Candidato a chanceler pede desculpas após ser acusado de plágio | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 30.07.2021

Conheça a nova DW

Dê uma olhada exclusiva na versão beta da nova DW. Sua opinião nos ajudará a torná-la ainda melhor.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Eleições na Alemanha

Candidato a chanceler pede desculpas após ser acusado de plágio

Líder nas pesquisas para suceder Merkel, conservador Armin Laschet admitiu "erros" em livro publicado em 2009. É o segundo caso envolvendo acusações de plágio na campanha eleitoral alemã.

Armin Laschet segura seu livro publicado em 2009

Laschet e seu livro publicado em 2009

O governador do estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, Armin Laschet, pediu desculpas nesta sexta-feira (30/07) após ter sido acusado de plagiar o trabalho de outro autor. Laschet é o candidato da União Democrata Cristã (CDU) a chanceler federal nas eleições de setembro na Alemanha, e nas últimas semanas já vinha enfrentando críticas pela maneira que lidou com as enchentes que devastaram seu estado.

Ao pedir desculpas, Laschet disse que seu livro Die Aufstiegsrepublik (A República em ascensão, em tradução livre), publicado em 2009, quando ele era secretário de integração da Renânia do Norte-Vestfália, "claramente contém erros pelos quais sou responsável".

"Gostaria de me desculpar expressamente, porque o cuidado na composição dos textos e a observância dos direitos autorais são para mim, entre outras coisas, uma questão de respeito aos demais autores", disse o candidato do partido da chanceler federal Angela Merkel. Ele ainda prometeu providenciar "uma auditoria imediata do livro".

Alvo de caçador de plágios

A questão veio à tona na noite de quinta-feira, quando o "caçador de plágios" Martin Heidingsfelder publicou mensagens no Twitter comparando duas passagens do livro de Laschet com uma obra de Karsten Weitzenegger, um consultor de desenvolvimento sustentável.

Heidingsfelder diz que enviou um questionário detalhado a Laschet na tarde de quinta-feira, e na sexta-feira havia recebido respostas para muitas de suas perguntas. Ele afirmou que não vê a necessidade de vasculhar mais o livro de Laschet depois que o político prometeu fazer uma auditoria completa.

Por sua vez, Karsten Weitzenegger publicou uma série de tuítes abordando o assunto e depois criticando o candidato. Ele afirmou que "Laschet costumava dar atenção à ciência, mas agora só se envolve em políticas populistas sobre imigração". Weitzenegger diz que ficaria feliz se Laschet realmente agisse de acordo com as ideias sobre imigração que foram plagiadas.

No livro, Laschet clama por uma "terceira unidade alemã", afirmando que depois da integração dos expulsos do Leste alemão durante a Segunda Guerra e da reunificação, a integração dos imigrantes é uma necessidade urgente.

O livro rendeu 4.000 euros (R$ 24.600) para Laschet. À época, ele doou o valor para um projeto de integração de imigrantes. No entanto, pediu uma dedução relativa à doação em seu imposto de renda, evitando informar que o valor havia sido originado com uma renda extra. A Receita alemã detectou a irregularidade, e em 2015 Laschet pagou o imposto devido.

Embora o partido de Laschet seja amplamente considerado o favorito para derrotar seus adversários do Partido Verde e do Partido Social-Democrata (SPD) na disputa para substituir Merkel – que não está concorrendo a um quinto mandato –, os índices de aprovação pessoal do governador são mais baixos.

Segundo pedido de desculpas

O pedido de desculpas desta sexta-feira foi o segundo de Laschet em duas semanas.

Na semana passada, o candidato a chanceler foi visto rindo profusamente na companhia de assessores enquanto estava atrás do presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier. Na ocasião, Steinmeier fazia um discurso em tom sério sobre os efeitos devastadores das enchentes no oeste da Alemanha.

A hashtag #Laschetlacht (Laschet ri, na tradução literal) foi um dos principais tópicos debatidos no Twitter naquele dia, e o incidente foi arduamente discutido na mídia alemã. Os partidos de oposição criticaram veementemente o candidato democrata-cristão à Chancelaria Federal.

Até mesmo seu pedido de desculpas pelo episódio foi criticado. Após o vídeo se espalhar pela internet, ele pediu desculpas "pela impressão" que a imagem da conversa com assessores "passou".

