Colômbia tem protestos violentos contra aumento de impostos | Notícias sobre a América Latina e as relações bilaterais | DW | 02.05.2021

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América Latina

Colômbia tem protestos violentos contra aumento de impostos

Pelo quarto dia seguido, colombianos saem às ruas de várias cidades em atos contrários à proposta de reforma tributária do governo, que já deixaram ao menos seis mortos.

Colombianos nas ruas de Bogotá no quarto dia de manifestações contra a reforma fiscal, que coincidiu com o Dia do Trabalhador

Colombianos em Bogotá no quarto dia de manifestações contra a reforma fiscal, que coincidiu com o Dia do Trabalhador

Milhares de colombianos voltaram às ruas neste sábado (01/05) em protesto contra uma proposta de reforma tributária apresentada pelo governo. Coincidindo com a celebração do Dia do Trabalhador, este foi o quarto dia de manifestações no país, que resultaram em pelo menos seis mortes.

Sindicatos de trabalhadores de diferentes setores deram início às marchas na última quarta-feira, 28 de abril, para exigir que o governo do presidente Iván Duque, de centro-direita, voltasse atrás na proposta de reforma fiscal.

Além de pedir que não haja aumento de impostos, os grupos por trás dos protestos demandam que o governo implemente mais medidas de proteção social aos trabalhadores atingidos pela crise causada pela pandemia de coronavírus.

Neste sábado, quarto dia consecutivo de protestos, episódios de violência voltaram a ocorrer em várias cidades colombianas, incluindo Bogotá e Cali.

Na capital do país, os distúrbios começaram na Praça de Bolívar, no fim da tarde, e se propagaram por outros pontos da cidade, chegando até a zona norte. Ali, uma multidão se reuniu em frente ao condomínio da residência privada de Duque, sendo mais tarde dispersada por policiais. Além de gases, a polícia utilizou tanques para abrir a passagem até a residência do presidente.

Também na zona norte de Bogotá, uma unidade da rede de supermercados Éxito foi saqueada, e pessoas encapuzadas quebraram vidros de bancos e lojas.

"Após um dia calmo, grupos violentos vandalizaram lojas no norte e no centro da cidade, o que forçou a intervenção da polícia", disse a prefeita de Bogotá, Claudia López.

A governante lamentou que os fatos ofusquem um "dia de juventude e reivindicações justas", referindo-se ao Dia do Trabalhador, comemorado em 1º de maio. Para López, "a violência e o vandalismo nada solucionam, apenas pioram tudo".

Mortos e feridos

As autoridades não reportaram feridos neste sábado, mas o chefe da Defensoria Nacional do Povo, Carlos Camargo, disse que três pessoas morreram em Cali nos últimos dias em situações relacionadas aos protestos, e que outros três óbitos estão sendo verificados.

Segundo Camargo, uma das mortes ocorreu em Bogotá e outra, na cidade de Neiva, capital do departamento de Huila. Já em Soacha, cidade perto de Bogotá, um capitão da polícia morreu após sofrer golpes de faca na quarta-feira.

Outros 179 civis e 216 policiais ficaram feridos em todo o país durante os protestos, segundo autoridades locais.

Confrontos entre policiais e manifestantes em protesto em Bogotá em 28 de abril

Confrontos são registrados desde o primeiro dia de protestos, em 28 de abril

Confrontos em Cali

As manifestações mais volumosas ocorreram novamente em Cali, capital do departamento de Valle del Cauca e terceira maior cidade do país. Ali, dezenas de milhares de pessoas se reuniram neste sábado nos bairros de Loma de la Cruz e Puerto Rellena – este, como resultado dos protestos, passou a ser conhecido como Porto Resistência.

Quatro "chivas" (ônibus de passageiros das zonas montanhosas da Colômbia) chegaram a Cali levando dezenas de indígenas do departamento vizinho de Cauca para reforçar os protestos, nos quais predominaram as cores da bandeira nacional.

A organização de direitos humanos Human Rights Watch afirmou ter recebido relatos de possível abuso policial em Cali, e grupos de direitos humanos locais denunciam que ao menos 14 mortes ocorreram em meio às manifestações.

As cidades com alto risco de violência continuam a receber reforço militar, afirmou o presidente colombiano em um vídeo na noite deste sábado.

"Não iremos permitir a destruição de bens públicos e privados ou mensagens de ódio em nosso país", disse Duque ao anunciar que fez uso de uma cláusula da Constituição que permite que militares ajudem a polícia a manter a ordem pública.

Atos de degradação de bens públicos e privados, confrontos entre policiais e manifestantes e bloqueios em estradas ocorreram em várias cidades do país neste sábado, e policiais de choque foram implantados na capital.

Protestos apesar de Duque ter cedido à pressão

Em meio à pressão, Duque anunciou na noite de sexta-feira que buscaria reformular a proposta de reforma fiscal e que descartaria seus pontos mais impopulares – reduzir o limite do imposto de renda para ampliar a base tributária e aumentar os impostos sobre o valor agregado de mercadorias e serviços.

Mas o recuo do presidente não foi suficiente para impedir que os colombianos voltassem às ruas para expressar seu descontentamento com o governo.

"Não basta desistir da reforma", afirmou a manifestante Maria Teresa Flores, de 27 anos, à agência de notícias AFP em Bogotá. Segundo ela, a forma como o governo lidou com a pandemia "explodiu na nossa cara".

Julián Naranjo, por sua vez, disse ser "incrível que, nesta crise que vivemos, na violência que este país atravessa", o governo proponha uma reforma tributária "que acaba por empobrecer as pessoas".

O governo Duque insiste que a proposta de reforma atual visa compensar os déficits orçamentários causados pela pandemia de covid-19 e sua devastação econômica, sendo crucial para estabilizar as finanças da Colômbia.

O plano original de reforma previa arrecadar cerca de 6,3 bilhões de dólares em receitas extras em dez anos para a Colômbia, que viu seu PIB cair 6,8% em 2020 – o pior desempenho em meio século.

A Colômbia, onde quase uma em cada cinco pessoas está desempregada e o salário mínimo equivale a 248 dólares por mês, está lutando contra uma nova onda mortal de covid-19.

Com 2,8 milhões de casos de coronavírus registrados desde o início da pandemia, o país de 50 milhões de habitantes tem o terceiro maior número de infecções na América Latina, atrás apenas do Brasil e da Argentina. Ao todo, mais de 73 mil pessoas morreram pela covid-19 no país.

ek (Reuters, DPA, AFP, Efe)