Aos 60 anos, Opep enfrenta a virada energética global | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 11.09.2020

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Economia

Aos 60 anos, Opep enfrenta a virada energética global

Seis décadas após criação, cartel de produtores de petróleo é uma sombra de seu passado de glórias, enfraquecido por lutas internas, pela ascensão dos EUA como grande exportador e a busca por fontes renováveis.

Fachada da sede da Opep

Sede da Opep: participação do grupo no mercado global de petróleo caiu de mais de 50% em 1973 para cerca de 30%

Em 1973, um grupo de países ricos em petróleo liderado pela Arábia Saudita, Irã e Iraque, colocou a poderosa economia dos EUA de joelhos, ao impor um embargo de petróleo a Washington e seus aliados. A suspensão das remessas de petróleo do Oriente Médio para os EUA e os cortes acentuados na produção em retaliação ao apoio a Israel durante a Guerra do Yom Kippur causaram estragos na economia americana, levando à escassez de combustível e fazendo com que os preços do petróleo disparassem.

O embargo foi suspenso meses depois, após negociações tensas, mas não antes de lançar a economia dos Estados Unidos em sua pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que até então havia mantido um perfil relativamente discreto, principalmente negociando preços mais altos para o petróleo de grandes empresas petrolíferas para seus membros, emergiu do episódio como uma potência que não pode ser ignorada.

Quase cinco décadas depois, a Opep é apenas uma sombra pálida de seu passado de glórias, enfraquecida por lutas internas, a ascensão dos Estados Unidos como um grande exportador de petróleo graças a um boom de xisto e a tendência global de optar por fontes renováveis de energia em meio a preocupações com as mudanças climáticas.

"A Opep é importante principalmente como um clube político. Ela fracassa economicamente como cartel, mas aumenta o prestígio e a posição de seus membros, a maioria dos quais não teria um assento à mesa nos assuntos mundiais", avalia o cientista político Jeff Colgan, professor da Brown University, dos EUA. "Um cartel funcional precisa estabelecer limites rígidos para a produção e cumpri-los. A Opep estabelece alvos fáceis e ainda muitas vezes não consegue atingi-los", diz o autor de Petro-Aggression: When Oil Causes War (Petroagressão, quando o petróleo causa guerra, em tradução livre).

O bloco viu sua participação de mercado diminuir progressivamente ao longo dos anos, em parte graças aos seus esforços para aumentar artificialmente os preços do petróleo por meio da contenção de sua própria produção. A participação da Opep no mercado global de petróleo caiu de mais de 50% em 1973 para cerca de 30%, também prejudicada por perdas involuntárias na Líbia devastada pela guerra; e no Irã e Venezuela, ambos afetados por sanções dos EUA.

Campo de petróleo na Arábia Saudita

Campo de petróleo na Arábia Saudita: país produz um terço do petróleo da Opep

Foi a fraqueza da Opep em meio à ascensão dos EUA como um grande produtor de petróleo que levou o outrora clube exclusivo a dar as mãos à Rússia e alguns outros produtores de petróleo para formar a Opep+, para equilibrar os mercados de petróleo. O início da aliança, em 2016, foi precedido por uma campanha desastrosa do bloco liderado pela Arábia Saudita para tirar do mercado os negociadores de xisto americanos mais fracos, levando a um colapso dos preços do petróleo para cerca de 30 dólares o barril. As companhias de xisto dos EUA provaram, então, ser mais resilientes do que os sauditas esperavam, e o suficiente para levar os EUA a se tornarem o maior produtor de petróleo do mundo.

Influência minguante

A influência decrescente do bloco coincidiu com a época em que o petróleo começou a cair em desgraça. O combustível fóssil viu sua participação na matriz energética global diminuir para cerca de 33% de um pico de 50% em 1973, de acordo com estimativas da multinacional britânica de petróleo e gás BP, à medida que governos e empresas optam por fontes de energia mais limpas para combater as mudanças climáticas. Por outro lado, as energias renováveis, principalmente solar e eólica, aumentaram sua participação, respondendo por mais de 40% do crescimento global de energia no ano passado, segundo dados da BP.

"O petróleo não é tão significativo ou visível como costumava ser. Por exemplo, você sabe quem é o chefe da Exxon? Provavelmente não. Você sabe quem é o chefe da Tesla? Sim, Elon Musk", frisa Philippe Benoit da empresa de consultoria Global Infrastructure Advisory Services 2050.

