Cooperação Brasil-Alemanha deve mudar, diz diretor da InWent | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 30.08.2008
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Brasil

Cooperação Brasil-Alemanha deve mudar, diz diretor da InWent

Diretor da InWent diz que é preciso sair dos projetos de apoio e passar para um nível de diálogo em pé de igualdade entre Brasil e Alemanha. Segundo ele, campo é fértil para trocas e intercâmbios em vários setores.

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InWent fomenta o diálogo entre os países da floresta amazônica

A InWent é uma organização ligada ao governo alemão, sem fins lucrativos, que concentra 200 projetos de capacitação profissional no mundo. São 55 mil participantes por ano, financiados por agentes públicos e privados.

O orçamento anual da organização chega a 120 milhões de euros. O diretor da Área de Fomento ao Setor Privado da InWent, o brasileiro Luiz Ramalho, disse, em entrevista à DW-WORLD.DE, que o diálogo entre Brasil e Alemanha, na chamada ajuda ao desenvolvimento, tem que mudar.

DW-WORLD.DE: A Alemanha ainda tem bastante a contribuir para o aperfeiçoamento de profissionais no Brasil?

Luiz Ramalho : Acho que no caso do Brasil a cooperação está mudando o enfoque. Não é uma cooperação no sentido de que o Brasil tenha algo a aprender com a Alemanha e os alemães vão passar uma lição aos brasileiros. O Brasil tem boas universidades, centros de pesquisas, uma estrutura industrial formada e uma sociedade civil bem articulada, em certos pontos até mais articulada do que na Alemanha. Então se trata agora de mudar o patamar da cooperação.

Luiz Ramalho Direktor von InWent Deutschland

Ramalho: Alemanha pode ajudar a internacionalizar profissionais brasileiros

Agora precisamos de programas de diálogo, de intercâmbio. Creio que os alemães podem contribuir em várias áreas para o Brasil. A Alemanha tem condições de fazer uma importante contribuição tecnológica, mas não se trata de transferir tecnologia pura e simplesmente. O ideal é criar uma estrutura de diálogo porque o Brasil também tem tecnologia, como por exemplo no caso do etanol.

É nisso que se começa a investir agora. A cooperação não está mais realizando projetos no Brasil, está passando para um nível de diálogo. É um momento de mudança também para as instituições alemãs, que têm que ter uma atitude diferente em relação a um país como o Brasil.

Eu trabalho numa instituição alemã que se ocupa exatamente disso, de criar relações de intercâmbio e aprendizado mútuo. E nós temos problemas comuns, como as questões do clima e da energia, nos quais a Alemanha deu passos que podem ser interessantes para o Brasil.

Todos os setores de ajuda ao desenvolvimento da Alemanha têm claro esse nível de relacionamento novo que se abre para com o Brasil?

Bom, nós temos que aprender. Esta mudança de mentalidade é um desafio profissional para os alemães também. Sair dos projetos de apoio e passar para um nível de diálogo em pé de igualdade. Mas isso é uma filosofia nova. As áreas de cooperação foram restritas. Algumas delas, mantidas, tradicionais, são a ambiental e tecnológica. Eu acho que por aí nós vamos encontrar uma forma de relacionamento diferente.

Mas nós brasileiros ainda temos que nos internacionalizar um pouco mais. O Brasil está cumprindo um papel cada vez mais importante na comunidade internacional, mas nós temos poucos brasileiros que sabem lidar com este novo cenário. Neste sentido também a Alemanha pode contribuir, ajudando a internacionalizar os profissionais brasileiros. Não necessariamente na formação profissional, mas na competência internacional.

Qual é o exemplo claro disso?

É sempre complicada uma comparação com a China, mas eles estão enviando milhões de jovens para o exterior. A InWent foi contratada pelo governo da China para trazer diretores de escolas profissionais para entender como funciona o setor na Alemanha.

Os chineses estão investindo para resolver um problema sério que tinham. Eles não falavam línguas estrangeiras e viviam isolados em seu mundo. Esta abertura da economia chinesa foi acompanhada de uma iniciativa de internacionalização da mão-de-obra qualificada na China. A Índia, ao contrário da China, sempre fez isso. Tem um acesso mais fácil em função da língua e você vê profissionais da Índia em todos os lugares do mundo.

Você encontra um professor indiano trabalhando numa ilha do Pacífico, mas você raramente vai ver um brasileiro cumprindo funções profissionais como essa porque nós estamos voltados para nós mesmos. Nós temos que dar este passo.

Qual é a ênfase da InWent nos projetos da América Latina?

A InWent vem de uma tradição de cooperação com o setor privado. Por isso, colocamos o nosso escritório na Câmara de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha. Estamos trabalhando com um projeto forte junto ao Banco Mundial e as câmaras do Mercosul nas áreas de responsabilidade social das empresas.

Windpark Wybelsumer Polder Symbolbild Windenergie

Também discutimos com as empresas alemãs que têm investimentos fortes nos países da região e programas sociais, mas que pretendem aperfeiçoá-los com esse item fazendo parte das estratégias das empresas. Também temos relações com empresas brasileiras. Por exemplo, creio que 80% dos técnicos em tecnologia eólica no Brasil passaram por uma formação aqui na Alemanha.

Estamos fomentando o diálogo entre os países que têm floresta amazônica. Esse programa tem sua base no grande envolvimento da Alemanha nas florestas tropicais.

Qual é a diferença de diálogo destas instituições alemãs com o Brasil e a Alemanha?

Um fenômeno novo é a chamada Cooperação Triangular. O Brasil tem uma estrutura de cooperação própria e estamos discutindo como articular esse modelo. Ou seja, a Alemanha cooperaria com o Brasil em um projeto em Moçambique, por exemplo. A dificuldade, além das questões burocráticas, está entre nós mesmos.

Precisamos mudar a mentalidade da cooperação. A idéia é excelente, mas não acontece porque no momento de implementar o programa surgem as perguntas sobre os atores, quem financia... Enfim, são questões burocráticas que precisam ser resolvidas. Já fazemos programas em São Paulo levando profissionais de países africanos de língua portuguesa, nomeadamente Moçambique, Angola e Guiné-Bissau, na área de lixo industrial.

Já foi uma cooperação triangular, mas sem o caráter oficial que mencionei. Mas isso vai continuar. O Brasil está entrando fortemente na África e a Alemanha tem uma metodologia de cooperação desenvolvida sobre planejamento, avaliação e impactos de projetos, no que o Brasil ainda não tem tradição. Esta seria mais uma área em que os países poderiam cooperar.

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