″A influência de Erdogan na Alemanha é enorme″, diz deputada | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 09.06.2016
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Alemanha

"A influência de Erdogan na Alemanha é enorme", diz deputada

Em entrevista, Sevim Dagdelen, do partido A Esquerda, afirma que governo de Merkel está ignorando os esforços do presidente da Turquia para controlar os turcos e seus descendentes que vivem no país europeu.

Sevim Dagdelen

Sevim Dagdelen: "Milhões de pessoas na Alemanha estão sendo soterradas com a propaganda desumana de Erdogan"

Há uma semana, o Bundestag (Parlamento alemão) aprovou uma resolução que classifica de genocídio o massacre perpetrado há um século pelo Império Otomano contra a minoria armênia. A ação irritou o governo do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Ele acusou os 11 deputados alemães de origem turca que votaram a favor da resolução de apoiar o "terrorismo" do proscrito Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e exigiu exames de sangue para ver "que tipos de turco" eles são.

Em entrevista à DW, a deputada alemã Sevim Dagdelen, do partido A Esquerda, fala sobre a influência de Erdogan no país. Filha de turcos, ela afirma que muitos imigrantes e seus descendentes se informam através da mídia da Turquia, controlada pelo presidente. O governo Erdogan também atua sobre federações de mesquistas e outras organizações na Alemanha, aponta.

"O governo alemão está observando isso silenciosamente. Temo que a Alemanha acabe pagando amargamente por isso", afirma.

DW: O que você vivenciou enquanto apoiadora da resolução que reconheceu o genocídio armênio? Você também recebeu mensagens de ódio como outros receberam?

Sevim Dagdelen: Recebi várias ameaças de morte e agressão. Curiosamente, por um lado, as mensagens reconheciam o genocídio armênio, mas, ao mesmo tempo, o negavam. Falaram-me para tirar umas férias e que havia uma recompensa oferecida pela minha cabeça. As mensagens foram uma mistura de antissemitismo, racismo contra os armênios, fantasias sexistas de violência e megalomania nacionalista.

Qual a sua opinião sobre organizações como a União dos Democratas Turcos (UETD)? Qual é o objetivo de grupos assim na Alemanha, e o que Erdogan espera deles?

As políticas do UETD na Alemanha são uma representação exata das políticas desumanas do presidente turco [Recep Tayyip] Erdogan. Ele usa essa organização como parte de uma agenda paralela nacionalista e islamista na Europa. Considerando a atitude da UETD em relação aos comentários fascistas de Erdogan – como a fala sobre fazer exames de sangue entre deputados alemães de "origem turca" devido à atitude deles ao reconhecer o genocídio armênio –, é preciso se perguntar se essa organização está funcionando de acordo com a Constituição alemã.

O que você acha da União Turco-islâmica para Assuntos Religiosos (Ditib)? Como esse grupo ajuda a gerar mais apoio a Erdogan?

O controle do governo Erdogan sobre federações de mesquitas na Alemanha faz com que ele abuse dessas organizações e faça uso delas como porta-vozes de suas políticas despóticas. Não é surpreendente que essas organizações tenham tido papel proeminente nos protestos negacionistas que ocorreram antes da votação no Parlamento. Isso não tem nada a ver com liberdade religiosa. Aparentemente, essas organizações são instrumentalizadas por Erdogan para estabelecer um tipo bem perigoso de islamismo que é contrário aos direitos humanos.

Existem outros grupos ou organizações na Alemanha que estão sendo usadas pelo presidente turco?

A organização islamista radical Milli Görus, que é uma variante da Irmandade Muçulmana, é próxima a Erdogan. Também há o envolvimento de círculos empresariais turco-alemães, que organizaram campanhas contra os deputados alemães, e no contexto das manifestações nacionalistas, dos fascistas "Lobos Cinzentos".

Estamos enfrentando uma inédita mobilização de círculos nacionalistas, fascistas e islamistas que pretendem implantar na Alemanha as políticas violentas de Erdogan. O governo alemão está observando silenciosamente esses incidentes. Temo que a Alemanha acabe pagando amargamente por isso.

Como a influência de Erdogan afeta as pessoas de origem turca que vivem na Alemanha?

Devido ao fato de que muitas pessoas recebem informações da mídia turca, que é controlada por Erdogan, a sua influência é enorme. Enquanto organizações de mesquitas controladas tentam exercer influência política, a mídia crítica vai enfrentar dificuldades para se fazer ouvir. Isso significa que milhões de pessoas na Alemanha estão sendo soterradas com a propaganda desumana de Erdogan. E o governo alemão não está dando atenção a isso.

O que Erdogan ganha com o fato de contar com apoiadores na Europa e na Alemanha?

Primeiro, Erdogan precisa naturalmente de vozes na Alemanha. Segundo, ele está tentando aumentar o seu peso político. Para isso, ele tenta instrumentalizar pessoas de "origem turca" na Alemanha, para afastar os críticos e para ameaçá-los de maneira efetiva em outros países – como ele já está fazendo.

Isso só é possível por causa do comportamento escandaloso da chanceler federal Angela Merkel, que, ao tentar salvar o seu desgastado acordo entre a União Europeia e a Turquia, está simplesmente olhando para o outro lado e fazendo concessões atrás de concessões.

Você acha que esses estratagemas vão ajudar Erdogan a angariar apoio para a sua sigla, o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), e para suas políticas contra os curdos?

Erdogan negociou com o PKK e depois decidiu romper o processo de paz porque essa era uma medida que se encaixava no seu projeto de presidência ditatorial. Os curdos não quiseram fazer parte desse projeto autoritário. Agora ele tenta criminalizar o pró-curdo Partido Democrático dos Povos (HDP) e tomar o seu lugar para conseguir uma maioria de dois terços e reformar a Constituição. No curto prazo, isso também ajuda a conseguir apoio entre nacionalistas e fascistas. Temo que Erdogan esteja tentando provocar uma guerra civil para manter seu poder intacto. É só uma questão de tempo para que as sementes disso tudo também brotem na Alemanha.

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