Outros casos de plágio

Esse não é o primeiro caso de acusação de plágio na campanha eleitoral alemã. Recentemente, a candidata do Partido Verde, Annalena Baerbock, também foi forçada a admitir problemas em um livro de sua autoria contendo diversas passagens que foram alvo de acusações de plágio. O caso, somado a outras controvérsias, arranhou a imagem da campanha de Baerbock, que havia chegado a despontar em algumas pesquisas como a favorita para a sucessão de Merkel. Baerbock se comprometeu a indicar as fontes em futuras edições do seu livro.

Vários políticos alemães foram alvos de acusações similares nos últimos anos.

O caso mais célebre do tipo envolve Karl-Theodor zu Guttenberg, que no início dos anos 2010 era uma estrela em ascensão na CDU, ocupando o cargo de ministro da Defesa no governo da chanceler federal Merkel.

Em fevereiro de 2011, um professor de Bremen chamado Andreas Fischer-Lescano resolveu escrever um artigo para um pequeno jornal sobre a tese de doutorado que Guttenberg havia apresentado quatro anos antes na Universidade de Bayreuth. A tese abordava o desenvolvimento do Direito Constitucional na Europa e Estados Unidos.

Ao revisar o texto, Fischer-Lescano notou que vários trechos tinham semelhanças com artigos publicados num jornal suíço, sem indicar a fonte. Logo mais indícios de plágio apareceram. Vendo que a história tinha potencial, ele contatou o jornal Süddeutsche Zeitung, de circulação nacional, que acabou publicando uma reportagem em 16 de fevereiro de 2011.

Nos dias seguintes, outras publicações também encontraram outros exemplos de plágio. Guttenberg inicialmente negou tudo e recebeu apoio de Merkel. Mas conforme o escândalo foi crescendo e novas evidências se avolumaram, ele se desculpou e admitiu que tinha cometido "erros sérios", que teriam ocorrido de forma "não intencional". Mas não foi suficiente. Ele ainda seria questionado pela presidência do Parlamento alemão (Bundestag) sobre o uso de relatórios parlamentares em sua tese sem indicação de referência.

Em 23 de fevereiro, uma semana após a eclosão do escândalo, a Universidade de Bayreuth revogou o título de doutor de Guttenberg, a pedido do próprio ministro. No início de março de 2011, foi a vez de ele renunciar ao posto de ministro. Uma comissão da Universidade de Bayreuth posteriormente apontou dezenas de problemas na tese de Guttenberg.

A queda fez com que a ex-estrela do governo Merkel se retirasse da vida pública. Guttenberg hoje vive nos Estados Unidos e comanda uma firma de consultoria e investimentos. Em 2020, ele voltou a ostentar o título de doutor quase dez anos depois, ao concluir um novo doutorado na escola de negócios da Universidade de Southampton, no Reino Unido. Desta vez, sua tese não foi alvo de acusações de plágio.

O escândalo ainda inspirou em 2011 a fundação de um projeto colaborativo chamado VroniPlag Wiki, dedicado a buscar possíveis plágios em teses, monografias e dissertações apresentadas por políticos proeminentes da Alemanha. Martin Heidingsfelder, que detectou os plágios no livro de Laschet nesta semana, é um dos cofundadores do projeto.

Em 2012, um dos membros do projeto identificou mais de 90 problemas na tese de doutorado da então ministra da Educação Annette Schavan. Uma investigação da Universidade de Düsseldorf confirmou as acusações de plágio, e a instituição revogou seu título. Schavan renunciou logo depois.

O caso não deixou de provocar comentários maliciosos, já que no ano anterior ela havia criticado publicamente seu ex-colega Guttenberg, afirmando que "roubo intelectual não é coisa pequena". Ela recorreu à Justiça para recuperar seu título de doutora, mas perdeu nos tribunais.

Em maio de 2021, foi a vez do caso da ex-ministra alemã da Família Franziska Giffey, que apresentou sua renúncia ao cargo devido a acusações de plágio na sua tese de doutorado.

Em junho, Giffey foi destituída do título de doutora, após a Universidade Livre de Berlim (FU) ter concluído, "unanimemente, em seguida a deliberação abrangente", que sua tese foi baseada em "falsidade quanto à autonomia de seu desempenho científico". Em outras palavras: plágio.

jps/ek (DW, DPA, ots)