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EducaçãoAngola

Umbundu, uma língua nacional em declínio em Angola

Daniel Vasconcelos (Benguela)
21 de fevereiro de 2021

Umbundu é a segunda língua mais falada em Angola, mas o seu uso tem sido restrito. Académicos defendem maior valorização e introdução da língua nacional no currículo das escolas a todos os níveis para que não desapareça.

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Angola | Coronavirus | Schule in Bengo
Foto: António Ambrósio/DW

O acadêmico João Baptista, especialista em ensino da Língua Portuguesa e da Língua Umbundu, chama à atenção o Governo angolano no sentido de implementar a aprendizagem de línguas nacionais a todos os níveis, para que este valor cultural e tradicional não seja perdido.

"Dê um tempo a esta parte, via-se implementado o ensino das línguas nacionais no ensino primário. Foi [implementado] na primeira classe, para a segunda classe já não foi possível. Pedimos, como se fosse uma sugestão, para dar continuidade nesse projeto no sentido de valorizar mais as línguas nacionais no seio da população, da juventude," apela.

A pouca fluência em Umbundu no seio da juventude de Benguela poderá ter consequências culturais que seriam notadas nas próximas gerações. Mas o docente universitário Edmundo Salupula destaca o que chama de descredibilização das línguas nacionais, que também contribuiria para o desuso gradativo do Umbundu.

Trata-se de um processo que teria começado há séculos, com a chegada do colono português a Angola.

"Sabemos que Angola teve mais de 500 anos de colonização e tudo o que foi feito é no sentido de descredibilizar as línguas nacionais. Porque, se essas línguas desaparecem, se essas línguas entrarem extinção, nós estaremos a perder elementos ou traços culturais que nos identificam," avalia.

Idioma em declínio

O Umbundo é falado nos círculos familiares e na zona rural, de acordo como o estudante Fernando Borges. Aos 29 anos, Borges domina o idioma tradicional e explica que hoje o uso do Umbundu já está a ser restrito a circunstâncias especiais.

David Cambulo | Polytechnisches Institut von Lobito
David Cambulo, presidente da Associação de Pais Encarregados de Educação do Instituto Politécnico do Lobito, David CambuloFoto: Daniel Vasconcelos/DW

"O Umbundu hoje é falado quando recebemos visitas do interior, pessoas quem vêm do interior. Não que elas não sabem falar português, elas falam e dominam português, mas ainda sim, procuram transportar os hábitos e costumes do interior para a nossa cidade," revela.

O estudante Vitorino de Oliveira opina que o futuro do Umbundu no seio da juventude benguelense é incerto. Segundo Oliveira, a língua estaria em declínio devido a uma onda de preconceito e discriminação.

"Quando você fala Umbundu, você é descriminado porque acham que é do mato, não é sábio e chamam lhe nomes," lamenta.

Já o técnico em Engenharia Mecânica Jaime Kataca diz que a aculturação é um dos fatores que tem estado a contribuir para o desaparecimento da língua.

"É mais fácil, na nossa localidade, encontrarmos alguém que fala fluentemente o Inglês ou o Francês, do que alguém que fala fluentemente o Umbundu," garante.

Valorizar o património cultural

O presidente da Associação de Pais Encarregados de Educação do Instituto Politécnico do Lobito, David Cambulo, tem uma perspetiva diferente sobre o idioma português. Para Cambulo, a língua de origem europeia acabou por impulsionar a união de pessoas de culturas diferentes. Ele destaca, no entanto, que, no passado, quem falava o idioma tradicional era visto como analfabeto.

"Ao nível nacional, temos muitas línguas. O Português é uma língua que nos une, é uma língua que acaba por dar um suporte de gestão, que acaba por nos unir mais. Quem fala Umbundu era visto, se calhar, como um analfabeto," considera.

Por outro, o linguista João Batista, especialista em ensino da Língua Portuguesa e da Língua Umbundu, faz um apelo para que não somente a sociedade benguense, mas também os angolanos em geral, redobrem os esforços na valorização do património cultural.

"Há necessidade de a juventude valorizar cada vez mais as suas línguas, as línguas de Angola, as línguas africanas. Muitos dos nomes têm a significação cultural. Por exemplo, um nome chamado "Ngueve, Njamba", nós dizemos Jamba. Não é Jamba, é Njamba. Isto aqui não é português, é Umbundu.

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