Disney é criticada por filmar ″Mulan″ em região chinesa palco de abusos | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 08.09.2020

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Cultura

Disney é criticada por filmar "Mulan" em região chinesa palco de abusos

Créditos finais do filme contêm agradecimentos a agências na região autônoma de Xinjiang, onde o governo chinês tem efetuado prisões em massa de membros de minoria muçulmana. Ativistas pedem que público boicote produção.

Atriz Liu Yifei no filme Mulan

Cena do filme "Mulan". Produção já havia despertado controvérsia em 2019, quando atriz principal manifestou apoio à polícia de Hong Kong

A refilmagem de Mulan tem despertado críticas pelo uso de locações em Xinjiang, no noroeste da China. A região autônoma está no centro de uma campanha brutal do governo central do país para assimilar os uigures, uma minoria muçulmana, cujos membros têm sido detidos às centenas de milhares em campos de detenção.

O filme foi lançado na última sexta-feira (04/09) na plataforma de streaming Disney+. Alguns espectadores logo notaram que os créditos finais da produção contêm agradecimentos a oito agências governamentais chinesas de Xinjiang, incluindo a polícia local e diversos departamento locais de propaganda do Partido Comunista Chinês.

Uma das agências mencionadas nos créditos do filme, o Departamento de Segurança Pública de Xinjiang, consta em uma "lista negra" do Departamento de Comércio dos EUA que proíbe que empresas americanas façam negócios com ela.

"Este filme foi rodado com a ajuda da polícia chinesa enquanto, ao mesmo tempo, esses policiais cometiam crimes contra o povo uigur em Turpan", disse Tahir Imin, um ativista uigur radicado em Washington para o jornal The New York Times, mencionando uma das cidades que concentram membros da minoria."Toda grande empresa nos EUA precisa pensar se seu negócio está ajudando o governo chinês a oprimir o povo uigur."

O ativista Joshua Wong, um dos líderes dos protestos pró-democracia de Hong Kong, também comentou sobre o envolvimento do conglomerado de mídia americano com as autoridades de Xinjiang.

"Só piora! Agora, quando você assiste #Mulan, você não está apenas fechando os olhos para a brutalidade policial e a injustiça racial (devido ao que os atores principais defendem), você também é potencialmente cúmplice no encarceramento em massa de uigures muçulmanos", escreveu Wong.

A referência aos "atores principais" se deve às opiniões de Liu Yifei, a atriz que interpreta a personagem que dá nome ao filme. Em 2019, ela escreveu numa rede social uma mensagem de apoio à polícia de Hong Kong em meio à repressão dos protestos antigovernamentais no território semiautônomo.

No final de 2019, ativistas de Hong Kong chegaram a lançar uma campanha de boicote ao filme, que estava previsto para estrear nos cinemas em março, mas o lançamento foi adiado por causa da pandemia de coronavírus. Posteriormente, a Disney tomou a decisão de lançar o filme no seu serviço de streaming.

Os uigures têm sido alvo de uma campanha de repressão do governo chinês – dominado por membros do grupo étnico han – desde 2014. Em 2019, documentos chineses obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revelaram que Pequim instalou um vasto complexo de centros de detenção em Xinjiang que foram denominados  "instituições de educação continuada", um eufemismo para campos de detenção para reeducação forçada.

Campo de reeducação em Xinjiang

Campo de reeducação em Xinjiang

Especialistas estimam que haja mais de 1 milhão de uigures nesses campos, detidos em grande parte sem julgamento. Segundo os documentos, a repressão aos muçulmanos foi ordenada pelo próprio presidente chinês, Xi Jinping. E na execução da medida não deveria ser mostrada nenhuma piedade, segundo um discurso realizado por Xi em 2014 e citado pelo New York Times.

Ativistas ainda denunciam campanhas de esterilização em massa e de trabalho forçado na região. Em julho, um relatório produzido por um antropólogo alemão apontou que em 2019 a taxa de natalidade caiu 24% nas áreas que concentram os uigures, quase seis vezes mais do que a media do restante da China.

Segundo o New York Times, não foram revelados detalhes sobre a extensão da colaboração entre a Disney e as autoridades de Xinjiang, mas o jornal aponta que o calendário de pré-produção do filme indica que os atores e a equipe de filmagem estavam na região quando o governo intensificou ainda mais sua campanha de repressão, em 2017. Em setembro daquele ano, a diretora do filme, Niki Caro, postou no Instagram uma foto que mostra uma paisagem desértica em Urumqi, a capital de Xinjiang.

Nos anos 1990, a Disney manteve uma relação tumultuada com os  chineses. O filme Mulan original, de 1998, teve seu lançamento adiado por um ano na China após uma produtora que pertencia à Disney ter se envolvido nas filmagens de Kundun (1997), uma cinebiografia do Dalai Lama dirigida por Martin Scorsese.

À época, o então presidente da Disney, Michael Eisner, chegou a afirmar que Kundun havia sido "um erro estúpido" e pediu desculpas aos seus "amigos" na China durante um encontro com Zhu Rongji, que ocupava o cargo de primeiro-ministro no país asiático.

Em 1998, Esiner chegou a dizer aos chineses que "no futuro" os responsáveis pela companhia agiriam "para evitar esse tipo de coisa". O então premiê chinês elogiou a "coragem" de Eisner em "corrigir erros".

Nos anos seguintes, a Disney fez esforços para melhorar suas relações com o governo chinês, chegando a contratar o ex-secretário de Estado Henry Kissinger como lobista e conselheiro para seus negócios no país asiático. Nos anos 1970, ele foi o principal arquiteto da reaproximação entre os EUA e a China.

Kundun foi distribuído de forma tímida pelo mundo e fracassou nas bilheterias. A Disney nunca mais se envolveu com algum filme parecido. Nas décadas seguintes, seus negócios na China floresceram, passando a incluir um parque temático em Xangai.

JPS/ots

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