″Sem surpresas″, eleições em Angola desaparecem da imprensa alemã | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 08.09.2012

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Internacional

"Sem surpresas", eleições em Angola desaparecem da imprensa alemã

Matérias ficaram mais escassas uma semana depois das eleições gerais angolanas. "Retorno" de portugueses em crise às ex-colónias africanas e Jogos Paralímpicos entre os destaques dos jornais e revistas alemães.

Afropresse

Afropresse

Uma semana depois das eleições gerais em Angola, realizadas a 31.08, as matérias sobre o pleito na imprensa alemã rareiam à espera da divulgação dos resultados oficiais e definitivos do escrutínio.

O artigo mais atual apurado pela DW África sobre o escrutínio data de 04.09 e foi publicado no jornal suíço de língua alemã Neue Zürcher Zeitung (NZZ). O texto, factual, aponta para a "vitória de José Eduardo dos Santos em Angola" e diz que a oposição fala de fraude eleitoral.

"Segundo o resultado intermediário divulgado pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), que dá conta de 91% dos círculos eleitorais, o MPLA [partido no poder] liderado por José Eduardo dos Santos obteve 72% dos votos válidos, claramente menos que em 2008, quando o presidente angolano conseguiu 82%", constata o diário suíço. "Mas o número ainda é suficiente para que o atual partido no poder domine o parlamento e consiga nomear o presidente. Segundo a Constituição angolana revisada em 2010, o cargo de chefe de Estado cabe ao líder do partido mais forte no parlamento. Não há mais eleições presidenciais diretas", relata o texto.

José Eduardo dos Santos (MPLA) no dia da eleição: presidente angolano enfrenta cada vez mais resistência da população

José Eduardo dos Santos (MPLA) no dia da eleição: presidente angolano enfrenta cada vez mais resistência da população

O NZZ ainda cita o Jornal de Angola, que se refere às palavras do ex-presidente cabo-verdiano Pedro Pires (que chefiou a missão de observadores da União Africana) sobre o decorrer "livre, justo, transparente e credível" das eleições gerais angolanas. "A UNITA [maior partido de oposição em Angola e segundo colocado no escrutínio] disse exatamente o contrário. O histórico rival do MPLA, que depois das fraudes da eleição de 1992 voltou aos próprios territórios originais no centro do país e retomou a guerra civil, anunciou ter um dossiê com provas de que desta vez também houve fraude", relata o diário com sede em Zurique, que ainda aponta para a discrepância entre os resultados divulgados e os fornecidos pelos funcionários regionais à central da CNE na capital angolana, Luanda. O NZZ ainda lembra que Estados Unidos e União Europeia não enviaram observadores para as eleições angolanas de 2012.

Resultado sem surpresas em 2012

Na mesma tônica, o diário alemão Süddeutsche Zeitung destacou o "resultado sem surpresas" da eleição em Angola, citando a 03.09 que mais de três quartos dos votos haviam sido contados. Também o Süddeutsche Zeitung lembrou que a UNITA pediu para adiar a eleição porque não considerou o processo eleitoral suficientemente transparente. "Segundo críticos, alguns eleitores registrados não tiveram permissão para votar. Outros nem foram às urnas por já não esperarem um processo e um ato eleitoral 'limpos', escreveu o jornal.

O Süddeutsche Zeitung ainda lembra que, sob a égide do "antigo marxista [José Eduardo] dos Santos", Angola subiu à posição de terceira economia da África, impulsionada especialmente pelos recursos petrolíferos. Depois da Nigéria, Angola é o segundo maior exportador de petróleo do continente. Mas o crescimento econômico beneficia apenas a uma magra elite, a maior parte dos angolanos continua a viver numa profunda pobreza: mais da metade da população, por exemplo, não tem acesso à água potável".

O jornal ainda cita o índice de corrupção da organização Transparência Internacional, no qual Angola ocupa o 168º lugar entre 183 países.

"Provavelmente como reação à crescente indignação da geração mais jovem, dos Santos se esforçou para construir uma imagem mais moderna. Na televisão e na internet, mostrou-se sorridente, com camisas coloridas e bonés de beisebol", avalia o Süddeutsche Zeitung, que ainda recorda que, "em janeiro de 2012, dos Santos nomeou o seu confidente e antigo chefe da empresa petrolífera estatal Sonangol, Manuel Vicente, como seu vice-presidente. Observadores veem nesta ação um indício de que dos Santos está preparando a saída do poder".

Resultado das eleições angolanas de 2012 foi sem surpresas, destacam jornais alemães

Resultado das eleições angolanas de 2012 foi "sem surpresas", destacam jornais alemães

"Mais um mandato para o presidente do petróleo"

É o título do diário de negócios alemão Handelsblatt, que escreve que "a riqueza de recursos e a opressão garantem mais um mandato presidencial a José Eduardo dos Santos, há 33 anos no poder".

"Chama a atenção quando, no continente africano marcado por crises, um país é comparado à metrópole econômica de Dubai [nos Emirados Árabes Unidos]. Mas, no caso de Angola, há um bom motivo para a comparação: como o emirado, o país africano é construído sobre o petróleo, produz cerca de 2 milhões de barris de crude por dia e, com esse número, poderia logo ultrapassar a Nigéria, maior produtor da África", escreve Wolfgang Drechsler.

Drechsler projetou que a vitória – "certa" do MPLA – teria uma percentagem menor que os 82% conseguidos pelo partido em 2008. Mesmo sem surpresas, cita o jornal, "José Eduardo dos Santos, de 70 anos e 33 no poder em Angola, confronta-se pela primeira vez com protestos contra a distribuição totalmente desigual das riquezas provenientes do petróleo e dos diamantes do país".

