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Bolsonaro e Haddad vão disputar segundo turno

8 de outubro de 2018

Com 46% dos votos contra 29% de Haddad, ex-capitão impulsiona onda conservadora e antipetista pelo país, quebrando velha polarização entre PT e PSDB em pleitos presidenciais. No Congresso, velhos nomes são derrotados.

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Os candidatos à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT)
Candidatos do PSL e do PT se enfrentarão nas urnas no próximo dia 28Foto: Reuters/P. Whitaker/N. Doce

Em julho, Luiz Inácio Lula da Silva aparecia com 40% das intenções de votos na corrida presidencial. Mesmo com o ex-presidente preso, o PT insistiu que ele seria candidato. A eleição parecia se desenhar como um referendo sobre a persistência da popularidade do petista – mesmo quando ele teve a candidatura barrada e foi substituído pelo ex-prefeito Fernando Haddad. Com ainda 13 candidatos na disputa, o resultado também prometia uma pulverização recorde entre os eleitores. 

Agora, ao fim do primeiro turno, o quadro não poderia ser diferente: o país foi tomado por uma onda conservadora e de repúdio a velhas elites políticas que acabou se aglutinando em torno da candidatura do direitista Jair Bolsonaro (PSL), que soube melhor se aproveitar do sentimento antissistema e antipetista entre a população. A eleição parece ter deixado de ser sobre Lula. Foi o ex-capitão que se tornou o assunto principal. 

O resultado do primeiro turno também quebrou a polarização entre PT e PSDB no pleito presidencial. Nas últimas seis eleições, os dois primeiros colocados sempre foram dos dois partidos.

Ao obter 46,03% dos votos válidos, Bolsonaro chega em vantagem ao segundo turno com Haddad, que teve 29,28%. Como líder, Bolsonaro precisará fazer menos esforços para conquistar mais votos. Nunca ocorreu uma virada em um segundo turno nas eleições presidenciais do Brasil, mesmo em pleitos que terminaram com resultados apertados no primeiro turno, como 2006. 

Menos de quatro pontos percentuais separaram o militar reformado, que defende ideias autoritárias e distribui elogios ao regime militar, de uma vitória decisiva já neste domingo (07/10). Para a esquerda, resta saber como vai ser a estratégia para lidar com essa nova força e ampliar o número de eleitores, freando o antipetismo que se espalhou pelo país. Pela primeira vez em 16 anos, o PT vai enfrentar em um segundo turno um adversário que demonstrou até agora maior capacidade de mobilização popular. 

Para outros candidatos, as eleições não poderiam ter terminado de forma pior. Ciro Gomes (PDT), que tentou se apresentar como uma "terceira via", ainda chegou a 12,47%. Mas políticos veteranos como Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede) obtiveram votações de candidatos nanicos, ainda mais melancólicas se comparadas com seus resultados em eleições anteriores. Henrique Meirelles (MDB), o candidato do impopular presidente Michel Temer, apesar de ter gasto dezenas de milhões de reais do seu próprio bolso na campanha, só obteve 1%. 

Considerando a campanha modesta de Bolsonaro, com poucos recursos e focada quase exclusivamente em redes sociais e na sua condição de pária entre o establishment político há poucos meses, o resultado é avassalador.

Não foi apenas Bolsonaro que obteve uma votação espantosa. Uma série de candidatos apoiados pelo ex-capitão também foi beneficiada pela onda. Seu partido, o até então irrelevante PSL, elegeu quatro senadores e está na briga por três governos no segundo turno. A sigla ainda conta com vários deputados estaduais e federais entre os mais votados do país.

Em São Paulo, quebrou duas marcas: deputado federal e deputado estadual mais votados. A própria dinastia política do presidenciável acabou sendo catapultada: um filho foi eleito senador no Rio de Janeiro, e outro se tornou o deputado federal mais votado da história do país. 

Candidatos de outras siglas que colaram sua imagem em Bolsonaro também foram beneficiados pela onda conservadora. No Rio de Janeiro e Minas Gerais, novatos associados com o militar reformado vão disputar o segundo turno com políticos veteranos. Figuras do Movimento Brasil Livre (MBL), como Kim Kataguiri, foram eleitas para a Câmara com votações expressivas pegando carona na onda.

Surpresas

Para além da disputa presidencial, a eleição também reservou algumas surpresas – muitas delas desfavoráveis para as elites políticas. Na disputa pelo Senado, velhos nomes não se reelegeram ou falharam em obter mandatos. Entre eles várias figuras que chegaram a aparecer como favoritas nas pesquisas, como Roberto Requião (MDB-PR), Marconi Perillo (PSDB-GO), Cesar Maia (DEM-RJ), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Cássio Cunha Lima (PSDB-RJ). 

