independência da Espanha, com quem se identificam os filipinos? Em que círculo cultural se encaixam? "Estão um pouco entre o sudeste asiático, a China e os Estados Unidos. É como sentar-se em várias cadeiras de uma só vez", opina Michael Reckordt. "As elites se identificam com os Estados Unidos, enquanto o resto da população se sente como um 'zebrurro': nem zebra nem burro", complementa Werning.

O país é formado por 7.107 ilhas e tem uma população que ultrapassa 88 milhões de pessoas. Dessas, mais de 8 milhões vivem no exterior. Durante o governo de Ferdinand Marcos (1965-1986), a imposição da lei marcial e os abusos do governo marcaram a vida dos cidadãos.

Desde os anos de 1970, o país exporta trabalhadores. Segundo pesquisas do Instituto de Políticas de Migração dos Estados Unidos, um em cada cinco filipinos sonha com um visto dos Estados Unidos para melhorar de vida.

"As Filipinas, na minha opinião, são a parte mais ocidental da América Latina, a fronteira com a Ásia atravessa Mindanao", afirma Reese.

Estudantes protestam contra presença militar dos EUA nas Filipinas em novembro de 2009

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A base de espanhol na língua, a distribuição de terras baseada no sistema de fazenda, a elite política formada por proprietários de terras e má distribuição da riqueza, fazem as Filipinas partilharem uma série de características com as ex-colônias do continente americano.

"O amor e ódio em relação aos Estados Unidos é mais um ponto em comum", enfatiza Niklas Reese, para quem a procura por uma categoria em que a cultura filipina possa se encaixar se resume numa palavra: Latinoásia.

Autora: Mirra Banchón (eh)

Revisão: Roselaine Wandscheer