Teatro Avenida e Tri-Bühne: uma relação multilingue | MEDIATECA | DW | 07.12.2012

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MEDIATECA

Teatro Avenida e Tri-Bühne: uma relação multilingue

De Moçambique para a Alemanha. Teatro Avenida, de Maputo, apresenta peça de Henning Mankell no Festival da Tri-Bühne e comemora o quinquagésimo aniversário da Acção Agrária Alemã.

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Dois elementos do grupo Mutumbela Gogo, do Teatro Avenida, o teatro mais conhecido de Moçambique, estão na Alemanha. Manuela Soeiro, fundadora do teatro, e Lucrécia Paco, uma das atrizes mais conhecidas do Mutumbela Gogo, participam nas comemorações do quinquagésimo aniversário da Acção Agrária Alemã, "Deutsche Welthungerhilfe".

A organização não-governamental alemã comemora o seu aniversário no dia 14 de dezembro, em Berlim. Mas as duas já estão na Alemanha há mais tempo [desde o dia 20 de novembro].

DW África: Qual é o motivo desta viagem à Alemanha?

Manuela Soeiro (MS): Viemos ao Festival da Tri-Bühne, em Stuttgart, para apresentar uma peça de teatro na qual a Lucrécia é atriz e o Henning Mankell fez o texto. Já há longos anos que temos vindo a trabalhar com o Tri-Bühne teatro.

DW África: Podem contar-nos como surgiu este contacto com o teatro Tri-Bühne e como é que se mantém até hoje? Têm algum segredo?

MS: O segredo é que a Edith [Koerber] e o Géza [Révay], que são os diretores deste teatro, foram a Moçambique porque aqui tinha acontecido qualquer coisa não muito boa, que foi a morte de um moçambicano por "skinheads". E, portanto, eles queriam resgatar este moçambicano, contando a sua história. E foram a Moçambique porque sabiam que o Henning Mankell estava lá, para ver se era possivel, com atores moçambicanos e atores da Tri-Bühne, fazer-se uma co-produção. Então, o Henning veio cá para conhecer bem a história, a própria Edith, lá, também conheceu mais pormenores da família desta pessoa e, então, começámos os primeiros contactos. A relação com a Edith foi muito boa, muito interessante e começámos de facto a preparar a peça.

Dois atores vieram aqui à Alemanha, a Stuttgart, e foram preparados com outros atores alemães. Nessa altura, a Edith descobriu uma forma de fazer uma tradução - porque os nossos atores iam falar em português e os daqui falariam em alemão. Dois atores suplentes, duma forma muito criativa, faziam a tradução quando os moçambicanos falavam em português, tomavam uma ação no palco e havia um entendimento global da peça. E isso foi um aspeto muito criativo.


DW África: Lucrécia Paco, quando apresenta as peças aqui na Alemanha, continua a ter um ator/atriz suplente, neste modelo?

Lucrécia Paco (LP): Não, eu pessoalmente não trabalhei nesses moldes. Devo dizer que a primeira criação em que pude participar no Tri-Bühne foi "Sugar Wife" e nessa peça eu falava inglês. Era uma peça escrita por Liz Kuti e eu tive que a interpretar em inglês, com as legendas em alemão. Nós sabemos muito bem que há uma grande maioria que percebe bem o inglês, então foi uma forma diferente de tradução. Mas nunca deixei de falar a minha língua, que é o português, e o ronga, neste caso. E a Edith tem esta particularidade, ela gosta muito de trabalhar com as línguas, tanto mais que a última criação que nós fizemos era uma peça toda falada em alemão, inglês, francês, ronga.

Fazer esta viagem através da língua, conhecer o país, não só a sua musicalidade, a sua melodia, o "falar", também penso que é interessante. É o que eu também sinto, quando vejo um alemão ou um ator a interpretar numa língua que não seja a minha. Às vezes é possível perceber - a partir do momento em que sabemos qual é o assunto que é tratado - porque nós somos seres humanos e é possível fazer passar as nossas emoções num palco, independentemente de sabermos ou não aquela palavra. E isso também é bonito de se ver.

DW África: Como tem sido, em geral, nas deslocações ao exterior? Estas línguas estrangeiras em que têm de interpretar colocam uma grande barreira? É como aprender, de novo, a atuar no palco?