A pandemia de covid-19 piorou ainda mais as perspectivas do petróleo. As restrições globais fizeram com que carros, aviões e trens parassem bruscamente, fazendo com que o consumo de petróleo caísse em um quarto e os preços do petróleo caíssem para mínimas recorde, levando o barril a ser negociado a preços abaixo de um dólar o barril nos EUA em determinado momento. O transporte é responsável por quase um terço da demanda global de petróleo.

Os especialistas não acreditam que os setores automobilístico e de aviação voltem aos níveis pré-pandêmicos pelo menos nos próximos três a cinco anos. O setor de aviação era considerado o maior motor de crescimento do petróleo, atendendo à demanda das pessoas que estavam ficando com maior poder aquisitivo, mas agora isso parece improvável, especialmente nos próximos anos.

Líderes da indústria do petróleo, incluindo o presidente-executivo da BP, Bernard Looney, e o chefe da Royal Dutch Shell, Ben van Beurden, disseram que a crise atual pode fazer com que a demanda por petróleo atinja o pico mais cedo do que o esperado.

Usina de petróleo de xisto no Texas, nos EUA

Usina de petróleo de xisto no Texas, nos EUA

"O cenário de queda na demanda fará com que a Arábia Saudita e seus aliados do Golfo tenham cada vez mais dificuldade para manipular a oferta e aumentar os preços por qualquer período de tempo", diz Jason Tuvey, da consultoria Capital Economics, em nota aos clientes. "Se os preços forem mantidos artificialmente altos por um período prolongado, a demanda de petróleo acabará caindo em um ritmo ainda mais rápido e a agilidade da produção de xisto dos EUA fará que a oferta fora da Opep venha a se expandir."

Opep como voz saudita

A Opep foi fundada em Bagdá em setembro de 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela. O bloco, que se expandiu e se contraiu ao longo dos anos, foi atormentado por disputas sobre estratégia e lutas pelo poder regional, que ocasionalmente se transformaram em conflitos violentos, como a guerra Irã-Iraque e a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990.

A Arábia Saudita, que produz um terço do petróleo da Opep, continua sendo o líder de fato do bloco desde os anos 90, quando conflitos, corrupção e má gestão afetaram a produção em outros países membros, incluindo os rivais regionais Irã e Iraque.

Riad tem oscilado entre sustentar os preços do petróleo bruto e proteger sua participação no mercado, muitas vezes unilateralmente. "A Opep é um porta-voz da Arábia Saudita", diz Colgan. Em março, quando as negociações da Opep+ para cortar a produção, em resposta à pandemia fracassaram, a Arábia Saudita lançou uma guerra de preços contra a Rússia, para grande consternação dos membros mais fracos da Opep, como Nigéria e Angola, que já tinham sido afetados devido aos baixos preços do petróleo causados pela estratégia implementada por Riad entre 2015 e 2016.

Apesar de todo o seu domínio, a Arábia Saudita tem lutado para controlar os chamados "trapaceiros" do bloco, incluindo a Nigéria e o Iraque, que têm sido notórios por não cumprirem os cortes de produção prometidos para sustentar os preços do petróleo. Riad, que é mais vulnerável aos preços baixos do petróleo do que outros grandes produtores de petróleo, com um preço de equilíbrio superior a 80 dólares o barril, acabou fazendo grande parte do trabalho pesado para garantir a obediência dos outros membros do grupo.

Tuvey, da Capital Economics, acredita que a Arábia Saudita no médio prazo, reduzirá seus esforços para sustentar os preços do petróleo e voltará à estratégia de proteger sua participação de mercado a qualquer custo, para evitar deixar quantidades substanciais de petróleo encalhadas em meio à queda da demanda.

"Tal mudança na política, especialmente se fosse repentina e inesperada, colocaria alguma pressão descendente sobre os preços do petróleo. Mas é improvável que isso seja muito problemático para os sauditas, e o governo provou sua disposição de impor austeridade fiscal severa", diz Tuvey. "Os legisladores sauditas não terão muita simpatia por outros produtores que não conseguem ajustar suas economias aos baixos preços do petróleo."

No entanto, pode ser muito cedo para escrever um obituário para o bloco, que sobreviveu a muitas crises nos últimos 60 anos, provocando comparações com o proverbial gato de sete vidas. O petróleo provavelmente continuará a ser a commodity mais importante do mundo nos próximos anos. "Paradoxalmente, a Opep como um agregador, um ponto de encontro para muitos países produtores, poderia desempenhar um papel maior no gerenciamento das tensões entre esses produtores de petróleo em meio a um mercado em contração", diz Benoit.


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