A transformação de Lula em D. Sebastião | NRS-Import | DW | 22.08.2018
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Coluna Realpolitik

A transformação de Lula em D. Sebastião

Culto a ex-presidente Lula tem ares de sebastianismo, a espera do retorno do governante para libertar o povo. Será que os eleitores do petista se absterão, viabilizando uma vitória de Jair Bolsonaro?

O dólar ultrapassou a marca de 4 reais. O motivo seriam as pesquisas eleitorais mais recentes que mostram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com até 39% das intenções de voto.

Isso me lembra as semanas antes da eleição de 2002, quando o dólar também superou a marca de 4 reais por causa do "comunista Lula". Mas Lula governou mais como Angela Merkel do que como Fidel Castro e, em 2010, deixou o poder com 87% de aprovação. Eram tempos mais harmoniosos do que os atuais.

Será que esse medo estranho do "comunista Lula" voltou de repente? Dificilmente, já que, de qualquer jeito, Lula está preso e nem poderá concorrer, segundo afirma a Justiça brasileira. Ou será que os temores são relativos a Jair Bolsonaro, segundo colocado nas pesquisas, com 19%? Especialistas dizem que ele não tem chance no segundo turno. A ver.

O colunista alemão Thomas Milz, que vive no Rio de Janeiro

O colunista alemão Thomas Milz, que vive no Rio de Janeiro

As eleições deste ano são as mais imprevisíveis desde 1989. Atrás dos dois "populistas", de cuja vitória se duvida, seguem Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, três candidatos de quem ninguém precisa ter medo. Eles pertencem a um espectro social-democrata às vezes orientado politicamente mais à esquerda, às vezes à direita. Nesse contexto, é bem provável que Alckmin tenha as maiores possibilidades de conquistar uma maioria estável no Congresso. E Fernando Haddad, substituto de Lula, é um político sensato, que vai procurar o diálogo com as forças da oposição para formar um governo capaz de funcionar.

Então, devemos ficar preocupados com o Brasil?

O pior cenário provavelmente seria uma grande quantidade de votos brancos ou nulos. Nesse caso, faltaria legitimidade ao novo presidente. Algo de que o Brasil não precisa depois de quase quatro anos sem um governo operacional. Além disso, é exatamente Jair Bolsonaro que pode tirar proveito da "abstenção" de muitos eleitores.

Essa resposta também dependerá do fato de Lula conseguir ou não transferir sua alta aprovação para Haddad. Afinal, este terá muito tempo de transmissão na campanha eleitoral na TV que começa no dia 31 de agosto. Exatamente como Geraldo Alckmin, que aposta na propaganda televisiva para ultrapassar o campo da direita. Assim, o segundo turno no dia 28 de outubro poderia acabar sendo uma reedição do duelo entre o PT e o PSDB – o cenário dominante das eleições desde 1994.

Um bom cenário. Nas eleições passadas, o Brasil sempre deu provas de sensatez. Depois de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, veio o petista Lula – foram 16 anos de governo que fizeram bem ao país.

Se Lula tivesse se candidatado em 2014 – conforme supostamente planejava –, ele talvez teria conseguido evitar a perda de governabilidade que se instalou em 2015 sob o governo de Dilma Rousseff.

Na última quarta-feira (15/08), milhares de seus correligionários compareceram diante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para exigir sua participação na eleição. Parcialmente, a manifestação parecia uma peregrinação. À frente da passeata, pessoas que fizeram greve de fome eram carregadas e havia pessoas beijando fotos de Lula. Um novo sebastianismo – com a diferença de que, em vez do corpo do rei D. Sebastião de Portugal, agora falta o corpo de Lula.

Diante do carisma incomparável de Lula e de seus ganhos para a população pobre, não é de se admirar que muitos o querem de volta. Mas, como aconteceu com D. Sebastião, provavelmente a espera de um retorno de Lula para salvar a nação será em vão. Agora, são os seus eleitores que precisam realizar esse resgate.

Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há quase 20 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, há 15 anos, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como o Bayerischer Rundfunk, a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há quatro anos.

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