Para outros candidatos, o resultado acabou sendo uma humilhação. Em Minas Gerais, Dilma Rousseff (PT) amargou um quarto lugar na disputa pelo Senado após passar praticamente toda a campanha liderando as pesquisas. Em Roraima, Romero Jucá (MDB), que se notabilizou por ter sido gravado propondo um pacto contra a Operação Lava Jato, terminou em terceiro lugar e vai deixar o Senado após 24 anos. O próprio presidente da Casa, Eunício Oliveira (MDB-CE), também envolvido na Lava Jato, acabou sendo derrotado.  

"O resultado para o Senado mandou um recado claro para os políticos. Houve uma ampla rejeição àqueles com mandato. O Senado se tornou mais fragmentado, com dezenas de eleitos inexperientes. Será um grande teste para o Brasil", afirmou o cientista político Alberto Almeida, autor do livro A Cabeça do Brasileiro.     

Em Minas, o senador Aécio Neves (PSDB), que se lançou a deputado federal, obteve uma votação magra, apenas suficiente para garantir uma vaga. No Paraná, o ex-governador Beto Richa (PSDB), que chegou a registrar 28% das preferências para o Senado antes de ser preso durante a campanha, acabou recebendo cerca de 3% dos votos. 

Na Câmara, os filhos de Sérgio Cabral, Jorge Picciani, Eduardo Cunha e Roberto Jefferson – políticos que foram presos nos últimos anos – não conseguiram se reeleger ou falharam em conseguir um mandato. Por outro lado, dois filhos do ex-governador Anthony Garotinho garantiram sua presença na Casa.

Próximos passos

Ao comentar o resultado, Bolsonaro mais uma vez investiu na tática incendiária e colocou em dúvida a segurança do processo eleitoral. "Tenho certeza que, se esse problema [supostas irregularidades nas urnas] não tivesse ocorrido, se houvesse confiança no sistema eletrônico, já teríamos o nome do presidente", disse neste domingo. 

Ele também não demonstrou qualquer vontade de fazer concessões para conter o tom autoritário da sua candidatura ao afirmar que pretende "botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil".

O pleito ainda explicitou como Bolsonaro deve continuar a encarar a imprensa. Ele não falou com jornalistas após o resultado. Em vez disso, preferiu fazer uma transmissão pela internet ao lado do seu guru econômico, Paulo Guedes. Ainda neste domingo, uma equipe da Rede Globo foi expulsa por apoiadores quando se posicionou em frente à casa do Presidenciável. 

Para políticos que tentam embarcar na onda Bolsonaro no segundo turno, o comportamento do presidenciável não parece fazer diferença. Ao longo da semana, ele obteve o apoio das influentes bancadas ruralista e evangélica do Congresso. Neste domingo, o candidato ao governo de São Paulo João Doria (PSDB), que já vinha fazendo acenos ao ex-militar, declarou seu apoio definitivo.

Embora Bolsonaro esteja com a vantagem, o segundo turno também deve trazer novos desafios para sua campanha. Ao permanecer afastado por um mês após levar uma facada em um ato eleitoral em Juiz de Fora, ele não precisou passar por situações potencialmente desgastantes como discutir como pretende governar o Brasil sem experiência administrativa. Também acabou ficando afastado de quase todos os debates. 

No segundo turno, sua candidatura passará a contar com dez minutos diários de propaganda na televisão – um grande salto em relação aos oito segundos que tinha disponível no primeiro turno. O novo espaço na TV pode ser uma vantagem, mas preencher tantos minutos também deve ser um desafio para uma equipe de campanha que agiu até agora no improviso.  

Já para o PT, a campanha do segundo turno ocorre em um contexto explicitamente desfavorável. Haddad ficou na liderança apenas no Nordeste, onde a memória dos anos petistas ainda parece viva. Ao assumir a candidatura, conseguiu herdar uma boa parte dos votos de Lula, mas o feito também parece ter tido um efeito adverso: impulsionou Bolsonaro como principal força antipetista no pleito. 

Após o resultado, Haddad agradeceu a Lula e fez um aceno para candidatos derrotados. "Queremos unir os democratas do Brasil. Queremos um projeto amplo para este país, que busque de forma incansável a justiça social", disse. 

O PT – que em eleições passadas fez uso de boatos para enfraquecer rivais, espalhando, por exemplo, que eles seriam a favor da extinção do Bolsa Família – também parece estar em desvantagem na frente que desbancou a importância da TV nestas eleições: as redes sociais, onde apoiadores de Bolsonaro espalham diariamente centenas de notícias tóxicas para prejudicar candidaturas rivais. 

Mais cedo neste domingo, o presidente do PSL do ex-capitão, Gustavo Bebianno, resumiu como a campanha vai agir a partir da próxima semana. "É porrada", afirmou. "Se tiver um segundo turno, o confronto vai ser direto. Com o PT não tem conversa", ressaltou.

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