Em tempos de coronavírus, futebol dá lições de solidariedade | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 24.03.2020
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Coluna Halbzeit

Em tempos de coronavírus, futebol dá lições de solidariedade

Jogadores alemães lançam a iniciativa #WeKickCorona, com o objetivo de apoiar financeiramente organizações humanitárias, e torcidas organizadas ajudam idosos com compras, idas à farmácia e encomendas.

Screenshot da iniciativa We Kick Corona (wekickcorona.com)

Joshua Kimmich e Leon Goretzka, ambos jogadores do Bayern, criaram a iniciativa #WeKickCorona

A Alemanha parou. Todos os setores do país foram drasticamente atingidos. Concertos e shows cancelados, cinemas fechados, jogos de futebol proibidos, viagens interditadas, restaurantes e bares de portas cerradas. Até os parquinhos para as crianças brincarem não podem ser frequentados. Restrições de toda sorte delimitam sobremaneira a vida comunitária e as interações sociais.

Ao mesmo tempo, porém, hospitais, ambulatórios, clínicas e consultórios estão trabalhando a todo vapor para garantir atendimento digno aos pacientes que precisam de tratamento. A Alemanha tem quase 28 mil infecções pelo coronavírus e 114 mortes (dados de terça-feira, 24/03).

Sem esquecer que existem inúmeras instituições de caridade que, especialmente nestes tempos tenebrosos, cuidam de pessoas necessitadas, e tantos outros que vivem em situação de rua, os sem-teto.

Foi pensando justamente nessas pessoas, provavelmente até mais ameaçadas pelo coronavírus que o cidadão comum, que Joshua Kimmich e Leon Goretzka, ambos jogadores do Bayern, criaram há poucos dias a iniciativa #WeKickCorona, com o objetivo de apoiar financeiramente organizações humanitárias caritativas.

"Como jogadores profissionais de futebol temos uma vida saudável e privilegiada. Nesse período difícil, vemo-nos na obrigação de assumir responsabilidades. Para nós, dar e ajudar é obrigatório neste momento." São palavras que soam como um manifesto na hashtag #WeKickCorona.

Ambos deram o pontapé inicial na iniciativa com a doação de um milhão de euros. Quatro dias depois, mais de três milhões de euros já haviam sido arrecadados com a adesão de dezenas de jogadores ao movimento iniciado por Kimmich e Goretzka.

Na lista de apoiadores aparecem craques do futebol conhecidos no mundo inteiro, como Mats Hummels, Leroy Sané, Julian Draxler, Julian Brandt e muitos outros.

Robert Lewandowski, artilheiro da Bundesliga, e sua mulher Anna também anunciaram uma doação de um milhão de euros para ajudar no combate à doença covid-19: "Temos plena consciência da situação difícil que nos cerca. Agora jogamos todos juntos numa só equipe. Se pudermos ajudar alguém, vamos fazê-lo", declarou o casal.

A seleção alemã também não deixou por menos. Foram arrecadados 2,5 milhões de euros em poucos dias. O capitão da equipe, Manuel Neuer, não se fez de rogado: "Em tempos difíceis, precisamos olhar um pouco mais para os outros."

Nesta crise que assola o mundo de forma tão assustadora, além dos jogadores de futebol, há um grupo intimamente ligado à Bundesliga dando belos exemplos de solidariedade. Trata-se das torcidas Ultra que, há apenas algumas semanas, foram severamente criticadas por suas ofensas e ameaças a Dietmar Hopp, mecenas do Hoffenheim.

Agora, porém, esse segmento das torcidas organizadas também foi tomado por uma onda de solidariedade. Os Ultras estão se revelando como socorristas nas primeiras e urgentes necessidades, principalmente de pessoas pertencentes aos grupos de risco.

Sig Zelt, da organização ProFans, acredita que a imagem pública das torcidas Ultra vai sofrer uma mudança: "Espero que nossa imagem junto à opinião pública vá melhorar", disse à agência DPA.

Em todo país existem atualmente pelo menos 20 iniciativas das torcidas organizadas que oferecem diversos serviços como compras ou entregas de encomendas direcionados especificamente para idosos.

"Nesta crise, o que conta é a solidariedade. É nosso dever, não apenas como torcedor, mas também como cidadão, tentar superar a crise da melhor forma possível", informa André Golinski, de uma associação de torcedores do Hannover 96.

Para Zelt, torcedor do Union Berlin, o engajamento de muitos grupos Ultra não surpreende: "Estas ações se inserem na consciência social dos Ultras. Querem fazer a coisa certa e que seja algo bom para a sociedade", explica.
 
Em Dortmund, o agrupamento da muralha amarela "Tribuna Sul Dortmund" conta com 90 voluntários para ajudar idosos nas suas compras em supermercados e farmácias. Kevin Grosskreutz, ex-jogador do Borussia Dortmund e da seleção alemã, faz parte do grupo.

O Nurembergue (FC Nürnberg) oferece ajuda a pessoas necessitadas para suas compras do dia a dia. Funcionários do clube e torcedores Ultra do clube se especializaram em atender idosos em quarentena e necessitados em geral. A lista de compras é feita por telefone, as sacolas com as mercadorias são colocadas diante da porta e o dinheiro é entregue dentro de um envelope. Os voluntários usam luvas e máscaras de proteção, além de serem orientados por médicos especialistas na área.

As ações de solidariedade dos Ultras podem ser vistas também em Stuttgart, Munique, Gelsenkirchen e muitas outras cidades. Estão unidos para ajudar no que for possível com o objetivo de aliviar a dor dos mais fragilizados.

Detalhe: para as torcidas organizadas pouco importa se haverá um ganho na sua imagem junto à classe dirigente da Bundesliga por conta de suas ações caritativas. Fazem o que fazem por um imperativo ético que os move em direção a ações solidárias.

 "A questão da reputação é secundária" diz André Golinski, do Hannover. "Para os Ultras, tanto faz. Eles representam uma incômoda subcultura jovem e rebelde. Não deram a mínima para sua reputação no passado, não dão agora e não darão no futuro. Para os Ultras, não é relevante o que pessoas de outras classes sociais possam pensar a seu respeito", acrescenta.

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no TwitterFacebook e no site Bundesliga.com.br

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