Aumento da renda não despertou interesse do brasileiro pela política | Eleições 2014 | DW | 01.10.2010
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Eleições 2014

Aumento da renda não despertou interesse do brasileiro pela política

Nos últimos anos, milhões de brasileiros saíram da pobreza para ingressar na classe média. Mas o aumento da renda parece não ter provocado efeitos na participação política dos cidadãos.

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Pobreza diminuiu no Brasil

Os feitos na área social do governo Lula repercutiram mundialmente: representantes de países de outros continentes visitaram a capital federal para aprender como o Brasil conseguiu tirar 28 milhões da pobreza e possibilitar que 36 milhões passassem a fazer parte da classe média, segundo dados oficiais. A sociedade comemora a melhora da renda, mas ainda não se sabe quais os efeitos dessa inclusão na visão política do brasileiro.

"Desde 1995, a pobreza no Brasil está reduzindo. Esta redução foi, sem dúvida, maior nos últimos oito anos. Entretanto ainda não temos dados para saber qual o impacto desse processo sobre os níveis de participação política", disse à Deutsche Welle a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

No Brasil, o voto obrigatório faz com que a participação nas eleições seja grande. Mas segundo os estudos de Maria Hermínia, as outras formas de envolvimento – em associações, partido, entre outros – não parece ainda ter sido afetada pelo aumento de renda, nem está claro se o será.

Mais do que dinheiro

Para cidadãos de baixa renda e baixa escolaridade, o envolvimento na política praticamente é inexistente. "Entretanto, não há evidências de que (...) a participação política aumente apenas por efeito da elevação da renda", analisa Marta Arretche, pesquisadora da USP com pós-doutorado no European University Institute.

A pesquisadora é taxativa: mais dinheiro no orçamento familiar não promove condições suficientes para atiçar a consciência política. Os estudiosos da área são unânimes ao afirmar que o aumento da escolaridade e do grau de informação são mais decisivos.

Na Alemanha, é esse o trabalho de Daniel Kraft, à frente da agência federal alemã para formação política. "Damos informações às pessoas de forma objetiva, e não de forma colorida por um partido, ou por algum interesse. Mostramos que há diferenças entre os partidos, entre as posições e damos ferramentas para as pessoas formarem suas opiniões". Não há um órgão correspondente no Brasil.

Sensação comum

Em seus 58 anos de atuação, a agência notou uma queda do envolvimento dos alemães na política – nas últimas eleições federais, 70% do eleitorado foram às urnas, contou Daniel Kraft.

No Brasil, houve uma queda no ativismo, fato que pode ter sido provocado pela consolidação da democracia no país, segundo defende Eduardo Cesar Marques, um dos coordenadores da Associação Brasileira de Ciência Política.

"Verificou-se um declínio do ativismo político tanto de natureza associativa, ou seja, declínio dos movimentos, mas também o deslocamento na forma pela qual as associações intervêm na política com o crescimento das ONGs, e o declínio partidário, principalmente pela maior 'institucionalização' do PT, o único partido realmente de massas."

Para Daniel Kraft esse afastamento é provocado por uma sensação que não é exclusiva dos alemães, mas do eleitorado em geral: a distância entre a discussão política e a vida das pessoas, que acreditam que não têm o poder de mudar as coisas.

"Por isso, vamos onde os jovens estão, mostramos que a política tem a ver com seus interesses pessoais. Há 10 anos, visitávamos as discotecas. Agora estamos na internet, usamos as mídias sociais para fazer a informação chegar a esse público", exemplifica Kraft.

Mesmo com o aumento de fontes de informação – os candidatos a presidente do Brasil estão no twitter, por exemplo -, Marta Arretche completa que, somado ao aumento da renda, a participação política precisa ainda de outro empurrão: "Esse envolvimento depende de outros fatores, especificamente políticos, tais como a credibilidade das instituições". E, depois de tantos escândalos, o brasileiro admite não ter esse tipo de confiança.

Autora: Nádia Pontes

Revisão: Roselaine Wandscheer

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