A dura realidade das prostitutas na Alemanha | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 23.06.2018
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Sociedade

A dura realidade das prostitutas na Alemanha

Prostituição voluntária é mito, afirma ativista. Ex-prostituta e policial revelam dia a dia de angústia, exploração e direitos negados; cafetões violentos, mulheres tatuadas como gado e bordéis lembrando galinheiros.

Prostituta e cliente em rua de Berlim

Prostituta e cliente em rua de Berlim

Em geral, Julia levava para seu quarto de dez a 12 homens por noite, por vezes até 14, e aguentava firme até as 3 horas da manhã. "Era tudo o que eu conseguia suportar", conta à DW. Outras, as que trabalhavam a noite toda e atendiam a exigências mais incomuns, atravessavam as longas horas graças a um coquetel de álcool e drogas.

A DW não pôde verificar independentemente a história de Julia (nome pelo qual seus clientes costumavam chamá-la), mas ela condiz com os relatos de assistentes sociais e policiais familiarizados com a indústria do sexo. A romena também mostrou fotos de sua época como prostituta, pedindo para não serem divulgadas, nem o seu nome verdadeiro.

Primeiro na rua, depois em casas particulares, bordéis e bares na Suíça, França, Grécia e, finalmente, Alemanha, Julia vendeu o corpo por uma década. Até março de 2018, um dia que ela dificilmente esquecerá: "O cliente me deu 100 euros pela hora, tudo normal. E aí acabou-se."

Foi seu último cliente, seu último dia como profissional do sexo, o último dominado pelo medo constante de não conseguir o suficiente para pagar a diária de 130 euros do quarto no bordel em que trabalhava e vivia. Toda noite, quer estivesse doente, quer a noite tivesse sido boa ou má, ela tinha que entregar o dinheiro, um total de quase 4 mil euros por mês.

E aquele dia foi também o último de um ciclo infinito de noites longas e dias curtos, de sorrisos forçados e falsa alegria.

Por uma vida melhor para os filhos

Quando Julia decidiu entrar para a indústria do sexo, aos 20 e poucos anos, ela sabia que não seria fácil, "mas foi muito mais duro do que eu pensava". Ela fez a opção porque "queria uma vida melhor para os meus filhos". O primeiro, ela tivera o aos 14 anos, e deixara a escola ainda adolescente.

Uma foto antiga, levemente granulada, em seu celular mostra uma mulher de cabelos oxigenados, saltos altos e roupa de baixo provocante, posando num saguão muito iluminado. Julia reluta em explicar por que guardou as imagens consigo. "Eu era novinha", diz, quase se desculpando.

É difícil conciliar as fotos antigas com a mulher no centro de aconselhamento para operárias do sexo, naquele dia quente de maio, na cidade industrial de Stuttgart, sul da Alemanha. Aboletada num sofá, maquiagem discreta, blusa de xadrez abotoada, ela fala com eloquência e tranquilidade sobre sua passagem pela prostituição e por que decidiu abandonar a profissão.

Profissionais do sexo são também engrenagem em máquinas multinacionais de exploração

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"Nada além de estupro"

A certa altura, Julia se deu conta que, apesar de trabalhar quase toda noite, não conseguia pôr de lado quase nenhum dinheiro para si e seus dois filhos. Ataques de pânico começaram a assomá-la quase diariamente. "Às vezes tenho que tomar Xanax", um medicamento contra ansiedade.

Ataques de pânico, depressão e insônia são sintomas usuais da profissão, confirma Sabine Constabel, diretora da organização Sisters, que se propõe ajudar mulheres a abandonarem o comércio sexual, assistindo-as na procura de um lugar para morar e pagando suas despesas até terem obtido autonomia.

Mulheres como Julia não têm direito à previdência social do Estado alemão, por nunca terem pagado impostos. "No máximo elas recebem um vale-transporte", observa Constabel. Para ela, o trabalho com sexo não passa de "estupro", uma palavra que repete constantemente. "O comércio transforma as mulheres em mercadoria, elas não são nada além de lixo."

Constabel e sua organização advogam a interdição total do trabalho sexual. Mulheres e homens que entram voluntariamente nesse ramo não passariam de um mito, de propaganda espalhada por grupos de lobby sustentados pelos proprietários de bordéis, critica.

Fluxo constante para a indústria

A visão de Sabine Constabel é controvertida: outras organizações de apoio a profissionais do sexo na Alemanha distinguem entre atividade sexual voluntária e prostituição forçada. Os legisladores do país igualmente fazem essa distinção.

O comércio do sexo foi oficialmente reconhecido como profissão em 2002. Teoricamente, mulheres e homens podem se registrar como trabalhadores sexuais e contribuir para o sistema de previdência social – coisa que, até agora, apenas uma minoria faz. Uma lei de 2017 também prescreve que bordéis e prostitutas sejam mais bem monitorados.

