Como o ceticismo da vacina afeta os países árabes | Notícias internacionais e análises | DW | 21.04.2021

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Oriente Médio

Como o ceticismo da vacina afeta os países árabes

Desinformação, teorias conspiratórias e falta de confiança nos governos locais alimentam hesitação sobre vacinas entre milhões de habitantes do Oriente Médio e do norte da África.

Mulher ajusta sua máscara de proteção (durante a pandemia de coronavírus) enquanto caminha por uma rua na capital do Líbano, Beirute, em 2 de novembro de 2020.

No Líbano, apenas 17% da população já se inscreveu para vacinação

No início desta semana, Mahmoud, de 34 anos, tinha um horário marcado para ser vacinado contra a covid-19 em Bagdá. O funcionário público iraquiano não encontrou dificuldades na hora de se inscrever para receber o imunizante da AstraZeneca. Mas ele não compareceu ao hospital.

"Os europeus disseram que não é seguro", justificou Mahmoud, que não quis dar seu nome completo por trabalhar em um ministério do governo iraquiano que proíbe seus funcionários de dar declarações à mídia.

Mahmoud também tem outras razões, estas um pouco mais infundadas. "A vacina chegou aqui tão rápido", disse ele à DW. "Mas isso é tão estranho. No Iraque, geralmente não se consegue acesso a coisas assim sem alguma corrupção ou sem pagar alguém. Mas [a vacina] é de graça e está disponível para todos. Isso é um pouco suspeito", disse.

Hesitação diante da vacina: uma ameaça global à saúde

Apesar de ter uma boa educação e de inclusive conhecer três pessoas que morreram de covid-19, Mahmoud está entre os "hesitantes à vacina" – o que não é o mesmo que ser antivacina. Para os especialistas em imunização, trata-se antes de uma "demora na aceitação da vacina ou uma recusa à vacinação, apesar da disponibilidade."

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde listou a hesitação à vacina como uma das 10 principais ameaças à saúde global. Mais recentemente, cientistas de dados disseram ainda que a ideia de "imunidade coletiva" contra o coronavírus está ameaçada por essa mesma hesitação, já que ela atrasa a rápida implementação das campanhas de imunização.

Uma enfermeira administra uma dose da vacina da Pfizer-Biontech contra o coronavírus em um centro de vacinação no Hospital Kindi, na capital do Iraque, Bagdá, em 14 de abril de 2021.

Em algumas partes de Bagdá, tem sido fácil conseguir um horário para vacinação

Uma série de pesquisas parece sugerir que Mahmoud está longe de estar sozinho. "O Oriente Médio ficou entre as regiões com as menores taxas de aceitação da vacina em todo o mundo", relatou um estudo de janeiro publicado na revista médica Vaccines, que analisou a disposição das pessoas em serem vacinadas no mundo todo. Particularmente alarmante foram as taxas de aceitação da vacina no Kuwait (23%) e na Jordânia (28%).

Muitos preferem esperar

Em outras nações do Oriente Médio, existem histórias semelhantes. No Iraque, um estudo realizado em janeiro por pesquisadores locais descobriu que, de 1.069 pessoas analisadas, quase todas tomariam a vacina em algum momento. No entanto, a mesma pesquisa também descobriu que – assim como Mahmoud – quase dois terços (64%) preferiam esperar antes de receber a injeção.

Uma pesquisa feita com mais de 27 mil estudantes de medicina egípcios, também em janeiro, apresentou resultados parecidos: quase todos os estudantes pretendiam ser vacinados, mas 46% queriam esperar. Já no final de março, um estudo americano observou que 52% de todos os egípcios estavam hesitantes ou não queriam ser vacinados.

Pôster antivacinação

Ser 'hesitante com a vacina' não é o mesmo que ser totalmente contra as vacinas

Outra pesquisa feita com por telefone 1.219 tunisianos em fevereiro descobriu que apenas cerca de um terço queria se vacinar. No Líbano, por sua vez, as autoridades locais culparam a hesitação pela lentidão das inscrições no portal oficial do governo para vacinações. Até 15 de abril, apenas cerca de 17% da população libanesa havia se registrado.

Em partes do Iêmen controladas por houthis, pesquisas informais de opinião pública feitas por jornalistas da mídia independente Daraj descobriram que a maioria das pessoas tampouco estava entusiasmada com as vacinas contra covid-19. Um levantamento realizado em fevereiro com 121 residentes na cidade de Aden constatou que mais de 84% não pretendiam ser vacinados.

Uma questão de confiança

A partir de tantas pesquisas, fica claro que a hesitação à vacina no Oriente Médio é parcialmente baseada nas típicas preocupações de segurança: o medo dos potenciais efeitos colaterais e a velocidade com que a vacina contra o coronavírus foi desenvolvida.

Uma enfermeira libanesa verifica as condições de um paciente com covid-19 na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Saint Georges, em 30 de março de 2021, em Beirute, no Líbano.

