RENAMO pede disciplina perante violações da trégua em Moçambique | NOTÍCIAS | DW | 09.01.2017

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NOTÍCIAS

RENAMO pede disciplina perante violações da trégua em Moçambique

O porta-voz António Muchanga denuncia "provocações", garante que forças da RENAMO "ainda não reagiram" por ordens de Afonso Dhlakama e questiona a disciplina das forças do Governo e membros da FRELIMO, partido no poder.

Bereitschaftspolizei Mosambik

Veículo das Forças de Intervenção Rápida (foto de arquivo: 2013)

É uma denúncia da RENAMO: o maior partido da oposição em Moçambique está preocupado com "provocações e violações” da trégua de uma semana declarada a 27 de dezembro no país e prolongada por mais dois meses.

Em entrevista à DW África, o porta-voz da RENAMO, António Muchanga, enumera vários incidentes desde o início do ano, incluindo o homicídio de um membro do maior partido da oposição, sequestros, roubos, extorsão e intimidações. Muchanga questiona a disciplina das forças do Governo e dos militantes da FRELIMO, frisando que deveriam respeitar as decisões do Presidente da República, Filipe Nyusi, que assumiu o compromisso do cessar-fogo.

O porta-voz frisa que as forças da RENAMO "ainda não reagiram” às violações denunciadas pelo partido, por ordens do presidente Afonso Dhlakama, e pede o fim das provocações.

DW África: A RENAMO diz estar preocupada com a violação das tréguas declaradas no país. De que forma têm sido violadas estas tréguas?

António Muchanga (AM): Na província de Tete, por exemplo, na localidade de Biribiri, fronteira com o Malaui, a força da guarda da fronteira matou a tiro Márcio Loide, membro da RENAMO, a 2 de janeiro. Os delegados da RENAMO nos distritos de Macanga, Chiuta e Chifunde foram obrigados a abandonar as suas casas porque estão a ser perseguidos por antigos combatentes da FRELIMO.

As Forças de Intervenção Rápida (FIR) em Chipungabeira, província de Manica, foram à fronteira com o Zimbabué e fizeram uma emboscada às populações que estão lá refugiadas, levando os bens dos populares. Ainda em Manica, em Baruè, no posto administrativo de Honde, a FIR invadiu uma propriedade privada, levando 20 mil meticais e outros bens, alegadamente porque o dono da casa era apoiante da RENAMO. A 5 de janeiro, as mesmas forças deslocaram-se a Mussize, província de Tete, e queimaram duas casas e espancaram brutalmente dois habitantes acusados de serem membros da RENAMO.

António Muchanga

António Muchanga, porta-voz da RENAMO

Nos dias 3 e 4 de janeiro, próximo do cruzamento de Macossa, na estrada Chimoio-Tete, elementos da FIR montaram uma cancela, um controlo, onde fazem cobranças ilícitas, entre 50 a 50 mil meticais, aos transeuntes – peões, automóveis, motas, carrinhas ou camiões. No posto administrativo de Vanduzi, na região da Gorongosa, província de Sofala, um dirigente da administração local discrimina os membros da RENAMO na distribuição de alimentos à população. Quatro membros da RENAMO foram retirados da fila para receber alimentos e estão desaparecidos há mais de uma semana.

A 6 de janeiro, dois elementos da FIR ameaçaram um líder comunitário em Canda, afirmando que estavam a fazer patrulha, a menos de dois quilómetros de uma posição da RENAMO. O que ficou combinado quando se decretaram as tréguas foi que ninguém deveria patrulhar em direcção às posições das outras tropas.

DW África: Perante estes incidentes, poderá estar em causa o cessar-fogo provisório?

AM: Se fosse para haver resposta, as forças da RENAMO já teriam respondido.As forças da RENAMO tomaram conhecimento destes incidentes e não reagiram, porque o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, proibiu que reagissem. Mas esta questão está a enfurecer as populações e as forças da RENAMO. As populações dessas zonas, sempre que são atacadas, vão às bases da RENAMO pedir a intervenção das forças do partido. Se até hoje não houve confrontos é porque as forças da RENAMO são disciplinadas. O seu comandante, o presidente Afonso Dhlakama, tem proibido [a intervenção] porque diz que as tréguas devem prevalecer.

Enquanto o Presidente Filipe Nyusi faz o discurso de reconciliação e paz, as forças por ele comandadas fazem outras coisas. Encontramos elementos ligados à FRELIMO a incentivar essas outras coisas. Para que a trégua prevaleça e a paz volte a Moçambique, todos nós temos de respeitar a Constituição. O compromisso assumido por Nyusi é o compromisso assumido pelo chefe de Estado, pelo comandante das Forças de Defesa e Segurança. Não há nenhuma comissão política do partido, não há nenhum comité central do partido que esteja acima do Presidente da República.

Mosambik Filipe Nyusi

Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi

Pedimos que facilitem o trabalho. Cabe aos militantes da RENAMO e da FRELIMO apoiarem as iniciativas de Dhlakama e Nyusi. Se é que há disciplina dentro da FRELIMO.

DW África: Como vêem a actuação das forças do Governo na manutenção destes dias de trégua?

AM: Na maior parte do território nacional, a trégua está a ser cumprida. Em algumas zonas, tais como aquelas que citei anteriormente, não. Pedimos que os comandantes dessas unidades imponham disciplina, porque o comandante-chefe destas forças assumiu o compromisso [da trégua].

DW África: E do lado da RENAMO, quanto aos dirigentes responsáveis pela fiscalização da trégua, como está a ser feito este trabalho?

AM: Temos sentido dificuldades, porque, para além dos comandantes militares, os delegados da RENAMO a todos os níveis – povoações, localidades, distritos e províncias –deveriam estar no terreno para encorajar a população a voltar a produzir. Se a população não conseguir cultivar, vai passar fome no próximo ano. Lamentavelmente, os elementos da RENAMO não podem circular porque têm medo de ser sequestrados e estão a ser brutalizados.

DW África: Apontam o dedo ao Governo e ao partido no poder. Estes incidentes podem prejudicar as negociações de paz?

AM: Estamos a denunciar, a chamar a atenção, convencidos de que os membros da FRELIMO vão sentir este nosso apelo e fazer uma introspecção. Devem perceber que, se votaram em Nyusi para liderar o seu partido, têm de confiar. Devem respeitar as decisões que ele toma, porque são decisões soberanas.

DW África: Garante que as forças da RENAMO não vão reagir a estas provocações que denuncia?

AM: Eu não disse que não vão reagir. Estou a dizer que, até aqui, não reagiram. Mas há provocações. Queremos apelar ao fim das provocações.

Ouvir o áudio 03:31

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