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Máscara de médico da peste
Para se proteger da peste, médicos usavam máscaras como esta exposta em mostra na AlemanhaFoto: Julian Stratenschulte/dpa/picture alliance
SaúdeGlobal

Da peste negra à covid: como epidemias definem a história

Susanne Spröer
5 de outubro de 2021

Doenças infecciosas mataram milhões de pessoas ao longo dos séculos, mas também trouxeram mudanças e progresso, influenciando da ciência a guerras e até o clima do planeta.

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Numa das minhas lembranças de infância, estou na escada rolante de uma loja de departamentos, esticando a mão para pegar no corrimão. Minha avó me puxa carinhosamente: "Não faça isso, é sujo", e segura minha mão forte, enquanto descemos.

Deve ter sido no fim dos anos 60, eu tinha uns quatro ou cinco anos de idade. Na época, a "gripe de Hong Kong" varrera o planeta: embora tenha matado de 1 milhão a 4 milhões de seres humanos, hoje ela está praticamente esquecida. E aos poucos foram abandonadas as lições de higiene da época, que a pandemia de covid-19 voltou a popularizar: manter distância, usar máscara, lavar as mãos.

Minha avó, cuja mãe quase morrera da assim chamada "gripe espanhola" de 1918, ainda tinha bem presentes essas precauções de segurança. Antes dos antibióticos e da vacinação em grande escala, durante séculos doenças infecciosas como o tifo, difteria e varíola espalharam terror nos corações dos europeus.

"Perigo tão grande quanto a mudança climática"

Hoje em dia, quem morre dessas infecções são sobretudo as crianças de países menos desenvolvidos, muitos dos quais não têm como arcar com o luxo de vacinações dispendiosas e bons sistemas de saúde. No entanto o vírus Sars-Cov-2 também abalou a sensação geral de segurança e mostrou que ninguém está imune.

"Epidemias são a maior ameaça global, ao lado da mudança climática", afirma Oliver Gauert, curador da "maior exposição de história médica do mundo", segundo afirma. "Elas simplesmente não entraram na consciência do público no mesmo grau. A covid é uma advertência para a humanidade."

Epidemias. Maldição do passado, ameaça do futuro foi inaugurada em 2 de outubro de 2021 no Museu Roemer-Pelizaeus de Hildesheim, no estado alemão da Baixa Saxônia. Ela foi concebida em cooperação com numerosas instituições científicas, entre as quais a Universidade de Ciências e Artes Aplicadas de Hanover e o Centro Helmholtz de Pesquisa de Doenças Infecciosas.

"O triunfo da Morte", de Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569)Foto: Römer und Pelizäus-Museum Hildesheim

O triunfo da Morte

A entrada para a mostra foi projetada na forma de um enorme livro. Atravessando 30 estações, os visitantes vivenciam momentos-chave da medicina, do teatro anatômico de Pádua, inaugurado em 1595, onde se realizaram as primeiras dissecções de cadáveres, ao laboratório do Nobel da Medicina Paul Ehrlich (1854-1915), que desenvolveu uma cura para a sífilis.

A exposição também reproduz uma unidade de tratamento intensivo de covid-19. Com um manequim conectado a um ventilador, a instalação constitui um impiedoso lembrete de que neste momento há gente lutando assim pela própria vida em hospitais de todo o mundo.

Incluídas estão também obras de arte tematizando as epidemias. Em O triunfo da Morte, do pintor flamengo Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569), o céu é sombrio: nuvem cinza-azulado pairam sobre uma paisagem de árvores carbonizadas.

Em primeiro plano está uma pilha de cadáveres, um esqueleto corta a garganta de um homem de camisa branca, enquanto outro, às costas de um rei, ergue uma ampulheta. Atrás de um portão, um exército de outros esqueletos aguarda para levar a peste negra até o povo.

Esse "Ceifador Macabro" está profundamente arraigado na memória cultural da Europa, como emblema das epidemias. E o aterrorizante esqueleto de Bruegel não discrimina entre pobre ou rico, homem, mulher ou criança.

