Bibliothek: Uma nova canção de Kurt Weill | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 07.11.2017
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Bibliothek: Uma nova canção de Kurt Weill

Aficionados da música do alemão foram surpreendidos com a descoberta de uma obra perdida, de 1931. Canção tematiza a cegueira e teria sido escrita para a atriz e esposa do compositor, Lotte Lenya.

Kurt Weil e a esposa, Lotte Lenya, em foto de 1942

Kurt Weil e a esposa, Lotte Lenya, em foto de 1942

Quando caminho pelo bairro de Berlin-Charlottenburg, há um lugarzinho escondido pelo qual sempre gosto de passar, entre a Kantstrasse e a Fasanenstrasse: o Lotte-Lenya-Bogen, um arco de trilhos de trem ao qual deram o nome da cantora e atriz alemã Lotte Lenya.

Os aficionados do trabalho musical de Kurt Weill reconhecem o nome imediatamente: Lenya foi casada com ele, e, mais importante, doou sua voz a algumas das canções mais conhecidas do compositor alemão, como Seeräuber Jenny e outras da peça Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928), escrita com Bertolt Brecht.

Leia também: Kurt Weill, um compositor e seus mil estilos

Esses três nomes: Lenya, Weill e Brecht evocam imediatamente a Berlim da República de Weimar retratada em tantos trabalhos alemães e estrangeiros. Não é sob um desses arcos de trilhos que a personagem Sally Bowles, interpretada por Liza Minnelli, solta um grito na filmagem de 1972 de Cabaret, dirigido por Bob Fosse?

Trecho do manuscrito da recém-descoberta Canção do queijo branco, de Kurt Weil

Trecho do manuscrito da recém-descoberta "Canção do Queijo Branco"

Os aficionados da música de Weill tiveram uma boa surpresa esta semana. Como noticiado pela Fundação Kurt Weill para Música, de Nova York, e em jornais alemães e americanos, o acaso levou um estudioso da obra do alemão a descobrir a partitura de uma nova canção do compositor na biblioteca da Freie Universität de Berlim. Intitulada Lied vom weissen Käse (Canção do Queijo Branco), teria sido escrita para Lenya, que chegaria a cantá-la em um evento no teatro Volksbühne.

A atriz havia tentado reencontrar informações sobre a canção, sem sucesso. Com a fuga de Weill em 1933, assim como tantos outros artistas judeus, acreditava-se que a canção nunca fosse recuperada. Lenya teria declarado: "Estará perdida em algum porão, como tantas outras coisas."

É entusiasmante pensar que novos trabalhos de artistas do entreguerras ainda possam ser encontrados em pleno século 21. A última grande descoberta de obras de Weill aconteceu em 1983, quando a cunhada do compositor descobriu várias peças do começo de sua carreira em um baú.

A canção refere-se a um curandeiro muito famoso na República de Weimar, Joseph Weissenberg (1855-1941), que usava, entre outras coisas, queijos para curar as pessoas e teve um grande número de seguidores. Em seu consultório na Gleimstrasse, em Prenzlauer Berg, chegou a tratar 50 pacientes por dia.

Na canção, uma jovem cega, interpretada por Lenya, é tratada pelo curandeiro mas não volta a enxergar. Ao fim da canção, ela medita se não seria melhor que todos fossem cegos, para não ver as atrocidades que acontecem no mundo. A canção é de 1931. Não foi justamente cegueira que acometeu a população alemã apenas um par de anos depois? Ou a cegueira se refere a toda a parcela da população que afirmou mais tarde não ter visto as atrocidades nazistas?

Na coluna Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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