Começa julgamento de acusados pelo ataque ao ″Charlie Hebdo″ | Notícias internacionais e análises | DW | 02.09.2020

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França

Começa julgamento de acusados pelo ataque ao "Charlie Hebdo"

Depois de mais de cinco anos, 13 acusados sobem ao banco dos réus em Paris. Atentado ao semanário satírico em 2015 marcou início de uma série de ataques terroristas na França que acabaram transformando o país.

Manifestantes carregam cartazes com os dizeres Je suis Charlie em homenagem às vítimas de ataques na França

O ataque transformou uma nação inteira em defensores da liberdade de expressão

Poucos dias após o ataque sangrento à redação do semanário satírico parisiense Charlie Hebdo em janeiro de 2015, o próprio profeta lamentava as vítimas: segurando um cartaz, onde se lia "Je suis Charlie", e com lágrimas nos olhos, Maomé ilustrava a capa da "Edição dos Sobreviventes". A imagem ficou gravada na memória coletiva dos franceses. "Tout est pardonné" – tudo está perdoado – escreveram os editores em letras garrafais sobre a nova caricatura.

Parecia ser um ponto final, mas é claro que não poderia ser. Não para os sobreviventes, que ainda lutam para entender o que se passou, e muito menos para o judiciário francês. Mais de cinco anos após o ataque, começa nesta quarta-feira (02/09), num tribunal especial de Paris, o julgamento dos 13 acusados pelo atentado.

Capa da primeira edição após o ataque contra o semanário Charlie Hebdo mostra o profeta Maomé segurando um cartaz onde se lê: Je suis Charlie

A primeira edição após o ataque

Houve, porém, um ponto final simbólico. A Charlie Hebdo mudou de sede. A revista agora reside em um local desconhecido do público. E, em entrevistas, o atual editor Laurent Sourisseau, conhecido como Riss, é acompanhado por três seguranças que não saem do lado dele.

Quando os irmãos Chérif e Saïd Kouachi invadiram a redação em Paris em 7 de janeiro de 2015 munidos com Kalashnikovs, eles atiraram em onze pessoas – incluindo Riss, que foi atingido no ombro.

Hoje com 53 anos, Riss é um dos sobreviventes. Mas caricaturas de Maomé, conforme anunciou já no ano do ataque, ele não pretende fazer mais. A ideia por trás da caricatura, afinal, era defender o princípio de que todos podem desenhar o que quiserem. Agora é a vez dos outros. 

Nos anos que se seguiram ao ataque, no entanto, a revista satírica não encontrou muitos defensores desse princípio. "Não quero que uma esquete sobre Maomé me impeça de ver meus filhos crescerem", disse o conhecido autor e humorista Stéphane Guillon, no terceiro aniversário de sua reticência em abordar o tema.

O ataque parecia ter transformado uma nação inteira em defensores da liberdade de expressão e artística. Mais de 1,5 milhão de pessoas foram às ruas em 11 de janeiro para expressar solidariedade à Charlie Hebdo e protestar pelo direito à liberdade de expressão – além de mais de 40 chefes de Estado e de governo de todo o mundo que participaram da manifestação "Je suis Charlie", em Paris.

No entanto, o carinho dos franceses pela polêmica revista satírica despertado após o ataque durou pouco. Apesar de o número de assinantes ter disparado nas primeiras semanas, passando de cerca de 40 mil para 260 mil, a circulação da Charlie Hebdo caiu com o passar dos anos, chegando a menos de 35 mil exemplares.

A manifestação do dia 11 de janeiro de 2015 não foi movida apenas pelo desejo de reforçar a importância da liberdade de expressão, mas também pela esperança de uma nova união na sociedade. Marches républicaines – ou marchas republicanas – foi como os franceses batizaram suas marchas de protesto. Por trás delas, havia a esperança de uma França coesa, na qual a população estivesse unida.

Mas a imagem de uma nova unidade se desfez rapidamente. Uma certa reserva contra Charlie Hebdo era particularmente forte nos subúrbios, onde surgiram relatos de "incidentes" em eventos para homenagear as vítimas. Mais de 200 alunos teriam se recusaram a prestar tributo e muitos deles teriam dado mostras de compreensão pelo assassinato dos cartunistas.

O atual debate sobre uma "lei contra o separatismo", anunciada em julho pelo novo primeiro-ministro francês, Jean Castex, mostra que os políticos ainda não encontraram uma receita para a divisão crescente da sociedade. Espera-se que o presidente Emmanuel Macron apresente os principais pontos da nova legislação num discurso nesta semana, durante as celebrações do 150º aniversário do fim da monarquia.

Estado de exceção

A mudança mais visível no país desde os ataques, no entanto, é o aumento da presença de forças de segurança. Já durante as buscas pelos irmãos Kouachi, que mais tarde foram mortos por uma unidade especial, a França havia mobilizado todas as forças disponíveis.

Após uma série coordenada de ataques à sala de concertos parisiense Bataclan, bem como a restaurantes e bares da capital, em novembro de 2015, o então presidente François Hollande declarou estado de exceção. Isso permitiu que os investigadores revistassem mais de 4,5 mil casas sem necessidade de uma ordem judicial, e teria ainda ajudado a impedir mais de 30 ataques no país.

O estado de exceção permaneceu em vigor por quase dois anos antes de ser suspenso por Macron em novembro de 2017. Mas uma nova lei antiterror, que entrou em vigor na mesma época, deu às forças de segurança poderes quase tão amplos quanto os do estado de emergência.

Ela facilita, entre outras coisas, a escuta e o monitoramento de suspeitos e permite que pessoas, bagagens e veículos sejam controlados a qualquer momento em um raio de 20 quilômetros de fronteiras, aeroportos, portos marítimos e estações de trem.

Poucos dias após o ataque à equipe editorial da Charlie Hebdo, o governo encarregou as forças armadas francesas de garantir a segurança de locais centrais no país. Com a chamada Opération Sentinelle, o Exército disponibilizou vários milhares de soldados, que até hoje vigiam edifícios públicos, escolas, teatros e editoras, além de patrulharem estações ferroviárias, aeroportos e zonas de pedestres.

Para fornecer proteção contra novos ataques, também foram instaladas barreiras de concreto em alguns pontos sensíveis. A popular Torre Eiffel, por exemplo, com quase 7 milhões de visitantes por ano, está cercada desde o ano passado com uma parede de vidro à prova de balas.

Os franceses, notórios amantes da liberdade, têm lidado de maneira surpreendentemente tranquila em relação às restrições na vida cotidiana. A ameaça constante do terrorismo agora faz parte do dia a dia a que todos estão acostumados. Assim como o debate entre especialistas que discutem sobre uma possível motivação religiosa por trás da série de ataques.

Poderiam os ataques ser explicados através de uma interpretação radical salafista do Islã, ou será que se tratava apenas de jovens à margem da sociedade que queriam expressar sua ruptura radical com a França acima de tudo? Algumas dessas respostas poderão ser fornecidas no julgamento dos 13 acusados pelo ataque na Charlie Hebdo.

Adaptação: Isadora Pamplona

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