Em carta, Bolsonaro pede à Índia urgência no envio da vacina de Oxford | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 09.01.2021

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Brasil

Em carta, Bolsonaro pede à Índia urgência no envio da vacina de Oxford

Presidente solicita a premiê indiano antecipação da remessa do inoculante contra covid-19. Governo quer receber 2 milhões de doses do imunizante de Oxford a tempo para iniciar vacinação ainda neste mês.

Jair Bolsonaro com máscara

Pedido de Bolsonaro ocorre após Fiocruz anunciar atraso na chegada do insumo para produção local da vacina

O presidente Jair Bolsonaro enviou nesta sexta-feira (08/01) uma carta ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo urgência no envio ao Brasil das doses da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca produzidas na Índia, segundo informou o governo federal.

"O imunizante está sendo produzido no Serum Institute of India e deverá integrar de forma imediata a implementação do nosso Programa Nacional de Imunização", informaram, em nota conjunta, a Secretaria de Comunicação da Presidência e o Ministério da Saúde. Neste momento, o laboratório indiano fornecerá 2 milhões de doses da vacina.

O imunizante foi desenvolvido pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca.

Na carta, Bolsonaro também agradeceu a Índia pela liberação das exportações dos insumos farmacêuticos produzidos naquele país, "de extrema relevância para o abastecimento do mercado brasileiro", de acordo com a nota.

O Ministério da Saúde quer começar a imunização, no cenário mais otimista, a partir de 20 de janeiro. Além da vacina da AstraZeneca, o governo federal também aguarda aprovação da Anvisa da Coronavac, desenvolvida pela chinesa Sinovac. 

O pedido de urgência para a importação das doses da Índia ocorre após a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entidade do governo federal, ter informado que vai ocorrer um atraso na chegada ao país do insumo necessário para a produção local do inoculante da AstraZeneca. Até o fim do ano, o governo brasileiro espera contar com mais de 200 milhões de doses do imunizante produzidas pela Fiocruz.

A vacina da Sinovac está sendo produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo paulista. A expectativa do governo brasileiro é comprar 100 milhões de doses da Coronavac.

Bolsonaro já cogitava desde o início da semana pedir ajuda ao governo indiano para evitar demora na venda das vacinas ao Brasil. O Planalto quer evitar deixar o protagonismo da imunização para seu principal adversário político no momento, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Pedidos de registro emergencial

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recebeu nesta sexta-feira os dois primeiros pedidos de registro emergencial no país de vacinas contra a covid-19. A autorização foi solicitada tanto para a vacina Coronavac, tanto para o imunizante da AstraZeneca.

O primeiro pedido apresentado à Anvisa foi o da Coronavac e se refere ao uso de 6 milhões de doses que já foram importadas prontas  Depois, foi a vez de a Fiocruz protocolar o pedido de uso emergencial de 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca que serão importadas prontas da Índia.da China.

Ritmo de entrega

Dois milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca devem ser importadas prontas da Índia ainda em janeiro. A Fiocruz, que no primeiro semestre produzirá esse imunizante em território nacional a partir do princípio ativo importado da China, planeja entregar ao governo federal seu primeiro lote, de 1 milhão de doses, na semana de 8 a 12 de fevereiro. A partir do final de fevereiro, a projeção é entregar 3,5 milhões de doses por semana.

Durante o segundo semestre de 2021, a Fiocruz terá o controle total da tecnologia e passará a produzir também o princípio ativo. A meta é entregar 210 milhões de doses no total neste ano.

Já o governo paulista tem um estoque de 10,8 milhões de doses da Coronavac, que foram importadas prontas da China, e deve receber mais 35 milhões de doses até a primeira quinzena de fevereiro. O Instituto Butantan também se prepara para poder fabricar a vacina no Brasil no futuro.

Mais de 200 mil mortes

Nesta quinta-feira, pouco menos de dez meses depois de registrar oficialmente sua primeira morte por covid-19, o Brasil ultrapassou os 200 mil óbitos pela doença. No entanto, especialistas alertam que os números reais de casos e mortes devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação. O ex-ministro da Saúde Nelson Teich, por exemplo, estimou em 25 de dezembro, considerando a subnotificação, que o país já havia alcançado a marca de 230 mil mortes.