Definindo destinos – para o mal e para o bem

Nem os historiógrafos médicos sabem dizer quantos milhões acabaram morrendo em decorrência de epidemias. Certo está, porém, que a peste "não afetou apenas os pobres, como o tifo ou febre tifoide, mas também as elites da sociedade", relata Gauert. "Então, pode-se imaginar que houve uma redistribuição total de propriedades e poder."

A agricultura, ofícios e guildas tiveram que encontrar novas formas de trabalho. Assim, o processo de superar epidemias promoveu mudanças culturais e políticas. Foi esse o caso da peste: até sua eclosão, no século 14, enfermidades eram consideradas punição divina.

"Mas a peste negra fez tantas vítimas, mesmo nos quadros da Igreja, que o povo se recusou a suportá-la passivamente", prossegue o curador da mostra. "Pela primeira vez, encarregou-se uma instituição científica, a Universidade de Paris, de dar uma opinião especializada sobre as causas. Foi a primeira vez que se abordou uma moléstia assim, de forma sistemática e científica."

As pestes também estancaram guerras e determinaram vitória ou derrota. Como quando, no começo do século 16, o conquistador espanhol Hernán Cortés e um pequeno exército de mercenários fizeram cair o poderoso império asteca. Durante a batalha de Tenochtitlán, uma epidemia irrompeu entre o povo nativo do México, matando metade da população: os invasores haviam trazido consigo sarampo, varíola ou outro patógeno, contra o qual eram imunes – mas os astecas, não.

Participante de desfile no México fantasiado de Morte asteca
O outro "triunfo da morte": mexicanos comemoram 500 anos da queda da civilização asteca Foto: Reuters

Clima, doenças e globalização interconectados

Um estudo da University College London, de 2019, sugere que a transmissão de epidemias do Velho para o Novo Mundo possa ter influenciado o clima terrestre. Estima-se que 90% dos povos nativos da América tenham morrido em consequência de pestes importadas, por isso tantos quilômetros quadrados de terra previamente cultivada ficaram abandonados.

Árvores e arbustos voltaram a crescer livremente, absorvendo dióxido de carbono da atmosfera. O clima global esfriou, causando a "Pequena Era do Gelo" por volta de meados do século 16. O evento demonstra quão intimamente clima, enfermidades e globalização estão interconectados.

"As moléstias infecciosas estão avançando", adverte Oliver Gauert, citando quatro fatores decisivos. O primeiro é o trânsito global de mercadorias e pessoas, propiciando que as doenças se alastrem em escala mundial numa questão de semanas.

Em segundo lugar está a mudança climática, gradativamente ampliando as zonas tropicais e subtropicais. Espera-se que, dentro de dez anos, por exemplo, a dengue, doença infecciosa tropical-subtropical transmitida por mosquitos, tenha chegado à Alemanha.

O terceiro fator é a penetração humana em regiões da selva cada vez mais remotas, onde estão latentes vírus perigosos, como se evidenciou com o ebola e a aids. E, por fim, cai a efetividade dos antibióticos na luta contra infecções bacterianas, devido à resistência crescente dos patógenos.

Homem sorri junto reprodução de laboratório antigo em mostra museológica
Curador Oliver Gauert exibe réplica do laboratório de Paul EhrlichFoto: Julian Stratenschulte/dpa/picture alliance

Avanços na medicina não são para todos

O curador da exposição enfatiza, contudo, que essas ameaças são basicamente controláveis hoje em dia. Ao contrário das gerações anteriores, a humanidade não está mais indefesa diante de vírus e bactérias.

Além disso, enquanto no passado levava décadas até se desenvolver uma vacina, a primeira contra o novo coronavírus já estava disponível após um ano. Assim, "cada pandemia faz a ciência, a medicina e os sistemas de saúde avançarem".

Esses avanços, no entanto, não ocorrem na mesma velocidade por toda parte. Mesmo durante a atual pandemia, evidencia-se uma enorme lacuna entre os países ricos e pobres.

Ainda assim, todos podem contribuir para a luta contra os vírus e bactérias. Quando criança, eu ficava aborrecida quando ia correndo faminta para a mesa e minha avó me ralhava: "Não esqueça de levar as mãos!" Hoje, em meio à pandemia, eu sigo os preceitos de higiene dela mais conscienciosamente do que nunca.