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Uma coisa é certa: há um contingente constante de mulheres entrando para o ramo. Quando a Sisters ou uma outra organização ajuda uma a começar vida nova, outra rapidamente toma seu lugar. "É terrível. O espaço é imediatamente assumido por outra mulher", conta Constabel, para quem a pobreza é a causa principal que impele à prostituição.

É impossível dizer quantas mulheres e homens trabalham como operários do sexo na Alemanha. Podem ser centenas de milhares, talvez até 400 mil, uma cifra citada repetidamente pelos assistentes sociais. Não há estimativas oficiais, e apenas em 2017 o governo do país resolveu coletar dados a respeito.

Certo está, contudo, que a maioria das prostitutas vem do Leste da Europa, sobretudo dos dois países mais pobres do continente, Romênia e Bulgária. Segundo dados divulgados pela Comissão Europeia no fim de 2016, a renda mensal média dos romenos é de 480 euros, com amplas discrepâncias regionais.

Marcadas como gado, trabalhando em baterias

Julia confirma que, trabalhando como prostituta, conseguia mandar mais dinheiro para sua família do que jamais teria sido capaz de ganhar na Romênia. Uma parcela menor das profissionais vem da África, muitas da Nigéria.

Mas os bordéis não se enchem sozinhos. Wolfgang Fink, do Departamento Estadual de Investigações (LKA) de Baden-Württemberg, explica que também responsáveis pelo constante fluxo de "carne fresca", são muitas vezes membros de gangues criminosas e frequentemente violentas, como os Hells Angels ou United Tribuns.

Fink, que há uma década investiga o ramo do sexo nesse estado do Sul alemão, viu os nomes de alguns desses homens tatuados nas costas e pernas de prostitutas, em enormes letras pretas, marcando-as como sua propriedade. Ele descreve os bordéis como "gaiolas em bateria", análogas às usadas para confinar galinhas poedeiras.

Ele descreve o calor abafado e a luz artificial, com mulheres desfilando em trajes sumários, sem nem saber se do lado de fora chove ou faz sol. "Elas quase nunca saem do bordel. Eu conversei com gente que nem sabia que estação do ano era."

É palpável a raiva e a repulsa do policial contra os proxenetas. Muitas vezes eles enredam as jovens, fingindo amá-las e querer seu bem, para mais tarde partir para a violência. Fink sabe de histórias de mulheres que foram espancadas até a morte, de tios, até irmãos que atraem e depois forçam suas familiares a irem vender o corpo.

Muitas vivem nos bordéis em regime de semiescravidão

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Seu chances diante da Justiça

Tão grande é o controle dos cafetões sobre as prostitutas, que poucas ousam testemunhar em juízo contra eles. Sem seus depoimentos, porém, as autoridades não têm como processá-los, e em geral os homens saem livres.

Às vezes um gesto – Fink estala dos dedos, para demonstrar – basta para silenciar as mulheres no tribunal. Outro problema é o comércio do sexo estar se transferindo para a internet, onde é mais difícil investigar.

O trabalho de Fink não é apresentar soluções, mas ele tem refletido sobre a questão. Prostituição é legal na Alemanha para maiores de 18 anos, mas ele está convencido que é cedo demais: "Veja, elas são jovens, basicamente ainda meninas. Elas não compreendem no que estão se metendo."

O agente da lei não defende que a atividade seja necessariamente criminalizada, mas as trabalhadoras deveriam poder ficar com o dinheiro que ganham, em vez de dar a maior parte para os cafetões.

Julia insiste que nunca teve um proxeneta, apesar de vários terem se aproximado dela, oferecendo-se como "protetores", e que tampouco sofreu violência. Isso faria dela uma rara exceção entre as estrangeiras no ramo. "É praticamente impossível vir para cá independentemente", comenta Wolfgang Fink.

O prazer da normalidade

Olhando para trás, a romena afirma que não optaria novamente pela prostituição. Ela adora ser "normal", diz, sorrindo ao lembrar como jogou fora as roupas extravagantes que costumava usar, a lingerie e os saltos altos, e comprou blusas, saias longas, sapatos práticos: "Me senti tão bem."

Em breve, espera poder passar do estágio que está fazendo numa companhia de limpeza para um emprego regular, a fim de achar um apartamento próprio e finalmente viver com seus dois filhos.

Julia também tem planos de mais longo prazo: inscrever-se num curso de alemão e fazer a formação de enfermeira para idosos, ou talvez trabalhar num salão de manicure. E quem sabe, sorri, talvez tenha a sorte de encontrar um homem que a ame "do jeito que eu sou".

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