Análise: Um título sem brilho para o Brasil | Siga a cobertura dos principais eventos esportivos mundiais | DW | 08.07.2019
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Futebol

Análise: Um título sem brilho para o Brasil

Em torneio de baixo nível técnico, seleção brasileira foi a que menos desafinou. A conquista da Copa América tem seus méritos, mas não serve de parâmetro para avaliar Tite ou de garantia de sucesso no próximo Mundial.

Jogadores e comissão técnica posa para fotógrafos com o troféu de campeão da Copa América

Brasil conquistou sua nona Copa América e manteve o padrão de ser campeão quando anfitrião do torneio continental

Doze anos após a última conquista, o Brasil volta a reinar na América do Sul. A seleção brasileira derrotou o Peru por 3 a 1 no estádio do Maracanã, neste domingo (07/07), e conquistou seu nono título da Copa América. Com a campanha invicta de quatro vitórias e dois empates, o Brasil manteve o padrão de ser campeão quando anfitrião do torneio continental – o país sediou cinco das 46 edições.

Sob a pressão de obrigatoriamente vencer a Copa América – especialmente para ofuscar as memórias ainda vívidas da humilhante goleada de 7 a 1 frente à Alemanha, em 2014 – e sem sua principal estrela, Neymar, que se lesionou no último amistoso preparatório, a seleção fez o suficiente para levantar o caneco.

No entanto, o título da Copa América não pode servir de parâmetro para avaliar o trabalho de Tite, muito menos ser interpretado como um salvo-conduto após decisões equivocadas desde a convocação ao plano de jogo do treinador. Em um torneio de baixíssimo nível técnico e repleto de decisões polêmicas da arbitragem, a seleção brasileira foi a que menos desafinou. Simples assim.

A conquista tem méritos, mas carece de louvor. O Brasil soube vencer, mas em raros momentos praticou um futebol vistoso e não convenceu o torcedor brasileiro. A Seleção apresentou um futebol pragmático, sustentado numa defesa robusta, que, embora tenha sido pouco testada na competição, sofreu apenas um gol – na final, de pênalti.

Prevaleceu o estilo Tite de jogar futebol – um pragmatismo defendido e propagado como conceito de competitividade. E não apenas na seleção brasileira, mas num modo geral. A tática defensiva e destrutiva foi a tônica na competição – três dos quatro jogos das quartas de final, por exemplo, terminaram sem gols e foram decididos em cobranças de pênaltis.

E justamente contra adversários retrancados, que oferecem a bola ao adversário propositadamente, o Brasil teve mais dificuldades. A estreia contra a Bolívia e os empates contra Venezuela e Paraguai escancararam um problema nítido de ordem tática: a desconexão entre setores e a incapacidade de criar jogadas sem que o adversário ofereça espaço de profundidade de campo. 

A dissonância entre defesa e ataque representa uma fragilidade que certamente seria mais bem aproveitada por adversários de maior calibre. A Copa América, no entanto, serviu justamente para enaltecer a coletividade de um esporte coletivo.

Roberto Firmino, Philippe Coutinho e Everton Cebolinha comemoram o primeiro gol do Brasil contra o Peru, na final da Copa América de 2019

De reserva de Neymar a talismã do título: Everton Cebolinha (dir.) assumiu protagonismo e virou artilheiro da Copa América

Sem Neymar, desapareceu aquela figura soberana em campo para a qual todas as jogadas eram direcionadas, e coube a outros jogadores chamar mais a responsabilidade. Na Copa das Confederações de 2013, sob comando de Luiz Felipe Scolari e com Neymar em campo, cinco jogadores diferentes balançaram 14 vezes as redes, enquanto na Copa América, oito atletas foram responsáveis pelos 13 gols marcados.

Aos seus 36 anos, Daniel Alves fez uma Copa América quase impecável – o lateral-direito conquistou seu 40º título na carreira e foi eleito o melhor jogador do torneio. A vontade aguerrida do capitão contra a Argentina – e principalmente seu lance plástico no primeiro gol – foi o principal impulsor do que culminou na única atuação convincente da seleção no torneio.   

