Refugiados querem deixar a África do Sul | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 19.11.2019
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Internacional

Refugiados querem deixar a África do Sul

Refugiados dizem sentir-se inseguros na África do Sul e querem ir para outro país. Sentem-se vítimas de xenofobia. Mas há críticas de que estariam a tirar proveito da situação para chegarem ao Canadá, Europa e Dubai.

No final de outubro, dezenas de migrantes decidiram acampar na entrada do escritório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) na Cidade do Cabo, em protesto contra a onda de xenofobia na África do Sul. Depois de serem reprimidos pela polícia e retirados do local, foram acolhidos por uma Igreja Metodista da cidade.

Sylvie Nahimana, uma burundesa a viver na África do Sul há 21 anos, diz que a xenofobia aumenta de ano para ano e quer deixar o país: "Para qualquer lugar, desde que seja fora deste país. Para um lugar onde estejamos seguros e sejamos reconhecidos como pessoas, não como baratas".

Südafrika Kapstadt | Außeinandersetzungen zwischen Polizisten und Füchtlingen während Protesten vor UN Flüchtlingshilfe

Polícia reprimiu manifestantes em frente ao ACNUR na Cidade do Cabo (30 de outubro)

Violência policial

Durante três semanas, Sylvie e dezenas de outros migrantes acamparam em frente ao escritório do ACNUR na Cidade do Cabo. Dizem que já não estão seguros na África do Sul depois da onda de violência xenófoba em setembro passado, e querem ser levados para outro país.

Mas, em vez de trazer uma solução, a polícia veio - com cassetetes, gás lacrimogéneo e canhões de água - impor uma ordem judicial proibindo os migrantes de acamparem em frente ao edifício.

Sylvie Nahimana ficou ferida no braço. 100 migrantes foram detidos brevemente por se recusarem a deixar o local. "Estou furiosa por causa daquela desumanidade que vi com os meus próprios olhos. Se um polícia pode separar uma mãe e o seu filho, não há futuro para os meus filhos neste país. Quero sair daqui", apela.

Os três filhos de Sylvie nasceram na África do Sul. Mas até hoje não receberam a certidão de nascimento: o sistema é lento e discriminatório, conta a migrante. Agora, Sylvie e outros 300 migrantes encontraram refúgio numa igreja que os acolheu espontaneamente depois da ação policial.

Südafrika l Greenmarket Square in Kapstadt - Flüchtling Sylvie Nahimana

O correspondente da DW, Adrian Kriesch, conversou com a refugiada Sylvie Nahimana

Sul-africanos doam alimentos

Alguns sul-africanos ajudam. Oferecem comida, água, fraldas. Um idoso diz-se revoltado com a ação policial e a xenofobia. Ali Sablay, da organização humanitária "Give of the Givers", recorda os tempos do apartheid, quando os sul-africanos encontraram refúgio noutros países do continente.

"A certa altura, passámos por uma situação semelhante. E essas pessoas deram-nos um lar, quando fomos despejados. Somos todos africanos. Temos de nos respeitar uns aos outros. A xenofobia não tem lugar aqui. Devíamos ajudar-nos uns aos outros e não lutar uns contra os outros", afirma Sablay.

A África do Sul é uma das maiores economias do continente e um destino para migrantes de África inteira. Fogem de guerras, crises económicas, falta de perspetivas e fome nos seus países de origem.

Segundo dados oficiais, 270 mil refugiados vivem no país. Não existem dados exatos sobre o número de migrantes indocumentados e sem autorização de residência. As estimativas variam entre 500 mil e cinco milhões de pessoas.

Mas a economia está em crise: quase 60% dos jovens estão desempregados, a dívida nacional explodiu e há grandes desigualdades no seio da população. 25 anos após o fim do apartheid, a maioria dos sul-africanos continua a viver na pobreza - e o ódio é cada vez mais dirigido contra os migrantes.

Destinos desejados: Dubai, Europa ou Canadá

Os migrantes que estão a protestar na Cidade do Cabo vêm de dez países diferentes, entre eles a República Democrática do Congo (RDC), a Etiópia, a Nigéria e o Bangladesh. A maioria não quer voltar a casa. Também lá, dizem eles, não é seguro. Dubai, Europa ou Canadá seriam os destinos ideais para muitos.

Südafrika l Greenmarket Square in Kapstadt - Methodisten-Kirche

Refugiados estão abrigados na Igreja Metodista da Cidade do Cabo

É por isso que alguns críticos da violência xenófoba veem esses migrantes mais como caçadores de fortunas do que como vítimas.

"Eles querem uma viagem gratuita ao Canadá, mas passam dias e noites com crianças pequenas na rua a céu aberto", comenta um cidadão sul-africano na página da DW África no Facebook. Outro escreve: "Eu vivo na Cidade do Cabo e aqui não houve violência xenófoba".

Sem solução à vista

Na verdade, os recentes tumultos xenófobos não ocorreram na Cidade do Cabo, mas noutras cidades da África do Sul. Mesmo ao lado da Igreja Metodista, numa praça no centro da cidade, há um grande mercado de arte africana.

Muitos comerciantes neste local vêm do exterior e sentem-se confortáveis. Um deles, do Malawi, vende máscaras. Conta que os turistas desapareceram desde os motins. Aponta para os manifestantes em frente à igreja e diz: "Eles estão simplesmente a incomodar as pessoas. Não abri esta manhã por causa dessa situação. Ontem já não ganhei um cêntimo e hoje também não".

Ouvir o áudio 03:57

Refugiados querem deixar a África do Sul

Futuro dos migrantes

Não está claro qual será o futuro dos migrantes. O ACNUR pediu que regressem às suas casas, na Cidade do Cabo. Mas os migrantes discordam.

"Vamos ficar aqui. Se a igreja se cansar de nós, voltamos para a rua e dormimos lá, porque é muito melhor do que estar nos locais onde as nossas vidas estão a ser ameaçadas", assegurou JP Balous, porta-voz do grupo de migrantes da RDC.

Também Sylvie Nahimana, do Burundi, está determinada. Ao lado dela, todos os seus pertences estão dentro de várias malas de viagem. "Não há lugar melhor do que a casa. Fui forçada a deixar o meu país. Não escolhi vir para a África do Sul. Não acordei um dia e disse: 'Deixe-me programar ir de férias para a África do Sul'. Fui forçada a deixar o meu país. O ACNUR e este país sabem que ainda não há paz lá. Se houvesse paz, eu voltaria. Mas como não há paz, disse-lhes para procurarem um lugar onde eu possa ter paz".

Leia mais

Áudios e vídeos relacionados