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Denúncias de assédio chegam à ONU

19 de janeiro de 2018

Jornal britânico revela "cultura do silêncio" dentro da entidade e o fracasso ao investigar os casos. Muitos funcionários temem represálias e a perda de seus empregos caso denunciem os abusos.

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Acusações de abusos sexuais envolvem oito agências da ONU, como o Acnur, Undp, as missões de paz e agências de ajuda alimentar
Acusações envolvem oito agências da ONU, como o Acnur, Undp, as missões de paz e agências de ajuda alimentarFoto: Imago/photothek/T. Imo

A ONU tolerou assédio sexual em seus escritórios pelo mundo, ignorando denúncias de vítimas e permitindo que suspeitos seguissem impunes, denunciou o jornal britânico The Guardian nesta quinta-feira (18/01).

Segundo o jornal, a maioria das vítimas evita denunciar formalmente os agressores, temendo represálias ou o fim de suas carreiras em diversos programas da ONU.

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Dezenas de funcionários da ONU afirmaram ao Guardian que as acusações são geralmente ignoradas e que os acusados agem com liberdade e impunidade, através de uma "cultura de silêncio" dentro da organização e de falhas no sistema de denúncias.

Entre as pessoas consultadas pelo jornal, 15 afirmaram terem sido vítimas ou vivenciado assédio sexual nos últimos cinco anos, em acusações que vão de assédio verbal a estupros.

Entre as mulheres, sete disseram ter feito denúncias formais sobre os incidentes, apesar de muitos funcionários temerem fazê-lo em razão do medo de perderem seus empregos ou por acharem que nenhuma medida será tomada.

"Se você denunciar, sua carreira estará praticamente acabada, especialmente se atuar como consultor", disse uma funcionária que afirma ter sido assediada por seu supervisor enquanto trabalhava para a FAO, a agência alimentar da ONU.

Falhas nas investigações

Funcionários de agências da ONU em mais de dez países falaram ao jornal na condição de anonimato, seja pela proibição de se pronunciarem publicamente imposta pelas regras da entidade ou pelo medo de retaliações.

No ano passado, três mulheres que denunciaram assédio ou agressões sexuais na entidade – empregadas em agências diferentes – afirmam que foram forçadas a deixar seus trabalhos ou ameaçadas de terem seus contratos encerrados. Os supostos agressores, incluindo um membro do alto escalão da ONU, permanecem em seus postos.

Uma das mulheres disse ter sido estuprada por um de seus superiores enquanto trabalhava em um local remoto. Ela afirma ter perdido seu emprego, dizendo que não há opções par que a justiça seja feita.

A vítima afirma que uma investigação interna da ONU não encontrou provas suficientes sobre a sua denúncia, apesar de evidências médicas e relatos de testemunhas. Ela diz que perdeu ainda seu visto de permanência no país em que trabalhava e teve de passar meses num hospital devido ao trauma e ao estresse, além de temer represálias ao retornar a seu país de origem.

Várias testemunhas relatam falhas do Escritório da ONU para Serviços de Fiscalização Interna (Oios, na sigla em inglês) ao lidar com as denúncias, além de ameaças de superiores para que não levassem adiante as acusações e a falta de atendimento médico ou aconselhamento adequado.

Força-tarefa para lidar com o assédio

Muitos funcionários da ONU possuem imunidade diplomática nos países em que trabalham, o que os impede de serem investigados pelas autoridades locais. Algumas agências possuem um estatuto que limita as denúncias a um período de seis meses.

A ONU admite preocupações com o baixo número de denúncias formais e afirma que o secretário-geral, Antonio Guterres, adotou a questão como prioridade, além de manter uma política de "tolerância zero" contra os abusos sexuais dentro da entidade.

Em comunicado, a ONU prometeu "reforçar a capacidade de investigar denúncias e dar apoio às vítimas", e afirma que Guterres designou defensores dos direitos das vítimas e estabeleceu uma força-tarefa para lidar com o assédio sexual, revisar políticas internas e reforçar as investigações. A entidade afirma que realizará um estudo para avaliar a extensão do problema e introduzir meios de fornecer ajuda às vítimas.

Recentemente, uma pesquisa realizada entre funcionários do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) revelou que quase 10% dos 427 funcionários da agência sofreram algum tipo de assédio, sendo que apenas dois denunciaram formalmente os casos.

As acusações envolvem oito agências da ONU, como o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur), o Programa da ONU para o Desenvolvimento (Undp), as missões de paz e agências de distribuição de alimentos, onde os cargos superiores são majoritariamente ocupados por homens. A Unesco investiga denúncias de abusos supostamente cometidos pelo diretor-geral assistente Frank La Rue.

RC/ots

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