Violência xenófoba contra moçambicanos faz um morto em Joanesburgo | Moçambique | DW | 03.08.2020

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Moçambique

Violência xenófoba contra moçambicanos faz um morto em Joanesburgo

Um imigrante moçambicano morreu e pelo menos 18 pessoas também de nacionalidade moçambicana ficaram desalojadas por alegada violência xenófoba no leste de Joanesburgo, África do Sul, que eclodiu na semana passada.

Pola Park é uma área do bairro de Tokoza, em Joanesburgo (foto de arquivo)

Pola Park é uma área do bairro de Tokoza, em Joanesburgo (foto de arquivo)

"Houve um moçambicano que foi morto, queimaram tudo o que tinha, e levaram tudo, todos os moçambicanos ficaram sem nada", relatou o imigrante moçambicano David Machava em declarações à agência de notícias Lusa. "Ele morreu anteontem [sábado], quando eles entraram aí a bater em Tokoza Pola Park", adiantou David Machava, que vive na África do Sul desde 1987, onde constituiu família com oito filhos.

Segundo o imigrante, a maioria dos moçambicanos afetados pela recente onda de violência xenófoba residem em Pola Park, uma área do bairro de Tokoza vizinha a Katlehong. "Pode chegar a 18 moçambicanos, porque há muitos a viverem aqui em Pola Park", contou Machava.

"Pediram documentos, bateram-me à queima-roupa, um outro moçambicano abandonou a casa dele porque lhe disseram que o iam matar e eu também estou a procurar outro sítio", declarou. "Viraram-me o carro que estava estacionado", referiu ainda o imigrante.

Ataques violentos desde a semana passada

Por seu lado, José Sobrinho, 37 anos, natural de Chokwé, distrito de Gaza, sul de Moçambique, disse à Lusa que o seu negócio de reparação de televisores não sobreviveu aos ataques violentos. "Destruíram os televisores que eram dos meus clientes", adiantou, sublinhando que "a situação já está mais calma hoje, mas o que era dos clientes ficou destruído".

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Moçambicanos protestam contra xenofobia na África do Sul

José Sobrinho contou que abriu o negócio de reparação de televisores no bairro de Tokoza, em 2016, embora tenha imigrado para a África do Sul em 2007. "Tenho quatro filhos, até a minha esposa não está bem [de saúde] devido a uma queda e estou a preparar dinheiro para lhe enviar porque está hospitalizada [em Moçambique]", declarou o imigrante moçambicano, que procura agora refazer a sua vida.

A violência xenófoba contra imigrantes moçambicanos em Tokoza, referiu José Sobrinho, eclodiu na passada terça-feira (28.08) e só viria a dissipar-se no domingo (02.08) após a intervenção do exército sul-africano e do ministro da Polícia, Bheki Cele.

"Foi quase toda a semana, porque começou na terça e na sexta-feira e no sábado [a violência] piorou, há muitos moçambicanos afetados e ontem [domingo] apareceram os militares e o ministro da Polícia Bheki Cele esteve cá, e essa guerra parou. A situação ainda está calma", disse José Sobrinho.

Casas e lojas vandalizadas

O moçambicano referiu que os responsáveis, de etnia AmaXhosa, justificaram a violência contra os imigrantes moçambicanos e a vandalização das suas casas e lojas alegando "falta de eletricidade" no bairro de Tokoza há três semanas. "Mas depois começaram a dizer que todos os estrangeiros têm de sair do país, e aí começaram já a entrar nas lojas e nas casas, tiraram coisas, mobílias e queimaram tudo. Basta ser estrangeiro e ter uma loja, que eles entram e destroem tudo", adiantou.

Questionado pela Lusa sobre os motivos da recente onda de violência xenófoba, este imigrante moçambicano sublinhou: "O problema é que nós aqui trabalhamos, estamos em 'lockdown' devido a essa pandemia do novo coronavírus, mas conseguimos colocar pão na mesa, e eles não fazem nada, dependem do Governo, enquanto nós fazemos pela vida. Esse é o problema", disse José Sobrinho. 

Contactada pela Lusa, a esquadra de Polícia em Tokoza remeteu esclarecimentos para o comando da Polícia sul-africana (SAPS, na sigla em inglês) na província de Gauteng que não respondeu ao pedido até ao momento. 

Em 2019, o distrito de Ekhuruleni, onde se situa o bairro de Tokoza, foi um dos focos de saques de violência xenófoba que atingiu o país em setembro, forçando cerca de 1.500 estrangeiros africanos a abandonarem a África do Sul. Cerca de 800 pessoas, na sua maior parte originária de Moçambique, Malawi e Zimbabué, procuraram refúgio em salas comuns no bairro de Katlehong, vizinho a Tokoza, a cerca de 35 quilómetros a leste de Joanesburgo, referiu o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Mais de 11 pessoas morreram e cerca de 500 foram detidas pela polícia sul-africana em setembro de 2019 durante uma onda de violência xenófoba, pilhagem e destruição de vários negócios, na maioria de imigrantes estrangeiros na província de Gauteng, a mais populosa da África do Sul.

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