Big band alemã dedica CD à obra de Hermeto Pascoal | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 22.01.2010
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Cultura

Big band alemã dedica CD à obra de Hermeto Pascoal

Em "Viva o som" hr-Bigband de Frankfurt celebra a obra do alagoano. Autor da iniciativa, saxofonista-tubista Steffen Schorn, revela detalhes do projeto e traça a história de sua paixão pelo gênio musical de Hermeto.

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Capa do CD 'Viva O Som'

As 11 faixas que compõem o novo disco lançado pela orquestra de jazz da emissora radiofônica Hessischer Rundfunk (HR) na Alemanha podem causar estranhamento a quem acompanha a carreira de um dos mais inventivos músicos do Brasil. A velha máxima de que nenhum instrumentista europeu consegue executar decentemente os sinuosos temas compostos pelo chamado "Bruxo do Som" cai agora de vez por terra com a chegada de Viva o som! – The music of Hermeto Pascoal.

Formada por 20 músicos liderados por Steffen Schorn – saxofonista e tubista que vem colecionando importantes prêmios no cenário jazzístico alemão –, a big band conseguiu imprimir a seu disco uma sonoridade vigorosa, onde os instrumentos dialogam, numa alegoria perfeita da delirante e libertária obra de Hermeto.

"O disco é realmente um mergulho num novo, mas também antiquíssimo universo, repleto de ritmos estancados e arrebatadores, de intrincados ruídos", observou a jornalista Anja Barckhausen do Nürnberger Nachrichten.

História de amor

O álbum começou a nascer no dia em que Steffen Schorn escutou pela primeira vez o som de Hermeto Pascoal, num concerto do músico brasileiro realizado em 1986 na Graf-Zeppelin Haus em Friedrichshafen, na região do Lago de Constança. Por caprichos do destino, estava também presente na plateia Olaf Stötzler, futuro produtor da hr-Bigband.

Deutschland Musik Hessischer Rundfunk Bigband Steffen Schorn

Steffen Schorn, da orquesta da emissora Hessischer Rundfunk

Os dois voltaram para casa muito impressionados com as artimanhas do multiinstrumentista albino. "Aquele som, aquela infinita melodia, aquela riqueza harmônica que nunca havia escutado antes me tocaram e instigaram profundamente", afirmou Schorn. Anos depois, ele iria levar essa primeira impressão às últimas consequências: embarcar rumo ao Rio de Janeiro, cidade onde morava Hermeto Pascoal. "Queria conhecê-lo pessoalmente e tocar com ele. Estava numa fase em que precisava romper com a Escola Superior de Música de Colônia [onde estudava], querendo sair à procura do novo e do desconhecido".

Antes de arrumar as malas, tratou de convencer um amigo clarinetista a se embrenhar na mesma aventura. "Estive no Brasil duas vezes, uma em 1992 e a outra no ano seguinte. Na primeira vez fui com Claudio Puntin. Passamos por Porto Seguro e Búzios, até chegar finalmente à casa de Hermeto, no bairro de Jabour", contou Schorn.

Ao chegarem lá, numa localidade bem distante do centro do Rio, foram recebidos a gargalhadas pelos músicos da banda de Hermeto. Os dois europeus tiveram que penar para encontrar a toca do Hermeto, numa rua onde a numeração do casario era, segundo Schorn, "completamente aleatória". "Quando abriram a porta da casa, percebi que Hermeto tinha um papagaio como o meu."

Ensaios sem fim

Ao adentrarem a casa do músico brasileiro, foram levados direto ao estúdio. Provaram da aguardente brasileira e caíram de cabeça nos ensaios. "Tocamos durante vários dias sem ver sombra de Hermeto, que ficava no andar de baixo, compondo ou vendo futebol. Até que um dia ele apareceu no estúdio e, sem falar uma palavra, foi para o seu teclado DX-7 e começou a tocar. Dois dias depois ele voltava com uma nova composição, chamada Ao duo gente e allegre, que ele havia feito pra nós dois."

"Carlos Malta [ex-saxofonista da banda] contou depois para a gente que tinha sido a primeira vez em dois anos que Hermeto tocou com o grupo na própria casa, que geralmente ele ficava compondo lá embaixo, e os músicos ensaiando na parte de cima". Era uma época em que o grupo treinava todo santo dia, durante 15 anos seguidos, sempre nas brechas das turnês pelo Brasil e no estrangeiro. "Como convidados, pudemos desfrutar e aprender no meio daqueles músicos uma nova forma de fazer música e de viver", lembra Schorn.

Música orgânica

Uma coisa que impressionava bastante o músico alemão era o fato de ele nunca ter ouvido, seja nos ensaios, nos shows ou nos discos, uma única melodia que fosse tocada duas vezes. Foi partindo desse princípio que começou a transcrever, segundo seus conhecimentos próprios, as partituras para a orquestra.

A interpretação que a hr-Bigband deu a temas como Acuri, a Essa foi demais ou Era pra ser e não foi, levou Steffen Schorn a considerar o trabalho da orquestra como uma leitura sexy dos arranjos escritos por ele. Teria a música de Hermeto Pascoal algo a ver com a sexualidade? "Naturalmente! A onipresença da queda, a intensidade, a naturalidade e variedade de cores, a harmonia do cosmos, como também a sutileza e explosão dos ritmos, tudo isso eu descreveria como algo sexy", garantiu o arranjador e maestro de 42 anos.

Para transcrever Nenhum talvez, Schorn teve dificuldades especiais, pois o artista alemão não conseguia perceber direito a composição. Itiberê Zwarg, baixista do grupo de Hermeto, apresentou para ele o tema, cantando e tocando violão, mas Steffen não percebia bem as harmonias.

Autoria equivocada

"Isso me perseguiu durante dois anos. Procurei alguma gravação da música, até que Jovino Neto [outro multiinstrumentista da trupe de Hermeto] me revelou que Miles Davis a tinha gravado no álbum Live Evil, e foi nela que trabalhei."

Detalhe: nos créditos do disco do jazzista norte-americano o autor do tema aparece como sendo Miles Davis. Igrejinha, outra de Hermeto que consta no disco do mito musical, também foi decretada como de autoria do trompetista.

A convivência com a música de Hermeto Pascoal é considerada por Steffen Schorn sua principal fonte de inspiração. Foi com ela que pôde desenvolver sua linguagem pessoal de músico. Ele chegou a tocar ao lado de Hermeto Pascoal nos quatro últimos concertos com a formação clássica da banda, antes da saída de dois de seus principais integrantes, Carlos Malta e Jovino Neto. Esses concertos no Sesc Pompeia em 1992 são inesquecíveis para o saxofonista alemão. Assim como todos os outros que fez depois pela Europa, acompanhando o ídolo brasileiro. O resultado está explícito em Viva o som! – The music of Hermeto Pascoal.

Autor: Felipe Tadeu
Revisão: Augusto Valente

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