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Maputo: "Mais do que temer a polícia, estamos determinados"

Braima Darame
20 de junho de 2023

Moçambique prepara-se para a Marcha pela Liberdade no próximo sábado (24.06), na capital moçambicana, Maputo. A DW África falou com um dos organizadores.

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Salomão Muchanga, organizador da Marcha pela Liberdade em Maputo
Foto: DW/L.Matias

A Marcha pela Liberdade em Moçambique tem data e local marcados: o próximo sábado, na capital moçambicana, Maputo. Os protestos foram convocados pela Nova Democracia, um partido extra parlamentar.

Pretendem exigir que se respeitem os valores do Estado de Direito que estão na Constituição da República. Salomão Muchanga é um dos organizadores da manifestação e explica o que estão a contestar.

Protestos em março na capital moçambicana, Maputo
Protestos em março deste ano na capital moçambicana, MaputoFoto: Da Silva Romeu/DW

Salomão Muchanga (SM): Várias vezes os moçambicanos tentaram se manifestar. Podemos nos recordar do 18 de março, quando a polícia exerceu um papel excessivo de repressão. [Mas] a independência e a liberdade são fundamentais. Mais do que isso, também é preciso dizer que a liberdade pode ser conquistada - ou, também perdida.

Na essência, a liberdade é o direito fundamental desde a nossa independência, com o povo no poder. Nós estamos a dizer que devemos exaltar os estímulos à nossa cidadania, utilizando os espaços de rua para efetivamente dizer: "Moçambique está independente e o seu povo livre."

DW África: Quem está a organizar a manifestação?

SM: A Nova Democracia, uma plataforma organizacional da mudança e um instrumento do cidadão para este propósito. Será uma marcha pacífica. [Além disso,] já comunicamos as autoridades sobre a sua realização com 15 dias de antecedência. E, uma vez feita a comunicação, esperemos que as autoridades compreendam que Moçambique é o "império da lei" e que é preciso fazer valer a Constituição da República.

Polícia dispara gás lacrimogénio durante protesto em Moçambique
Polícia dispara gás lacrimogénio durante protesto em Moçambique Foto: Da Silva Romeu/DW

DW África: Não temem uma repressão policial?

SM: Não, pelo contrário. Devemos dizer sempre que precisamos ter uma polícia republicana, que protege e é amiga dos cidadãos. Uma polícia que é, portanto, a salvaguarda da ordem pública. Isso porque esta manifestação é pacífica e não há razão para temer. Aliás, não podemos viver no medo, [pois] temos clareza de que as lutas sociais e políticas têm as suas vicissitudes.

Cartaz em memória dos 20 anos da morte de Carlos Cardoso, em 2020
Cartaz em memória dos 20 anos da morte de Carlos Cardoso, em 2020Foto: Matias Leonel/DW

Como em cada época, há hoje um movimento de homens e mulheres que decide erguer as suas vozes em defesa da Constituição da República. E também para honrar os que derramaram seu sangue, que morreram, na Luta de Libertação Nacional e pela democracia. Estamos a exaltar aqui Eduardo Mondlane, Samora Machel, Afonso Dhlakama. Carlos Cardoso foi assassinado na luta pela liberdade de expressão. O [economista] António Siba-Siba Macuácua [morto quando investigava um caso de corrupção na gestão do Banco Austral] é um símbolo nacional de integridade pública. Alice Mabote, uma combatente pelos direitos humanos. O Azagaia, que foi um mensageiro deste povo, da juventude. Nós temos a clareza de que essas figuras não tiveram medo de perder as suas vidas.

Por isso, não há espaço para as novas gerações trilharem pelo medo, muito pelo contrário. Esta luta representa a esperança de um país de paz, inclusão, liberdade e justiça social. Portanto, mais do que temer qualquer intervenção da polícia, estamos conscientes e determinados – uma determinação inabalável – de que devemos ter esta ousadia pela liberdade, para hoje e sempre.

"O Azagaia tornou-se um movimento"