Escritora alemã comenta experiência no Brasil e critica culto dos brasileiros ao corpo | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 26.02.2009
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Cultura

Escritora alemã comenta experiência no Brasil e critica culto dos brasileiros ao corpo

Julia Franck se diz encantada com as paisagens e o povo do Brasil, mas critica difusão da cirurgia plástica e culto excessivo ao corpo no país. Em março, a escritora lançará coletânea de memórias sobre o Muro de Berlim.

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Franck: 'É difícil imaginar que cultura e origem de um autor não se reflitam em sua obra'

Em comemoração aos 20 anos da queda do Muro de Berlim, a escritora alemã Julia Franck organizou um livro que reúne memórias de escritores do leste e do oeste do país sobre a Alemanha dividida. O volume será lançado em março com o título Grenzübergänge (Passagens de Fronteira). Para Franck, é essencial que o livro traga depoimentos de ambas as partes, pois, antes da reunificação, " era comum ignorar, hostilizar ou ter pena da República Democrática Alemã (RDA)".

Nascida na antiga Berlim Oriental em 1970, Franck também teve diferentes experiências com os dois lados da fronteira. Em 1978, fugiu com a família para o oeste, onde passou pelo campo de refugiados de Marienfelde. Depois mudou-se para Schleswig-Holstein, no norte do país. Em 1983, voltou para Berlim, onde estudou Letras (Alemão), Filosofia e História das Civilizações Pré-Colombianas.

Embora já tenha seis livros publicados, somente A Mulher do Meio-Dia ( Die Mittagsfrau) foi lançado no Brasil. Meses antes do lançamento em 2008, a escritora esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro para divulgá-lo. Depois da viagem, publicou no semanário alemão Die Zeit a crônica Botox für die Seele (Botox para a Alma), que conta a história de uma alemã que vai ao Brasil para se tratar com um analista.

Buchcover Grenzübergänge: Autoren aus Ost und West erinnern sich. Herausgegeben von Julia Franck

Novo livro de Julia Franck traz memórias sobre o Muro de Berlim

Deutsche Welle: Em março, será publicado seu novo livro, que recebeu o título Grenzübergänge (Passagens da Fronteira). Nele, você reuniu escritores do leste e do oeste da Alemanha para escrever sobre suas memórias sobre o Muro de Berlim. O que a levou a esta ideia? Por que esses relatos se baseiam especificamente em experiências pessoais?

Julia Franck: O ponto de partida foi minha própria experiência com a fronteira alemã, que tive quando criança com a minha família, primeiro durante a emigração, depois num campo de refugiados e, mais tarde, em visitas à antiga Alemanha Oriental.

Mas, para mim, foi muito importante incluir autores da ex-Alemanha Ocidental em um livro como este. Pois lá, antes da queda do Muro, era comum ignorar, hostilizar ou ter pena da República Democrática Alemã (RDA). Também estas vozes – essa visão bem diferente da outra Alemanha, que acabou transformando o cruzamento da fronteira numa experiência específica de origem – me interessa. No entanto, disse claramente em meu convite que histórias fictícias e "memórias" inventadas são tão bem-vindas quanto as reais.

Principalmente na Europa, tem-se atualmente a impressão de se viver num mundo onde as fronteiras supostamente desaparecem. Você concorda com isso ou acredita que novas fronteiras sempre serão criadas?

É verdade que, com a União Europeia e a moeda comum, muitas fronteiras tornaram-se mais sutis. Mas talvez as fronteiras hoje corram mais claramente dentro de cada sociedade, entre pobres e ricos, instruídos e não instruídos, religiosos e laicos. Acho que também na Europa ainda há grandes diferenças, só que elas não são mais definidas por países e muros.

Você acredita que ainda há diferenças entre o leste e o oeste da Alemanha? O Muro ainda é perceptível? Muitos alemães disseram que o queriam de volta. O que você acha disso?

Claro que quem viveu a queda do Muro e teve diversas outras experiências marcantes nesse sentido tem uma sensibilidade maior para esse tema – ainda mais quando se vive em uma cidade na qual aluguéis, salários, estruturas familiares etc.continuam marcados pelas diferenças.

Mas o processo de reunificação não para. O que não significa que a política alemã não mereça ser criticada. Toda democracia está exposta à crítica, assim como à influência da maioria dos cidadãos e eleitores. Isso nem sempre é bom, mas é melhor que qualquer ditadura.

Deutschland Buchmesse Frankfurt Buchpreis an Julia Franck

Em 2007, a escritora conquistou o Prêmio Alemão do Livro com o romance 'A Mulher do Meio-Dia'

De maneira alguma gostaria de ter o Muro de volta. Pelo contrário. Desejos como esse são, antes, sinais de uma infantilidade conscientemente provocativa ou verdadeiramente ingênua.

O seu livro A Mulher do Meio-Dia foi publicado no Brasil em 2008 e você esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo para lançá-lo. Quais foram suas impressões sobre estas cidades?

A beleza das paisagens do alto do Pão de Açúcar me comoveu. Parecia que estava em uma cápsula espacial, com o oceano azul e tranquilo, as formas das ilhas e baías. Aquilo é muito mais bonito do que qualquer obra de arte. O gosto do açaí, a beleza e a naturalidade do movimento do corpo dos brasileiros, a música, a receptividade das pessoas, tudo isso me agradou muito.

Ao mesmo tempo, as grades de segurança me impressionaram, em todo o bairro de Ipanema e ao redor das melhores casas de São Paulo e do Rio. Muitas câmeras, carros protegidos, funcionários com coletes à prova de bala. O abismo dramático entre ricos e pobres também me abalou, não só quando se vê uma mansão de luxo e uma favela, mas pensei nisso várias vezes depois. Espontaneamente, até pensei que os altos impostos na Alemanha fazem muito sentido. Acho até que poderiam ser mais altos.

Julia Franck fala do livro A Mulher do Meio-Dia , do culto dos brasileiros ao corpo e do papel da mulher na literatura. Clique para continuar lendo.

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