Apesar das críticas, "o regime aponta, por seu lado, para os avanços na economia. [Mas] o retrocesso no preço do petróleo esfriou a conjuntura angolana, e a economia não cresceu nem 3%. Assim, aumenta a pressão contra o regime de concretizar reformas políticas prometidas e criar mais liberdades. Até agora, no entanto, o governo angolano se recusa – com sucesso – a dar estes passos", diz o artigo.

O retorno de Portugal à África

O diário financeiro Financial Times Deutschland retomou um tema já tratado, nos últimos meses, pela imprensa alemã: a "volta" de portugueses às ex-colônias africanas, como Angola e Moçambique. "Milhares de portugueses encontram um novo futuro em Angola, tornada potência econômica por causa do petróleo", lembra o jornal.

Segundo o FTD, a cada mês, cerca de 500 portugueses se mudam para Angola. O consulado geral de Portugal no país africano dá conta de 130 mil portugueses registrados na representação diplomática. O consulado também espera um crescimento econômico de 8% este ano, enquanto a economia de Portugal vem se retraindo com a crise europeia de endividamento e os consequentes programa de austeridade e aumento do desemprego.

Tanaka Brian Mukura é um bolsista do banco alemão Commerzbank: classe média africana tem mais auto-estima e é motor da economia

Tanaka Brian Mukura é um bolsista do banco alemão Commerzbank: classe média africana tem mais auto-estima e é motor da economia

A reportagem ainda relata que os portugueses levam uma vida isolada em Angola e que grande parte deles mora em bairros fechados, com muros altos, e que "não participam dos debates sociais do país". O que, de acordo com o FTD, faz com que "os netos dos colonizadores – pelo menos entre os angolanos com posses – sejam bem-vindos". O jornal cita ainda o ex-primeiro-ministro Marcolino Moco, que diz que "Angola é suficientemente grande para todos. Ficamos com grandes problemas quando os portugueses foram, após a independência, em 1975. Precisamos das capacidades".

O outro lado da moeda, diz o Handelsblatt, é a crítica feita pelo ativista de direitos humanos Rafael Marques contra os investimentos angolanos em Portugal: "Enquanto a maior parte da população sofre com a pobreza, Angola ajuda a ex-metrópole com dinheiro roubado", escreve o jornal.

O orgulho de ser africano

O semanário Der Freitag publicou um especial sobre a África na semana que passou, destacando o crescimento econômico no continente e o consequente aumento da auto-estima de uma classe média que "não figura nos veículos de comunicação ocidentais".

Querendo "fugir dos estereótipos da pobreza, de catástrofes e de guerras", a matéria de abertura é um comentário do fotógrafo vietnamita Kiên Hoàng Lê. Ele diz querer mostrar "um outro lado da África que descobri no continente".

Segundo Lê, a classe média africana "tem boa formação. Muitos estudam no exterior e voltam para o país de origem. Aproveitam a economia crescente, são bem informados, exigem participar da política. Essa camada crescente de africanos quer e vai consolidar reformas profundas nos países. Também a Primavera Árabe no norte africano mostrou que as mudanças no interior dos Estados vêm da população", escreve o fotógrafo, que diz que o crescimento econômico contribui para que as pessoas reforcem a auto-estima cultural: "Eles têm orgulho de terem nascido no continente africano", constata.

O fotógrafo ainda diz que a classe média africana "é um motor econômico que fortalece o consumo interno dos países. Apesar de, por vezes, levarem duas horas para chegar ao trabalho por causa dos engarrafamentos, as pessoas têm a possibilidade de escolher onde querem morar, o que fazer no tempo livre, que profissão escolher".

Alan Oliveira (esq.), do Brasil, e Oscar Pistorius, da África do Sul, durante Jogos Paralímpicos em Londres

Alan Oliveira (esq.), do Brasil, e Oscar Pistorius, da África do Sul, durante Jogos Paralímpicos em Londres

Dificuldades nos Jogos Paralímpicos

O jornal conservador Die Welt publicou, como vários veículos da imprensa alemã, artigo sobre os Jogos Paralímpicos e a representação de atletas africanos nos Jogos de Londres 2012. O diário destaca as dificuldades da equipe do Burkina Faso nas provas contrarrelógio de ciclismo com as mãos.

De acordo com a matéria, as dificuldades enfrentadas pelos atletas do Burkina Faso – um dos países mais pobres do mundo – mostra como os problemas dos atletas oriundos de países em desenvolvimento são maiores que as de um atleta com deficiência física, mas que tenha acesso a recursos.

"Quando chegou a Londres, a equipe de cinco pessoas quase não tinha meios financeiros. Aparentemente, a transferência de dinheiro do país africano não deu certo, e eles não puderam ocupar a sede de treinamento em Kent. O Burkina Faso quase saiu dos jogos por causas financeiras, assim como aconteceu com o Maláui e o Botsuana", relata o jornal.

Com a ajuda de um ex-estudante britânico de Cambridge, Conlon, porém, os atletas continuaram nos jogos. Conlon, que já tinha trabalhado no Burkina Faso com uma organização solidária para pessoas com deficiência física, abrigou três dos atletas na casa dos pais e conseguiu com que eles treinassem no terreno de uma escola. O que também teria servido, segundo Conlon, para motivar os alunos com a presença dos atletas.

Autora: Renate Krieger
Edição: António Rocha

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