LP: Muitas vezes, o aprender de novo passa primeiro por interiorizarmos a língua, porque a nossa língua é aquela do uso, então tudo nos sai espontaneamente. Quando temos de passar da nossa língua para outra há este reaprender, sim. Numa primeira fase pode ser difícil, comos se estivéssemos a gatinhar, mas, a partir do momento em que sabemos de que é que estamos a falar e sabemos que a nossa linguagem corporal, o nosso sentir não deixa de ser o nosso sentir só porque estamos numa outra língua.

Numa primeira fase, na fase da apropriação do texto, é natural que estejamos a aprender de novo mas, a partir do momento em que há esta reapropriação do texto, tudo é fácil. Porque nós não dissociamos o nosso pensar, o nosso falar, daquilo que queremos dizer. E isso também é bom, é gratificante.

DW África: Lucrécia Paco, compara-se à maneira de fazer teatro aqui na Alemanha? Quais são as maiores diferenças, comparando com o trabalho do Mutumbela Gogo, em Maputo?

LP: A maior diferença são os meios. Porque, se nós repararmos, com um teatro como o nosso, seria impensável para um grupo ou companhia alemã pensar fazer uma peça ou criar com estes recursos tão reduzidos. Mas, depois, aquilo que é o trabalho artístico, como eu sempre digo, somos seres humanos, temos "sentires", temos sempre o nosso olhar sobre as coisas. Então, aí, não existem muitas diferenças. Eu penso que são, essencialmente, os meios e as condições de trabalho é que são totalmente diferentes.

DW África: Manuela Soeiro, o teatro Avenida deve ser, provavelmente, um dos teatros africanos mais conhecidos na Alemanha, por causa de uma pessoa que nem é moçambicana: Henning Mankell. Quais foram as portas que o escritor sueco abriu para Mutumbela Gogo e para o Teatro Avenida?

MS: Diria primeiro que o nosso grupo, quando foi formado, tinha um ideal - buscar, dentro - porque nós não tínhamos dramaturgos. Teríamos, sim, mas não como existem aqui na Europa, os chamados clássicos, mas tínhamos personagens e queríamos fazer teatro. Portanto, antes de chegar o Henning, houve do nosso grupo uma grande vontade, uma convicção de fazer teatro. E o teatro tinha de passar pela nossa vivência, pelo nosso quotidiano, pelas nossas personagens. E, por isso, mais tarde, quando o Henning passou por Moçambique, viu e ouviu o nosso grupo e de repente sentiu que era um grupo com o qual gostaria de trabalhar. E disse-me: "Olha, Manuela, eu gostava muito de trabalhar, porque estou a ver uma força tão grande neste grupo que valia a pena trabalhar. Posso vir trabalhar para aqui?".

Pediu condições para ir para Moçambique, continuava a escrever, e, numa parte do dia, dedicava-se a nós. E, francamente, nós tínhamos a convicção mas não tínhamos técnica, faltavam-nos algumas ferramentas. Mesmo o grupo, a partir do momento em que entrou, tinha que ir para a escola de línguas, porque nós queríamos também conhecer o mundo. E o Henning todos os anos ia montando uma peça connosco e foi assim que cresceu, até hoje, a nossa amizade. E devo confessar que o Henning também teve um papel mas, não estou a reivindicar, antes do Henning, o grupo já tinha aberto algumas portas. Com a ajuda dele foram-nos abertos muitos locais, mas o próprio grupo tinha esta força.

DW África: Não desejavam ter um maior reconhecimento internacional desse esforço do próprio grupo? Às vezes lê-se em alguns artigos aqui na Alemanha "o teatro do Henning Mankell", quando, na verdade, ele trabalha com vocês mas não é o dono do teatro nem o seu fundador. Lucrécia Paco, não gostariam de sair um pouco desta sombra?

LP: O que é que sai primeiro, o ovo ou a galinha? Eis a questão. Nós começámos, sim, mas é verdade que, com o Henning, crescemos como instituição. Este reconhecimento que se tem, não vou dizer que é só graças a ele, porque se nós não valêssemos nada ele também não estava connosco. Eu penso que essa questão não se coloca, é o mesmo que estarmos a perguntar se vem primeiro a galinha ou o ovo.

O Henning é nosso, nós fundámos com ele o Mutumbela Gogo, o teatro que nós fazemos. Com ele demos os primeiros largos passos, posso dizer assim, ele também possibilitou que houvesse pessoas que viessem fazer estágios connosco. Esta disponibilidade que ele tem para connosco faz de nós aquilo que nós também somos. Por isso eu penso que não é uma questão que se coloque assim tanto.

Autor: Johannes Beck
Edição: Maria João Pinto/António Rocha