Gabriel Jesus encontrou a redenção, após um Mundial fraco em 2018. O atacante passou em branco na fase de grupo, mas foi decisivo na reta final, com dois gols e duas assistências contra Argentina e Peru. Sua redenção foi fruto da necessidade.

Sem Neymar e com as boas atuações de Everton Cebolinha, Tite decidiu por deslocar Gabriel Jesus para a extremidade do campo, para atuar ora como ponta-direita, ora como segundo atacante.

A ausência de Neymar também permitiu o desflorar da ala mais jovem na seleção. Menção honrosa para o volante Arthur, de 22 anos, que, embora tenha ficado abaixo de seu potencial, deu sua primeira assistência na seleção, e ao atacante Richarlison, também de 22 anos, que cobrou a penalidade que selou o título com a frieza de um veterano num Maracanã lotado.

Mas o maior destaque individual certamente foi Everton Cebolinha, de 23 anos, que trouxe para campo o drible, o improviso, o diferencial que representa a marca registrada do jogador brasileiro, e foi o artilheiro da competição com três gols. Celebrado por torcedores e analistas como o elemento antagônico ao pragmatismo de Tite, Everton deixou de ser apenas um reserva de Neymar e cavou seu espaço na seleção.  

As boas atuações da revelação do Grêmio fortaleceram a argumentação de críticos à convocação de Tite. Muitos comentaristas esportivos questionaram o baixo número de jogadores convocados que atuam no futebol brasileiro. Além de Everton, apenas o goleiro Cássio e o lateral-direito Fagner vestem camisas de clubes do país. O restante atua na Europa, cuja temporada terminou poucos dias antes da Copa América.

Além da falta de espaço oferecida a jogadores de clubes brasileiros, Tite também foi bastante criticado por ter sido incoerente na convocação de Neymar. O craque do Paris Saint-Germain esteve envolvido em diversas polêmicas ao longo da temporada, que incluem deslizes disciplinares, festas extravagantes, agressão de torcedor e uma acusação de estupro nas vésperas da Copa América. Mas não deixou de ser convocado. Diferentemente de Douglas Costa, excluído da seleção por ter cuspido num adversário no Campeonato Italiano.

Gabriel Jesus celebra seu gol contra o Peru, na final da Copa América de 2019

Decisivo com dois gols e duas assistências contra Argentina e Peru, Gabriel Jesus celebrou sua redenção na Copa América

Na somatória, a lesão de Neymar no amistoso contra Honduras foi um alívio – mesmo que ninguém admita isso publicamente pelos corredores da CBF. Fato é que jogadores e comissão técnica puderam focar o futebol, conceder entrevistas sobre futebol. Além disso, Tite se viu obrigado a estruturar seu plano de jogo de forma mais coletiva – na Copa de 2018, por exemplo, a grande maioria das ações ofensivas era pela esquerda com o trio Marcelo, Philippe Coutinho e Neymar. Na Copa América houve um maior equilíbrio.

No entanto, no final das contas, o que fica nos livros de história é a conquista – e não importa como ela foi alcançada. Fica também o regresso da seleção brasileira ao estádio do Maracanã, depois de seis anos de ausência – e a renda recorde do futebol brasileiro (38,7 milhões de reais para um público pagante de 58.504 pessoas). O último jogo no palco sagrado havia sido a final da Copa das Confederações, quando a Seleção derrotou a Espanha por 3 a 0.

Mas a história também mostra que ganhar a Copa América não deve ser superdimensionado. O futebol brasileiro é pentacampeão mundial, mas está bem distante de Uruguai (15) e Argentina (14) em termos de conquistas sul-americanas – muito também porque nem sempre levou a competição a sério.

E o triunfo numa Copa América – especialmente no próprio país – certamente não serve de garantia de um bom desempenho na Copa do Mundo seguinte. Tite precisa conseguir devolver à seleção o futebol envolvente apresentado nas eliminatórias para o Mundial na Rússia.

Os mais vividos devem se lembrar da seleção sofrível de Sebastião Lazaroni, campeã da Copa América de 1989 em pleno Maracanã, mas que não passou das oitavas de final na Copa de 1990, na Itália. Desde então, coincidência ou não, Lazaroni caiu no ostracismo. 

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