Apenas um país acumula mais mortes do que o Brasil: os Estados Unidos, que já registaram mais de 360 mil óbitos. No entanto, ao contrário dos EUA, o Brasil permanece atrás na principal iniciativa para pôr um fim à pandemia: a vacinação. Enquanto mais de 40 nações já iniciaram esforços para imunizar suas populações, o Brasil ainda segue com um plano vago de imunização, ficando atrás até mesmo de outros países latino-americanos.

Politização da vacina

O Brasil é também a única nação do mundo em que o presidente vem agindo ativamente para sabotar esforços de imunização. A guerra de Bolsonaro contra as vacinas eclodiu no segundo semestre de 2020, quando avançou a iniciativa paralela do governo de São Paulo para garantir doses diante da inação da administração federal.

A vacina promovida pelo governador João Doria, um desafeto político provocou a fúria de Bolsonaro. A partir de agosto, o presidente passou a sistematicamente minar a confiança na vacina Coronavac do governo paulista, produzida em parceria com a empresa chinesa Sinovac. Em novembro, Bolsonaro chegou a celebrar a morte de um voluntário brasileiro da Coronavac – num caso sem relação com o estudo – e a suspensão temporária dos testes.

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"Lamentamos as mortes, mas a vida continua", diz Bolsonaro

Atrás do governo paulista, a administração federal apostou num acordo com a empresa anglo-sueca AstraZeneca para a produção de vacinas, em parceria com a Fiocruz. Na contramão de quase todos os países do mundo, o Ministério da Saúde se comprometeu inicialmente com apenas uma vacina, e não com um leque diversificado como ocorreu, por exemplo, na União Europeia. Contatos com a americana Pfizer no segundo semestre inicialmente não despertaram o interesse do governo.

Bolsonaro também chegou a desautorizar Pazuello quando o ministro mostrou interesse em adquirir a vacina paulista. O lançamento da vacina da AstraZeneca acabou sofrendo atrasos após problemas na análise de dados sobre a eficácia, colocando inicialmente o precário plano de imunização federal em dúvida.

Em dezembro, diante do progresso na elaboração do plano de imunização paulista, o governo finalmente resolveu se apressar. Manifestou interesse pela vacina da Pfizer, mas esbarrou na alta demanda mundial. A Pfizer ainda reclamou dos entraves impostos pelo governo para a aprovação da vacina.

Licitação tardia

Tardiamente, o governo lançou em dezembro uma licitação para comprar mais de 330 milhões de seringas. O setor que produz o material reclamou que já vinha alertando o governo desde julho para apressar a comprar do material. A licitação foi um fracasso. Só 7,9 milhões foram garantidas.

Bolsonaro acabou suspendendo a compra e culpou os fabricantes por supostamente elevarem os preços. No entanto, ele não havia feito objecões em 2020 ao adquirir doses de hidroxicloroquina por três vezes o valor de mercado. E quando o fracasso da licitação foi revelado pela imprensa, o Ministério da Saúde usou suas redes para publicar um falso desmentido. No entanto, o próprio governo usou o fracasso como justificativa para barrar a exportação de seringas em documento enviado à Secretaria de Comércio Exterior.

Ainda sem um cronograma, Pazuello tem apostado em falas tranquilizadoras sobre supostos estoques de vacinas. Em dezembro, disse que o Brasil teria 15 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca, mas a Fiocruz, responsável por produzir a vacina, disse que só seria capaz de entregar 1 milhão de doses a partir da segunda semana de fevereiro.

Importação da Índia

Para ter algo à mão em janeiro, o governo apelou para a importação de 2 milhões de doses prontas produzidas na Índia. Com essa carga, Pazuello espera começar a vacinar em 23 de janeiro – dois dias antes do prazo apontado pelo governo paulista, num sinal que a súbita pressa tem motivos políticos. Em contraste, o governo paulista diz que seu estoque de vacinas já chega a 10,8 milhões de doses.

Na quarta-feira, Pazuello fez um pronunciamento em rede nacional para propagandear os esforços da sua pasta, mas não mencionou quantas pessoas o governo pretende vacinar nos próximos meses. Mesmo sem ainda nenhuma vacina efetivamente em estoque, Pazuello disse que o Brasil será um "exportador" de doses. Ele afirmou que estados e municípios têm no momento estoques suficientes de seringas para começar a vacinação, mas não abordou como pretende contornar o fracasso da licitação quando a campanha se expandir.

MD/ebc/ots

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