Sociólogo moçambicano analisa ″papel das mulheres no conflito em Cabo Delgado″ | Moçambique | DW | 08.06.2021

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Moçambique

Sociólogo moçambicano analisa "papel das mulheres no conflito em Cabo Delgado"

Mulheres raptadas por terroristas assumem funções de destaque nas operações militares, não somente como combatentes, mas também como espiãs. Relatório aponta que algumas foram coagidas, mas outras atuam por convicção.

O facto consta de um relatório da ONG "Observatório do Meio Rural" (OMR), intitulado "O Papel das Mulheres no conflito em Cabo Delgado: Entendendo Ciclos Viciosos da Violência". Em entrevista à DW África, o autor, João Feijó, fala sobre a relevância das mulheres entre os insurgentes:

DW África: Qual é a relevância das mulheres entre os insurgentes?

João Feijó (JF): Homens e mulheres são alvos desta guerra. Todos são roubados, todos acabam por ter o seu património destruído e todos acabam por sofrer com a guerra. Mas o impacto é, de facto, diferenciado: enquanto os homens são de facto vítimas de violência e de assassinatos, as mulheres são um pouco poupadas à morte e são geralmente raptadas - quer para assumirem depois funções como esposas, como observadoras ou espiãs, mas também algumas como combatentes ou como objetos no tráfico de mulheres. As crianças também são alvos de raptos, sobretudo pré-adolescentes e adolescentes, para depois terem a função de crianças-soldado. Portanto, são formados, são doutrinados, radicalizados e depois também lhes  é dado algum treino militar para participarem na guerra.

Mosambik I Tausende Vertriebene fliehen vor den Angriffen in Cabo Delgado

Sociólogo João Feijó fez um estudo sobre o papel das mulheres raptadas pelos insurgentes

DW África: Já há mulheres a assumir a liderança nas operações?

JF: Normalmente as funções de liderança são assumidas por homens, não obstante terem sido identificadas algumas mulheres a participarem nos ataques, inclusivamente com algumas funções de comando. Mas as funções delas são geralmente mais invisíveis, trabalhando como esposas e como mães educadoras dos mais jovens, ou também como observadoras e espiãs, infiltradas para fornecimento de informações.

DW África: A mulher atua por coação ou por convicção neste conflito?

JF: A fronteira entre a convicção e a coação é muito estreita. Não é fácil de perceber essa diferença. De qualquer das formas, algumas mulheres aderem porque são obrigadas. Não constitui propriamente uma opção para elas. Elas são raptadas. Outras agem por oportunismo, porque identificam ali vantagens pontuais em termos económicos ou em termos de segurança. Outras envolvem-se por revolta, pelo facto de terem sido vítimas de injustiças ou terem percebido que alguns familiares foram vítimas de injustiças, e outras mesmo por convicção. É, portanto, um fenómeno muito heterogéneo.

DW África: Terão essas mulheres mais facilidades de recrutarem outras?

JF: Homens e mulheres participam no recrutamento. Estes grupos dão importância ao recrutamento. Algumas mulheres assumem essa função de recrutadoras, salientando as vantagens que existem do lado do mato: alegam que lá não faltará comida, que lá serão bem tratadas, enquanto que no local onde estão correm o risco de vida. Desta forma incentivam as mulheres a aderirem.

DW África: O que o faz suspeitar que os terroristas traficam as mulheres sequestradas?

JF: De facto houve um caso de mulheres que conseguiram escapar - um episódio a seguir ao assalto em Mocímboa da Praia, algumas jovens que foram raptadas depois de participarem num processo de triagem. Algumas foram mesmo encaminhadas para a Tanzânia, alegadamente para irem aprender inglês. É uma história que num contexto de guerra parece um bocado estranha e que parece mais ser um eufemismo para designar o fenómeno de tráfico de mulheres. Estas rotas de tráfico de mulheres já existem há muito tempo na região, quer de Moçambique para a África do Sul, quer para o Malawi e outros países. Os insurgentes provavelmente apenas vieram explorar redes de tráfico que já existiam antes deste conflito.

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