Brasil vive mais um massacre à americana | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 14.03.2019
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Brasil

Brasil vive mais um massacre à americana

No momento em que país discute flexibilização do porte, detalhes sobre atiradores e as armas que portavam em Suzano indicam mais uma barbárie nos moldes das que acontecem em escolas dos EUA.

As primeiras informações sobre os dois adolescentes que mataram oito pessoas em Suzano, na Grande São Paulo, e sobre os armamentos aos quais eles tiveram acesso sugerem mais um massacre ao estilo americano: jovens vítimas de bullying, com problemas sociais e reclusos num mundo de jogos virtuais, invadem uma escola armados para assassinar alunos e funcionários.

Os autores, identificados como Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, abriram fogo na Escola Estadual Professor Raul Brasil, na quarta-feira (13/03), no centro de Suzano. Ambos eram ex-alunos da escola.

Munidos de um revólver calibre 38, um utensílio de recarga rápida (jet loader), um machado, uma besta, coquetéis molotov, arco e flecha e uma mala com fios, Guilherme e Luiz Henrique entraram pela porta aberta da escola e atiraram na coordenadora pedagógica e em outra funcionária.

Em seguida, os dois seguiram para o pátio e atiraram contra alunos que curtiam o intervalo próximo do refeitório. As duas funcionárias – a coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Umezo e a agente de organização escolar Eliana Regina de Oliveira Xavier – e quatro estudantes, que tinham entre 15 e 17 anos, morreram no local.

Um quinto aluno morreu após ser levado ao hospital. Além disso, momentos antes do massacre na escola, a dupla matou a tiros o dono de uma locadora de veículos Jorge Antônio Morais, tio de Guilherme, com quem teria tido uma discussão na noite anterior. Também há registro de 11 feridos.

Guilherme e Luiz Henrique eram amigos de infância e passavam muitas horas em frente a computadores ocupados com jogos eletrônicos. Durante o ataque, os dois estavam encapuzados e vestiam botas e calças que remontam à vestimenta usada por personagens dos jogos de combate.

Antes do crime, Guilherme publicou cerca de 20 fotos em seu perfil no Facebook nas quais aparece armado, usando uma máscara de caveira – a mesma com a qual foi encontrado morto – e fazendo sinais ofensivos.

Uma fonte policial disse à agência Reuters que as apurações indicam que os dois jovens planejavam o ataque há um ano e meio e tinham a intenção de chamar mais atenção do que o massacre na escola de Columbine, nos EUA, no qual 13 pessoas foram mortas em 1999.

Videogame, espinhas e suástica

Segundo relato da mãe de Guilherme à Folha de S. Paulo, a família não desconfiava de um comportamento violento, mas citou que seu filho ficava "paranoico e gritava para a tela: 'vou te matar, vou te matar'!" 

As primeiras investigações nos pertences dos jovens descobriram cadernos com táticas de jogos de combate. Encontraram também uma fotografia queimada no quarto do jovem – a mãe reconheceu como sendo sua com o pai de Guilherme, com quem teve um breve relacionamento.

Guilherme foi criado pelos avós – a mãe de Guilherme luta contra uma dependência química de longa data, que a leva a passar boa parte do tempo nas ruas. Segundo ela, a relação com o filho não era ruim, mas de pouca conversa.

A mãe contou que Guilherme abandonou a escola no ano passado porque dizia não aguentar mais ser alvo de brincadeiras de colegas por causa das espinhas no rosto.      

Guilherme e Luiz Henrique moravam na mesma rua. Segundo um vizinho, ambos eram "meninos normais e que não usavam drogas". O vício da dupla eram as visitas regulares a uma LAN house no bairro.

Uma ex-funcionária do estabelecimento relatou que os dois eram fechados, seletivos e que xingavam muito e em voz alta durante os jogos de combate. Ela afirmou ter visto um pingente com a suástica nazista no pescoço de um deles.

A polícia afirmou que Guilherme e Luiz Henrique tinham um "pacto", segundo o qual cometeriam o crime e depois se matariam. A investigação aponta que, com a chegada das forças de segurança, Guilherme matou Luiz Henrique e, em seguida, cometeu suicídio.

Debate sobre armas 

O ataque em Suzano ocorreu num momento em que o governo Jair Bolsonaro tenta impulsionar uma maior flexibilização da posse e do porte de armas de fogo no Brasil.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, classificou a ideia de flexibilizar o porte de armas em áreas urbanas como uma "barbárie" e ironizou quem falasse em professores armados em escolas, como foi sugerido, por exemplo, pelo senador Major Olímpio, do Partido Social Liberal (PSL), o mesmo de Bolsonaro.

"O porte não deve ser tão liberado assim. O que eu espero é que alguns não comecem a dizer que se os professores estivessem armados ia resolver o problema, pelo amor de Deus", disse Maia, em reposta a um discurso frequente dos defensores do porte.

Em fevereiro de 2018, após o ataque a uma escola na Flórida, o presidente dos EUA, Donald Trump, defendeu professores armados em instituições de ensino.

"Enquanto as armas forem ilegais, apenas os ilegais terão armas! Fracasso e safadeza da farsa da política desarmamentista que armou criminosos e impediu a legítima defesa. Mais uma triste tragédia que mostra a necessidade da redução da maioridade penal. Bandido não tem idade", escreveu Major Olimpío em seu perfil no Twitter.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro também se manifestou sobre o caso e afirmou que as armas de fogo não servem apenas para matar e as comparou a um automóvel.

"A gente sempre cai na argumentação de que a arma é um pedaço de metal, faz tão mal quanto um carro. Ou seja, para fazer mal, precisa de uma pessoa por trás dela. Armas não matam, quem mata são pessoas. Pode usar arma, pistola, faca, pedras", disse o filho do presidente. O deputado afirmou que armas de fogo também servem para se defender e disse ter havido um aumento no número de homicídios após a implementação do Estatuto do Desarmamento.

Já o coronel da reserva da PM de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva Filho disse que armar os funcionários pode gerar outras tragédias. "Quanto mais armas existirem, mais tragédias como essas vão acontecer", comentou. 

O massacre em Suzano segue uma série de ataques a tiros cometidos por alunos e ex-alunos em instituições de ensino brasileiras.

Embora menos frequentes do que em países como os Estados Unidos, palco de massacres sangrentos como o de Columbine, em 1999, casos similares ocorreram em diferentes regiões do país nas últimas décadas, a maioria envolvendo atiradores adolescentes vítimas de bullying.

PV/ots/dw

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