Em meio à hesitação à vacina, aumentam os casos de covid-19 no Líbano

Mas o que torna países como Iraque, Tunísia e Líbano realmente diferente dos outros é o baixo nível de confiança que eles têm no governo local e nos sistemas públicos de saúde. Um trabalho ainda em andamento do Arab Barometer, que estuda a opinião pública no Oriente Médio, descobriu há tempos que muitos cidadãos não colocam muita fé no desempenho de seus próprios governos, vistos como corruptos, ineptos ou ambos.

Algumas nações árabes têm sido mais bem-sucedidas na gestão da pandemia e na implementação de vacinas. Isso pode ser explicado por lockdowns mais rápidos e mais rígidos – como no Marrocos, no início da crise sanitária – ou pela cooperação com fabricantes de vacinas, como o trabalho em curso com a estatal chinesa Sinopharm nos Emirados Árabes Unidos.

Isso também pode estar relacionado às maiores taxas de intenção de vacinação nessas regiões. Em março, por exemplo, 82% dos residentes nos Emirados Árabes Unidos queriam ser vacinados, de acordo com o rastreador online da empresa de estatísticas YouGov. Uma pesquisa feita por telefone com 1.238 marroquinos em fevereiro descobriu que 88% estavam satisfeitos com a forma como o governo lidou com a crise, enquanto 91% estavam dispostos a ser vacinados.

Da esquerda para a direita: frascos de vacinas contra covid-19 da Sinopharm Group, Sputnik V, Pfizer/Biontech e AstraZeneca.

Em alguns países árabes, algumas vacinas são vistas como mais confiáveis do que outras

Teorias da conspiração fomentam a desconfiança

Também pode haver outro motivo para o aumento da hesitação à vacina nesta região: altos níveis de desinformação.

Em alguns países, como os Emirados Árabes Unidos ou a Arábia Saudita, a mídia é mais rigidamente controlada – assim como as notícias oficiais sobre a vacinação, explica Mahmoud Ghazayel, especialista libanês em verificação de código aberto. Em março, pesquisas sugeriram que 62% dos residentes da Arábia Saudita estavam dispostos a ser vacinados.

Mas em outros países como o Iraque, onde a maioria dos meios de comunicação são financiados ou alinhados com grupos religiosos ou políticos opostos, os locais não confiam no noticiário convencional, preferindo obter suas informações em outros lugares.

"As pessoas estão se voltando não apenas para a mídia 'alternativa' e sites de notícias, mas também para grupos em [aplicativos de mensagens] como WhatsApp ou Telegram, ou para o Instagram, onde todos são livres para publicar o que quiserem, sem restrições ou verificação", disse Ghazayel à DW.

É lá que os falantes do idioma árabe encontram mentiras sobre como as vacinas contra covid-19 podem conter vestígios de álcool ou carne de porco – algo que os muçulmanos não devem ingerir – ou sobre como as vacinas são um complô para alterar a genética dos bebês muçulmanos. Antídotos insólitos também são divulgados nas redes sociais. Em março, 46% dos tunisianos disseram aos pesquisadores da Parceria para Resposta Baseada em Evidências para Covid-19 que achavam que a doença poderia ser curada com remédios à base de ervas.

Barenitas exibem seus certificados de vacina contra covid-19 no Centro Internacional de Convenções e Exposições do Bahrein na capital Manama, em 24 de dezembro de 2020.

Em fevereiro, o Bahrein se tornou um dos primeiros países do mundo a instituir um certificado de vacinação

Mudanças de atitude

"A confiança na mídia social como a principal fonte de informação sobre as vacinas contra o coronavírus foi associada à hesitação à vacina", confirmaram pesquisadores jordanianos que em janeiro publicaram um estudo analisando as teorias de conspiração na Jordânia e no Kuwait em torno da vacinação.

A boa notícia é que essa hesitação é volátil. A empresa de pesquisas de mercado YouGov tem monitorado as atitudes em relação às vacinas desde novembro de 2020 e observou uma aceitação crescente em muitos países. E à medida que as vacinações ganham força em alguns países árabes, as autoridades locais também estão se tornando mais conscientes da necessidade de lidar com a hesitação vacinal.

Ainda não há uma vacinação obrigatória no Oriente Médio, mas cada vez mais os governos da região estão atrelando certos privilégios e posições à imunização.

Na segunda-feira passada, o primeiro-ministro iraquiano, Mustafa al-Kadhimi, emitiu um novo conjunto de regras sanitárias para o país. Entre elas, está um certificado obrigatório de vacinação ou imunidade para todos os profissionais de saúde, lojistas e aqueles que trabalham no setor de hotelaria e turismo.

Os governos da Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos tomaram medidas semelhantes, tornando a vacinação obrigatória para certas funções.

"Na minha opinião, a melhor maneira de lidar com o alto nível de hesitação à vacina é transmitir mensagens claras, verídicas e transparentes [...] em todos os níveis, mas especialmente vindo de figuras importantes, líderes religiosos e mulheres", disse à DW Hazem Rihawi, especialista sírio em saúde pública trabalhando com a American Relief Coalition for Syria nos EUA. "A importância da vacinação sempre foi consagrada em nossas sociedades e precisamos lembrar as pessoas disso."

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