Brasil ruma para ″tempestade perfeita″ em meio a pandemia | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 01.04.2020
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coronavírus

Brasil ruma para "tempestade perfeita" em meio a pandemia

Sobrecarregado, SUS deve ter que enfrentar não apenas o coronavírus, mas também outros dois inimigos imediatos: as epidemias da dengue e da gripe, alerta secretário. Enquanto isso, Bolsonaro segue minimizando a covid-19.

Grafite no Rio de Janeiro ironiza postura de Bolsonaro diante da covid-19

Grafite no Rio de Janeiro ironiza postura de Bolsonaro diante da covid-19

Abril teria sido um mês ocupado para os hospitais brasileiros, de qualquer modo: enquanto a população ainda enfrentas o vírus da dengue, a estação da gripe vai começar a se manifestar. Em 2020, porém, o sistema de saúde nacional promete encarar uma "tempestade perfeita", de acordo com o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira.

"Vamos ter o coronavírus, que é novo, vamos ter a influenza [nome científico da gripe], que é rotina todo ano, e também vamos ter o pico da dengue", declarou à imprensa no fim de março. O Ministério da Saúde identificou mais de 5.700 infecções com o novo coronavírus e pelo menos 201 mortes até a tarde desta terça-feira (31/03), o número mais alto da América Latina.

A pandemia coincide com 440 mil novos casos de suspeita de dengue, quase o dobro do que viu o Brasil no mesmo período em 2019. Embora a moléstia causada por um vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti não seja tão fatal quanto a covid-19, ela é muito difundida em áreas tropicais e requer cuidados médicos consideráveis.

Segundo Gulnar Azevedo e Silva, epidemiologista e pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), "o maior desafio é conseguir atender o número de casos [de coronavírus], que vai aumentar muito além dos problemas antigos que a gente já esperava. Já havia antes uma sobrecarga muito grande por causa de um desfinanciamento progressivo que tem ocorrido no nosso sistema único de saúde".

Com o coronavírus se alastrando pelo país, os recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) estão se tornando cada vez mais escassos. Mesmo nos estágios iniciais, alguns profissionais de saúde já se queixavam de não ter acesso a sabão, toalhas de papel ou máscaras. Os hospitais estatais talvez tenham que tomar emprestadas camas de unidades de tratamento intensivo do setor privado para cobrir a demanda, à medida que o vírus avança, aponta Azevedo e Silva.

O Ministério da Saúde calcula que o SUS precisará de 10 bilhões de reais adicionais para enfrentar a pandemia. "É importantíssimo garantir o isolamento social agora", apela a epidemiologista, "porque teremos uma diminuição de casos necessitando atendimento hospitalar e teremos mais condições de cuidar deles."

Bolsonaro nega

O problema é que o próprio presidente Jair Bolsonaro tem pregado continuamente contra as medidas de isolamento social, contradizendo não só a Organização Mundial da Saúde (OMS), mas também seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e governadores.

Os comentários do presidente têm encorajado cidadãos a reabrirem seus negócios a fim de manter viva a debilitada economia nacional. "A fome mata mais do que o vírus", declarou a repórteres nesta terça-feira (30/03). Mesmo depois de a pandemia atingir o Brasil, ele se misturou a multidões de seus adeptos, e continuou a fazê-lo até quando deveria estar de quarentena, aguardando os resultados de seu teste de covid-19.

Quando os estados começaram a fechar negócios não essenciais, Bolsonaro minimizou o vírus letal como "gripezinha" e quis encenar uma campanha para levar os brasileiros de volta à vida pública, até que um tribunal federal bloqueou a tentativa.

"Bolsonaro está apostando que, à medida que as pessoas forem perdendo o emprego, o discurso dele passe a fazer mais sentido para essas pessoas. É muito mais uma aposta e menos uma preocupação com a vida dessas pessoas."

Embora as declarações do presidente sigam ressoando junto a sua base de fãs incondicionais, elas afastaram seus apoiadores moderados, além de criar rachas com aliados políticos.

Os governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e São Paulo, João Dória, passaram de endossar suas políticas de extrema direita a bater de frente com o presidente. Os ministros da Justiça, Sergio Moro, e da Economia, Paulo Guedes, ambos pesos-pesados da política brasileira, puseram-se do lado de Mandetta em sua defesa das medidas de isolamento.

Para controlar a narrativa, o governo Bolsonaro decidiu que precisa aprovar todos os comunicados de imprensa ministeriais sobre o coronavírus. Na primeira coletiva de imprensa conjunta sobre a pandemia, na segunda-feira, o ministro Mandetta foi o último a ter a palavra.

"Nunca vi após o período de redemocratização uma crise tão aguda no Brasil", ou seja, desde o fim da ditadura militar, comenta Teixeira. Contudo o isolamento político pode estar começando a fazer efeito: nesta terça-feira Bolsonaro falou à nação em discurso televisado, e pela primeira vez não criticou o isolamento social.

O tom original, contudo, permaneceu: "Repito: os efeitos colaterais de combate ao coronavírus não podem ser pior [sic] do que própria doença", disse, enquanto, por todo o país, cidadãos em massa promoviam mais um "panelaço" em sinal de protesto.

Nesta quarta-feira, Bolsonaro voltou a se opor a governadores ao compartilhar um vídeo em que um um homem, que não se identifica e afirma estar na Ceasa de Belo Horizonte, aponta um suposto desabastecimento causado pelo isolamento social, enquanto culpa governadores e diz que Bolsonaro defende uma "paralisação responsável". Após a imprensa apontar que o relato sobre o suposto desabastecimento era falso, o presidente apagou o vídeo de suas redes sociais.

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