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A Alemanha um ano após o atentado de Berlim

Uta Steinwehr ca
19 de dezembro de 2017

Há um ano, impressão era de que ataque deixaria cicatrizes duradouras na sociedade alemã. Mas, após a indignação inicial, tragédia caiu de forma relativamente rápida quase em esquecimento.

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Deutschland Weihnachtsmarkt Breitscheidplatz
Blocos de concreto no mercado de Natal da praça Breitscheidplatz em BerlimFoto: Imago/epd/R. Zoellner

Pouco depois do ataque que deixou 12 mortos num mercado de Natal em Berlim, em 19 de dezembro de 2016, o tom na imprensa alemã era: a mentalidade do povo vai mudar. "As pessoas vão adaptar o seu comportamento, tornar-se mais reservadas, não vão se atrever a fazer muitas coisas, vão estar menos dispostas ao risco e preferir antes o conhecido ao desconhecido." O jornal Süddeutsche Zeitung temia cicatrizes duradouras – "que nós alterássemos não somente a nossa visão sobre situações cotidianas, mas também sobre as pessoas que nos rodeiam."

Ursula Münch é diretora da Academia de Educação Política em Tutzing, na Baviera, e professora de ciências políticas na Universidade da Bundeswehr (Forças Armadas alemãs) em Munique. Ela recorda ter falado na noite do atentado: "Isso vai servir principalmente aos populistas da AfD [Alternativa para a Alemanha] e vai influenciar em grande escala a discussão em nível federal."

Um ano depois, ela admite ter errado: "O debate esteve longe de se firmar a longo prazo. Tive a impressão de que, após a indignação inicial, o atentado caiu de forma relativamente rápida quase em esquecimento na opinião pública em geral."

De acordo com a cientista política, duas posições saíram fortalecidas no debate público: a daqueles que queriam instrumentalizar o ataque para "alimentar um pouco mais o clima contra os refugiados". E a daqueles que querem promover a integração para não incentivar a radicalização. Ambas as posições já existiam anteriormente.

Essa opinião é compartilhada por Pascal Thibaut. O jornalista francês vive há 27 anos em Berlim onde é correspondente da emissora Radio France Internationale (RFI) já há 20 anos. Em 19 de dezembro de 2016, ele fez a cobertura do atentado para a emissora internacional francesa. Sua impressão: "A população permaneceu relativamente relaxada."

Mas o atentado deu força ao debate em torno do perigo do islamismo radical, observa Thibaut: "E para alguns, também o perigo do islamismo em geral, quando se vê na própria religião uma ameaça." Para ele, no entanto, o ataque à feira de Natal não é a única razão para tal. Já os acontecimentos na estação ferroviária central de Colônia, no réveillon de 2015/2016, prepararam um terreno fértil.

Mais medo do terrorismo?

Segundo pesquisa da seguradora R+V, 71% dos alemães entrevistados neste ano disseram estar com muito medo de que "grupos terroristas pratiquem ataques." No entanto, é questionável que isso tenha a ver com o atentado terrorista de Berlim. Em 2016, essa cifra perfazia dois pontos percentuais a mais.

Além disso, a pesquisa de opinião tem algumas deficiências. Os entrevistados tiveram que responder um catálogo definido de fatores de medo. Muitos temores reais, como um acidente, incêndio no apartamento ou morte não faziam parte do questionário. "O transito é mais perigoso do que ser morto por um ataque terrorista num mercado de Natal", diz a cientista política Münch.

Os dados de longo prazo confirmam a avaliação de Münch: o medo latente do terrorismo aumentou desde os ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York, sem nunca mais ter voltado ao nível anterior. De acordo com a avaliação de Münch, o fator decisivo não é um ataque terrorista isolado. Mais importantes seriam os diferentes eventos, também em outros países. "Estes criam uma atenção que não existia antes dos atentados em Nova York. A vida no Ocidente mudou desde o 11 de Setembro", observa a professora.

Especialmente nos últimos anos, isso também pôde ser visto nas ruas: policiais carregando metralhadoras, blocos de concreto protegendo áreas de grandes eventos, pessoal de segurança revistando mochilas e bolsas em shows.

"Aparentemente, as pessoas se sentem mais seguras por terem confiança nisso", aponta Münch, acrescentando que, por outro lado, toda medida de precaução faz com que a questão da segurança fique perceptível para todos e, assim, também o tema da insegurança. "Isso sempre nos lembra de que se trata de algo muito ameaçador, segundo o lema: 'Mesmo uma visita ao mercado de Natal é perigosa'."

Menos que na França

Em comparação com a França, os controles de segurança ruas alemãs teriam continuado "razoáveis", comenta Thibaut. "Na França existem muitos mercados de Natal, com entradas fixas e onde cada bolsa é controlada." Embora haja blocos de concreto na igreja Gedächtniskirche, em Berlim, ali ninguém é controlado, diz o jornalista. "A Alemanha ainda não foi – felizmente – atingida da mesma forma que a França."

"As pessoas estão muito relaxadas", afirma Thibaut sobre os berlinenses. "Eles visitam os mercados de Natal como de costume e, quando perguntados, dizem não se sentir inseguros e não querer que os terroristas consigam uma vitória com a disseminação do medo."

Thibaut lembra que um representante da prefeitura distrital de Charlottenburg, responsável pela área do mercado de Natal na praça Breitscheidplatz, afirmou na abertura da feira natalina: "Vocês sabem, qualquer um pode vir aqui com uma mochila cheia de explosivos e não podemos fazer nada contra isso". Assim, é preciso continuar realista, afirma o correspondente da RFI.

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