Cidade de Hama simboliza a oposição ao regime Assad | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 02.08.2011
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Mundo

Cidade de Hama simboliza a oposição ao regime Assad

Desde 1964 a cidade ao norte de Damasco é palco de confrontos sangrentos entre a oposição e o partido Baath, de Bashar al-Assad. Ápice foi o massacre de 1982, quando milhares de pessoas foram mortas.

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Há décadas Hama tem sido palco de conflitos sangrentos

Há décadas que a cidade síria de Hama é um reduto da oposição ao partido Baath, que sustenta o regime atualmente comandado pelo presidente Bashar al-Assad. Diferentemente da capital Damasco, onde o poder é dominado pelos alauitas, Hama é marcada principalmente pela presença sunita e pelo islamismo conservador.

Depois da independência da Síria, em 1946, a cidade foi várias vezes palco de confrontos sangrentos entre governo e oposição. Especialmente o braço sírio da Irmandade Muçulmana, fortemente presente na cidade até 1982, se colocou frequentemente contra o governo central, antes ocupado por Hafez al-Assad, pai de Bashar.

Primeiros confrontos

Hafez al-Assad - alter Präsident von Syrien

Hafez al-Assad ficou quase 30 anos no poder

Os primeiros embates entre governo e oposição ocorreram no início de 1964. As forças islâmicas conservadoras rebelaram-se contra o partido socialista Baath, que no ano anterior havia tomado o poder por meio de um golpe. A Irmandade Muçulmana rapidamente se converteu no maior e mais articulado grupo da oposição.

Proibida pelo Baath, ela logo optou pela radicalização: greves gerais e grandes protestos tomaram as ruas de todo o país, em desafio ao regime recém-instalado. A reação do Baath foi dura. Em abril de 1964 o governo entrou com tanques e tropas em Hama, centro da rebelião. A resistência foi sufocada de forma sangrenta, com cerca de cem mortes. Grande parte da área antiga da cidade ficou totalmente destruída.

Terror e repressão

Hafez al-Assad assumiu a presidência da Síria em 1971, por meio de um golpe militar, e a situação no país se acalmou num primeiro momento. Mas após alguns anos os conflitos voltaram a estourar. A partir de meados da década de 1970, uma série de ataques vitimou integrantes do governo sírio e das Forças Armadas. O governo culpou a Irmandade Muçulmana pelas ações e reagiu duramente.

Flash-Galerie Syrien Angriff auf Protesthochburg Hama

Há dias militares estão nas ruas de Hama

O que se seguiu foi um aumento do conflito entre o partido Baath, liderado por Assad, e a Irmandade Muçulmana, marcado por distúrbios, saques, tiroteios e assassinatos políticos. Milhares de pessoas perderam a vida nessa crescente espiral de violência. A situação chegou a tal ponto que, em 1980, Assad determinou que bastava ser membro da Irmandade Muçulmana para ser condenado à morte. Poucos dias depois disso, ele sobreviveu por pouco a um atentado em Damasco.

O grande massacre

No epicentro da revolta estava sempre Hama. A cidade se transformou no centro da resistência ao regime de Assad e esse revidou de forma sangrenta. Após um ataque terrorista fracassado contra um assentamento alauita perto de Hama, as Forças Armadas sírias voltaram a ocupar Hama em abril de 1981 para uma ação que se pretendia "exemplar": cerca de 400 homens com mais de 14 anos, arbitrariamente escolhidos entre a população local, foram sumariamente executados.

Baschar al-Assad hofft auf direkte Verhandlungen mit Israel

Assim como seu pai, Bashar reprime protestos com violência

As execuções não intimidaram a resistência. No segundo semestre de 1981, a Irmandade Muçulmana contra-atacou incendiando vários carros-bomba em Damasco, matando centenas de sírios.

Em 2 de fevereiro de 1982, integrantes da Irmandade Muçulmana em Hama incitaram a população contra o governo e assumiram o controle de grande parte da cidade.

A reação do governo foi brutal: sob o comando do ministro da Defesa, Mustafá Tlas, as Forças Armadas bombardearam Hama. Depois as tropas do governo entraram na cidade, onde mataram centenas de civis e presos políticos – calcula-se o número de pessoas mortas entre 20 mil e 30 mil.

Assad então mandou derrubar grande parte de Hama com escavadeiras de terraplenagem, para em seguida reconstruí-la e assim mudar completamente a aparência da cidade.

Até hoje, um tabu

O massacre de Hama marcou o fim das rebeliões sunitas contra o partido Baath. Os integrantes da Irmandade Muçulmana que sobreviveram tiveram que se esconder ou mesmo deixar o país. Até hoje não se fala oficialmente sobre o assunto, e o que exatamente aconteceu permanece incerto, já que o governo sírio empreendeu grandes esforços para evitar que informações sobre o massacre fossem passadas para o exterior.

Assim, as recentes ações militares do Exército sírio têm um caráter altamente simbólico, pois o massacre de 1982 deixou marcas profundas na oposição. Com a nova onda de protestos contra o regime Assad, a cidade voltou a se apresentar como um reduto da resistência, e Bashar al-Assad parece querer alcançar, com a sangrenta repressão aos atuais protestos, o mesmo golpe final que seu pai deu na oposição há 30 anos.

Autor: Thomas Latschan (ms)
Revisão: Alexandre Schossler

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