A luta das mulheres japonesas para ter voz na política | Notícias internacionais e análises | DW | 05.10.2018
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Ásia

A luta das mulheres japonesas para ter voz na política

Incidentes recentes evidenciam dificuldades enfrentadas por aquelas que tentam entrar no universo político do Japão. Com apenas uma mulher, novo gabinete de Abe contradiz promessa de promover igualdade de gênero.

Primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe (dir.), durante reunião de seu gabinete de governo

O premiê japonês, Shinzo Abe (dir.), prometeu empoderar as mulheres, mas presença delas no governo ainda é escassa

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, anunciou nesta terça-feira (02/10) os 20 integrantes de seu novo gabinete e nomeou Satsuki Katayama como a ministra encarregada da revitalização regional e do empoderamento feminino.

Katayama era a única mulher na fileira formada atrás do primeiro-ministro para a fotografia tradicional do novo governo japonês. Ao cortar de dois para um o número de mulheres em seu gabinete, Abe argumentou que Katayama seria capaz de executar o trabalho de "duas ou três mulheres".

Segundo críticos, o novo gabinete aponta para uma direção oposta ao que Abe prometeu quando foi eleito pela primeira vez. Há cinco anos, um lema do governo japonês para promover a igualdade de gênero dizia que "apenas uma mulher não é suficiente" – no entanto, a ironia por trás dessa afirmação parece ter sido esquecida pelo primeiro-ministro.

Antes de o Partido Liberal Democrata (PLD) retornar ao poder em 2012, Abe declarou que iria "promover o papel das mulheres na sociedade" e prometeu mudanças sociais que permitiriam às mulheres exercer seu potencial.

Em 2014, Abe nomeou cinco ministras em seu gabinete. Esse número, porém, encolheu a cada novo governo subsequente, e atualmente há apenas uma única mulher no círculo mais estreito do poder político do Japão.

O segundo exemplo recente da maneira como as mulheres são desencorajadas de participar da política japonesa ocorreu em 28 de setembro, quando Yuka Ogata, eleita para a assembleia da cidade de Kumamoto, no sul do Japão, foi ordenada sem cerimônias a deixar o plenário enquanto fazia perguntas com uma pastilha na boca.

A assembleia de 49 membros decidiu que o comportamento de Ogata violava a regra de "respeitar a dignidade" da câmara. Reportagens de veículos locais de comunicação relataram que a sessão "mergulhou no caos" quando os membros "começaram a gritar" com Ogata antes de o presidente da câmara convocar um recesso.

Um painel disciplinar convocado apressadamente concluiu que Ogata deveria pedir desculpas pela pastilha contra a tosse em sua boca. No entanto, ela se recusou, alegando que se tratava de uma medicação necessária para evitar que tossisse durante a sessão. O painel disciplinar voltou a se reunir e emitiu uma ordem proibindo Ogata de retornar à câmara.

Mieko Nakabayashi, que foi política do Partido Democrático do Japão (PDJ) quando este liderava o governo japonês, entre 2009 e 2012, e agora é professora na Escola de Ciências Sociais da Universidade de Waseda, em Tóquio, disse ter pouca fé na possibilidade de o mundo político do Japão dar uma voz genuína às mulheres.

"O lema de Abe era que ele ajudaria as mulheres a 'brilharem' na sociedade – mas o que isso significava era um mistério na época e assim permanece sendo", disse Nakabayashi em entrevista à DW.

"Na minha opinião, ele só quer promover mulheres que tenham as mesmas opiniões conservadoras que ele", disse Nakabayashi. "A política japonesa e os partidos políticos não representam as pessoas comuns ou seus interesses, porque as mulheres não participam realmente da política partidária aqui."

O problema mais significativo, segundo Nakabayashi, é que as mulheres estão simplesmente sobrecarregadas com os cuidados familiares, trabalham longas horas em empregos mal pagos no setor de serviços e tentam encontrar meios para conseguir ter uma voz política.

Aquelas que entram no mundo político são de famílias ricas e têm uma formação acadêmica privilegiada – e mesmo quando estão na Dieta Nacional do Japão (Parlamento bicameral do Japão) ou no gabinete, seus poderes são limitados e seus papéis são consistentemente subservientes em comparação aos de seus colegas masculinos.

"Sou pessimista", admite. "O sistema político aqui, e as leis de campanha não dão poder real aos partidos – este está nos líderes e nos veteranos, e as mulheres não têm voz neste mundo." Nakabayashi acrescentou que isso não deve mudar em breve devido aos interesses dos homens.

Makoto Watanabe, professor de mídia e comunicação da Universidade Bunkyo de Hokkaido, concorda que as perspectivas são bastante sombrias para as mulheres que gostariam de ter uma carreira política no Japão.

"As promessas feitas por Abe se mostraram como palavras vazias", disse Watanabe em entrevista à DW. "Foram promessas contagiantes e de boa política, mas acho que nomear um gabinete com apenas uma mulher faz com que as pessoas acabem percebendo que eram apenas frases de propaganda."

"E enquanto se a situação é ruim em Tóquio, acredito que as coisas sejam ainda piores em nível regional", acrescentou Watanabe. "Muitas vezes, pequenas cidades e vilarejos do país ainda funcionam como funcionavam há 50 anos ou mais. As pessoas que participam das assembleias têm as mesmas atitudes e crenças", disse.

"Essas pessoas têm suas próprias culturas e valores e é virtualmente impossível mudar isso – e quando alguém como a parlamentar em Kumamoto vem e faz algo diferente ou os desafia a agir de forma diferente, eles reagem com raiva", criticou.

Watanabe disse acreditar que os "velhos" que exercem o poder no interior do Japão representam uma séria ameaça à nação no futuro.

"Eles são um perigo para nossa sociedade, porque essas instituições e suas atitudes estão ficando para trás no resto do mundo, e isso faz do Japão um país menos desenvolvido", disse Watanabe. "Isso precisa mudar, e logo."  

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